Por detrás desta fotografia está uma ajuda. Uma grande ajuda que nos foi dada à chegada a El Chaltén.
Por obra não divina, mas antes da Bárbara, proprietária da cabana em que nos hospedámos à chegada ao pequeno lugar, a primeira coisa que fizemos logo que aí chegados foi ir ao centro de informação montanhista logo à entrada da aldeia. A insistência foi tal que nos decidimos mesmo a ir antes que fechasse logo no dia da chegada, o que diz bem da urgência que nos foi incutida. Assim o fizemos. Pousámos as mochilas na cabana, lançamo-nos à estrada e dirigimo-nos ao bendito centro de informação. Que sorte que o tenhamos feito.
Para além de algumas informações quanto aos melhores trilhos a fazer nesta altura do ano, atenções a ter quanto à meteorologia, o melhor dia para escalar aqui ou acolá, entre outras dicas, a ajuda mais preciosa que nos foi dada foi-o por um ranger do Parque Nacional que nos transmitiu, sem mais e depois de muito enrolar, que desde novembro de 2024 – precisamente o mês em que nos encontrávamos –, cada caminhada no Parque Nacional custaria a módica quantia de quarenta e cinco mil pesos argentinos. Ou seja, quarenta e cinco dólares norte-americanos. Imagine-se a sorte destes viajantes de carteira furada que, ao dia doze da sua viagem, ainda teriam de desembolsar quarenta e cinco dólares por caminhada (não por dia, por caminhada!), em virtude de uma decisão entrada em vigor uns meros dias antes, quando tal nunca acontecera até então. Mãos à cabeça fruto desta novidade tão inesperada, o espírito positivo do mais otimista dos viajantes, que sou eu, logo começou a desfalecer.
Em abstrato parece-me um absurdo cobrar uma quantia tão elevada – se alguma, aliás! – apenas e tão só para caminhar na natureza. A cobrar-se algo, que não sejam quarenta e cinco dólares por trilho, algo que me parece claramente exagerado e parece ir de encontro ao turismo seletivo que por aqui se tenta praticar. Não é quem quer que cá vem, é quem pode e faça muito esforço nesse sentido. Por esta razão, desde logo, a ideia de pagar tal quantia por cada caminhada abalou-me e chateou-me.
Por outro lado, a surpresa contribuiu para um sentimento de derrota antecipada. As autoridades haviam começado a cobrar as referidas taxas nem há um mês, e a verdade é que quando a viagem havia sido preparada, dentro dos possíveis, desde o conforto do lar em Portugal, tal premissa não foi tida em consideração para o orçamento desta viagem, há muito derrapado e irremediavelmente ultrapassado.
Acrescente-se ainda que à nossa imagem, também os habitantes de El Chaltén pareciam partilhar uma dose desmedida de insatisfação. Em vários restaurantes, lojas e estabelecimentos comerciais perdidos pela pequena aldeia era possível verem-se pequenos papéis colados nas paredes e janelas com a mensagem No al cobro de la montaña!. Não poderia dizer melhor. A razão de ser destas mensagens é de fácil perceção. Se a pequena aldeia vive de turismo, e as autoridades públicas vão fazer de uma estadia aqui o equivalente a uma estadia num resort de luxo em termos de custos associados, corre-se um sério risco de as pessoas deixarem de cá vir. Se o dinheiro cobrado aos caminhantes ficasse nesta zona e fosse usado para conservar a natureza circundante ainda seria uma coisa, mas aparentemente, tais pesos argentinos vão diretamente para Buenos Aires e para o governo central, o que também não abona a favor das excessivas taxas que se passaram a praticar por esta zona.
Se assim o é, onde está então a ajuda que nos foi dada? Onde é que, no meio desta notícia, a sorte sorriu a quatro caminheiros que viram a sua vida malparada e por breves instantes ponderaram fazer apenas uma, no máximo duas caminhadas, nos cinco ou seis dias que se seguiriam?
A preciosa ajuda foi dada pelo ranger com quem estávamos à conversa e que partilhou connosco a dramática informação. O referido ranger, não se limitando a assumir o posto de arauto da desgraça, antes foi, leve e suavemente, ao longo da conversa, deixando cair algumas pistas que nos permitiriam não pagar o astronómico valor que nos seria, à partida, cobrado. Como se de Hansel e Gretel nos tratássemos, seguimos essas pequenas e valiosas dicas como se de migalhas de pão se tratassem, na expectativa de encontrar o admirável mundo novo da caminhada gratuita na natureza. E assim aconteceu.
Sob o pretexto de que as taxas praticadas pelo governo matariam o turismo na zona e consequentemente levariam à quebra da qualidade de vida dos habitantes de El Chaltén, o bendito ranger lá nos transmitiu que haveria formas de fazer os trilhos que quiséssemos sem nada pagar. Desde evitar a passagem nos postos de controlo, à indicação de atalhos para apanhar os trilhos mais à frente, onde nenhuma fiscalização existiria, a passar pelos postos de controlo, sim, mas antes das oito da manhã, já que as pessoas que lá trabalham, vindas de outra vila – aparentemente ninguém de El Chaltén terá acedido à oferta de emprego, em face da controvérsia que tal geraria na comunidade local -, apenas a essa hora iniciavam a sua jornada laboral e, portanto, antes disso não cobrariam o que quer que fosse, as dicas foram muitas. Prolongar as caminhadas até depois das cinco da tarde, hora a que terminada a jornada dos ditos fiscalizadores, ou mesmo defendermo-nos, caso com eles nos cruzássemos antes disso, com o argumento de que ninguém lá estava para cobrar quando iniciáramos a caminhada e que, portanto, não poderia ser cobrada qualquer quantia à saída do trilho, foram muitas as recomendações que nesse dia recebemos.
Recomendações e dicas que, repita-se porque de violações da lei não se tratarão em sentido absoluto, nos foram facultadas por um oficial público, e que de tal forma, aos nossos olhos, se trataram de indicações válidas e pertinentes de um oficial com autoridade para o efeito que. direta e ostensivamente. nos explicou como deveríamos contornar a lei.
Acima de tudo, um conjunto de recomendações que tornaram a nossa estadia em El Chaltén muito mais prazerosa, barata e aceitável, e que nessa medida foram recebidas por nós com um grande sorriso.
Muito obrigado pela ajuda!
Por João Barros



