Ouvidos ao alto

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Há mais de 10 anos atrás, a propósito de um projeto documental relacionado com tradição oral que me fez viajar por Portugal registando sons, imagens e desenhos de crianças, comecei a dar-me conta da forma como o som se inscrevia nos lugares por onde passava e no inconsciente coletivo das comunidades que visitei. Nessa altura, estava ainda longe de saber que iria dedicar a década seguinte (e as que a esta se seguirão) a essa reflexão.

Comecei por me aperceber da forma como o som, tal como outros elementos da paisagem, me ajudava a identificar um lugar. Trás-os-Montes soava-me de uma maneira, o Douro Litoral de outra, e nessa busca pela identidade acústica dos sítios por onde passava descobri o conceito de Paisagem Sonora, que me trouxe algumas respostas e um importante novo mundo que me acompanhou e se refletiu em tudo o que fui fazendo desde então.

A primeira coisa que percebi é que a forma como eu ouvia aqueles lugares estava condicionada pela meu próprio conhecimento e abordagem no momento das captações. A paisagem sonora não se limita a uma lista interminável de fontes sonoras numa dada localização; ela foca-se igualmente na maneira como ouvimos o mundo. A relação entre nós, ouvintes, e a paisagem sonora é feita em dois sentidos. Somos tanto ouvintes como produtores de som num processo contínuo de causa e efeito, e vamo-nos ajustando ao ambiente sonoro através de uma arquitetura aural que é influenciada pelos nossos hábitos e convenções sociais.

É evidente que despertar para este sentido nos torna, por assim dizer, mais atentos a todas as nuances do ambiente sonoro.

A segunda coisa que percebi foi que a maior parte do tempo estamos imersos numa atmosfera acústica sem termos consciência disso. Se pararmos um pouco à escuta, apercebemo- nos imediatamente do zumbido de uma ou outra lâmpada, do chiar de portas, do rangido dos passos, do sussurro dos vizinhos ou do zunzum do trânsito, sons que tantas vezes nos passam despercebidos, mas que afectam a maneira como nos relacionamos com o mundo, o nosso estado de espírito, as nossas percepções e o nosso comportamento. Os sons entram na nossa consciência, vão pontuando o nosso quotidiano e providenciam uma estrutura para a interação. Muitas vezes estes sons são apenas um som, mas por vezes o que ouvimos torna-se realmente significativo, instalando-se na nossa mente e afetando a nossa visão do mundo, as nossas emoções e o nosso comportamento. E isto acontece a cada momento, porque cada ação ressoa num lugar qualquer.

Sabemos que a nossa compreensão do mundo resulta de um processo cognitivo complexo que envolve todos os sentidos, bem como a história, o contexto e a cultura em que nos inserimos. Parte integrante deste processo é a percepção acústica, onde muitas vezes o ruído é sobrevalorizado e exprime uma interpretação negativa dos diferentes componentes sonoros. O ruído foi desde sempre uma preocupação para o homem. Na Roma antiga, Júlio César proibiu a circulação de carruagens durante a noite devido ao ruído emitido pelas rodas de ferro, que impediam os romanos de dormir. Mas os problemas de ruído do passado são bem diferentes dos que existem hoje em dia nas nossas cidades, onde a complexidade de atividades humanas e a mobilidade efervescente conseguem por vezes impedir-nos de ouvir o canto tranquilizador de um pássaro, o murmúrio apaziguante das águas ou a suavidade de uma brisa por entre as folhas das árvores. De certa forma, os sons naturais correm o risco de extinção e isto terá numerosos efeitos na forma como escutamos o mundo.

A terceira coisa que percebi foi que, embora o som seja um parâmetro relevante na percepção humana, esta variável é muitas vezes negligenciada pelos profissionais envolvidos no planeamento, desenho e gestão dos lugares. Na verdade, o discurso político a nível internacional tem vindo a revelar uma preocupação crescente com os problemas do mundo acústico, mas esta aproximação é muitas vezes negativa, focada na redução quantitativa e objetiva dos níveis de ruído o que, apesar de necessário, não garante uma melhoria significativa no ambiente sonoro ou na satisfação e qualidade de vida das pessoas. É necessária uma abordagem multidisciplinar que acrescente aos aspetos físicos do som os contributos das ciências sociais e humanas, e que ajudem a estabelecer uma relação entre ambiente sonoro e sociedade.

Foi perante estas descobertas que decidi permitir-me o tempo necessário para aprofundar estas questões. E foi neste contexto que surgiu o meu primeiro documentário sobre som e paisagens sonoras. O título do filme evidencia a relação com uma das principais metodologias de análise subjetiva das paisagens sonoras: Soundwalkers. Aqui, o percurso sonoro funciona como um gatilho para temas que alargam o campo do audível, integrando pensamentos e reflexões que nos transportam para uma compreensão do ambiente acústico.

Em Novembro de 2016 estive em Valparaíso, no Chile, para uma residência artística de um mês no festival de arte sonora Tsonami.

Aqui dei continuidade a esta pesquisa audiovisual que se compõem de diferentes paisagens sonoras registadas em vários lugares no mundo. O ponto de partida é o passeio sonoro, um método empírico para a identificação de uma paisagem e dos seus componentes em diferentes espaços. A que soa uma cidade? Como é que a ouvimos?

Valparaiso é um anfiteatro natural, com colinas abissais que amplificam os sons de fundo, uma cidade portuária, viva, selvagem e industrial. Todos os elementos vibram ao mesmo tempo em Valparaiso: o ar, que transporta os sons através do vento. A água, representada pelo mar, ou pelo porto que nunca dorme. O fogo, que é uma ameaça sempre presente, sentida nos alarmes de incêndio e no ruído da construção. E a terra, vivida em dois planos muito diferentes: a colina e o vale, onde se concentra grande parte da actividade comercial, industrial e portenha da cidade.

A cidade é feita destes pequenos ritmos a cada instante, interações que se estabelecem entre as pessoas e os lugares num determinado momento. É nesta dinâmica que se define o murmúrio da cidade e a tonalidade afetiva das suas ruas e dos seus espaços.

 

Texto e foto por: Raquel Castro

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