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PARA ALÉM DA FOTOGRAFIA – DIA 7 (Punta Arenas, Patagónia, Chile)

Por detrás desta fotografia está um dia aparentemente perdido. Mas a verdade é que não o foi.

Terminada a estadia na Carretera Austral, os próximos passos da viagem levar-nos-iam rumo a sul, em direção a Puerto Natales. O objetivo? Permitir-nos deleitar as vistas e todos os demais sentidos do corpo com uns dias repletos no Parque Nacional Torres del Paine. Mas quando em viagem, e em especial quando o tempo disponível para conhecer todas as maravilhas que os locais têm para oferecer não abunda, os dias de trânsito de um lado para o outro mais não parecem que dias perdidos.

Neste caso, o roteiro desde Puerto Montt a Puerto Natales, no sul do Chile, levou a que duas horas de avião se conjugassem a cinco horas de espera por um autocarro no aeroporto de Punta Arenas, e ainda a três horas nesse mesmo (atrasado) autocarro que nos transportaria desde lá até ao terminal rodoviário de Puerto Natales. Mochilas às costas, seria necessário encontrar o local de hospedagem para a noite, pousar toda a tralha e à pressa voltar a sair, já depois das oito da noite, para alugar sacos-cama para os três dias de campismo que se seguiriam. Tudo isto sem esquecer a necessidade de comprar mantimentos para os ditos três dias e ainda qualquer coisa para jantar nessa mesma noite. O maldito dia aparentemente perdido terminou à uma e meia da manhã, com o despertador afinado para nem daí a quatro horas despertarmos e iniciarmos a marcha para o autocarro que nos transportaria, cansados viajantes, para o parque nacional Torres del Paine. O maior destaque do dia, o seu ponto alto, o clímax, foi uma panelada de massa com molho de tomate, acompanhado de uma garrafa de vinho tinto chileno local a dividir por quatro, desde o conforto e calor do nosso lar emprestado para a noite.

Um dia assim parece um dia perdido em toda a viagem, não parece haver volta a dar. Um dia em que nada se fez a não ser andar de um lado para o outro, tratar de coisas, arrumar assuntos e lidar com necessidades imediatas. Algo semelhante ao que fazemos quando estamos em casa, na rotina do nosso quotidiano. Mas a verdade é que sem dias assim não poderíamos chegar onde queríamos, não poderíamos fazer o que desejávamos, e pura e simplesmente não viajaríamos.

Estes são dias aborrecidos, sim, que mais se assemelham a uma perda de tempo. Mas são também dias preciosos, necessários. Fazem parte da jornada e devem, por isso, ser apreciados, desde o panorama geral a todas as pequenas coisas que se sucedem no seu decorrer.

O tempo que temos é uma dádiva, e conscientes disso mesmo somos levados a viver a vida numa urgência desmedida que reclama que a devemos aproveitar intensamente. No entanto, por vezes há mesmo que parar, respirar, ter paciência assumindo que dias assim existem, são necessários e estão cá para ficar. Não menos importante, estes dias estão cá para também eles serem aproveitados ao máximo, apenas de uma forma diferente.

 

Por João Barros

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