Duane Michals morreu a 9 de junho de 2026, em Manhattan, aos 94 anos. Com a partida de Michals, a fotografia fica mais pobre, pois Michals era um dos grandes nomes, daqueles cujo trabalho era quase obrigatório mostrar por qualquer professor minimamente conhecedor da história da fotografia. Michals foi um dos inovadores fotográficos mais influentes do século XX, célebre pelas suas intrincadas sequências de imagens, exposições múltiplas combinadas com texto, numa altura em que a fotografia era ainda definida sobretudo pela captação de “instantes decisivos” à la Cartier-Bresson.
Em vez de reproduzir a realidade, Michals interessava-se pela expressão de mundos interiores, na difícil quimera de representar sonhos ou questões metafísicas, encenando sequências fotográficas que se apropriavam do formato cinematográfico fotograma a fotograma, e incorporando texto manuscrito diretamente sobre a imagem impressa – não como mera legenda mas como camada adicional de sentido. Duane Michals era um orgulhoso autodidata, recusando pertencer a qualquer movimento fotográfico, sendo a sua obra mais próxima dos movimentos surrealistas, citando a influência de Magritte ou Giorgio de Chirico. Em 1965, Duane Michals visitou o artista surrealista René Magritte em Bruxelas, passando uma semana com ele, período durante o qual fez retratos utilizando dupla exposição. Segundo reza a lenda, Magritte mostrou-lhe filmes caseiros e, durante o jantar, assistiam à série clássica “Bonanza”, dobrada em francês. A influência dos surrealistas levou Michals a rejeitar a fotografia documental e a declarar que “fotografar a realidade é não fotografar nada”.
O desaparecimento de Duane Michals marca o fim de uma geração de fotógrafos que provaram que a câmara podia servir a imaginação e não apenas para registar a realidade. Com Michals, gerações de autores aprenderam a pensar a fotografia como narrativa, memória e imaginação. Michals foi também um acérrimo crítico do mundo da arte contemporânea e das aproximações da fotografia às formas clássicas da pintura, nomeadamente através da escala. O falecido fotógrafo ficou conhecido por descrever o modelo de galeria da Gagosian como o “beijo da morte”. Michals detestava a obsessão do mundo da arte contemporânea pela escala monumental, argumentando que as galerias acreditavam erroneamente que “se é grande, é arte”. Por seu lado, as imagens de Michals eram propositalmente pequenas e concebidas para uma contemplação silenciosa e próxima, quase íntima. Aos seus olhos, a “máquina” da arte contemporânea esvaziava a fotografia de sua poesia, transformando-a numa mera mercadoria corporativa.
As suas mais de quarenta publicações, o vasto arquivo depositado no Carnegie Museum of Art, e a presença da sua obra em coleções como o MoMA, o Metropolitan ou o Getty, garantem que a influência da linguagem visual de Duane Michals perdurará e continuará a influenciar quem fotografa hoje, independentemente da escala em que esta for apresentada.
Carlos Lobo, docente da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa



