Os Conselhos de José, o teimoso

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Roberto era um jornalista frustrado como tantos outros. Sonhava “mudar o Mundo, escrever artigos do caraças”, mas falhara em tudo. Chegara e escrever alguns textos e mesmo a publicar um livro, mas como diria o cineasta que lhe deu origem, “toda a gente cagou para aquilo”. Para “não escrever mais”, decide fugir para o Alentejo e começa a trabalhar numa quinta.

Esta é a história de Roberto, mas poderia ser a história do seu criador, José Oliveira. Se juntarmos algumas visitas mensais à família, retirarmos a fuga para o Alentejo e substituirmos o jornalismo pelo cinema, claro. Bracarense de gema e criado em S. Mamede de Este, José prepara-se lançar as suas duas primeiras longas-metragens. “Os Conselhos da Noite” é uma delas. Nas palavras do cineasta, este é um filme no qual a cidade de Braga “é quase uma personagem”, redescoberta por Roberto, o protagonista.

 

No meio de uma Guerra, surgem os Conselhos

Os Conselhos da noite surgiram nos primeiros três anos de filmagens de “Guerra”, a outra longa-metragem do cineasta. A origem foi um guião escrito em 2014 em conjunto com o seu amigo João Palhares, crítico cinematográfico e um dos fundadores do Cineclube de Braga, ou, como diria o realizador, “outro cinéfilo e alguém que conhece bem Braga”.

Os dois resolveram criar “um filme sobre Braga”, a Braga que José encontrou depois do seu regresso. José deixara a capital minhota na era de Cónego Melo, o famoso vigário da Sé que controlou a Roma portuguesa até à sua morte, em 2008. Era a altura quando nada se passava na conservadora cidade dos arcebispos, num espelhar do seu padrinho. No seu regresso, em 2014, José e Palhares encontraram “uma cidade jovem, com uma energia porreira”. Fartos dos forasteiros que consideravam Braga “a cidade mais quadrada do país” (sem alguma vez lá terem posto os pés), resolveram escrever a resposta sob a forma de um filme.

Daniel Pereiro, da produtora The Stone and The Plot, agarrou neste projeto e ajudou José a levá-lo ao Instituto do Cinema e do Audiovisual, cujo parecer favorável chegou em 2018. Além disso, a câmara municipal bracarense “também deu uma ajudinha”, afirma o cineasta.  Com o dinheiro nas mãos, José viu-se obrigado a parar “Guerra” no meia do percurso, confessando “ainda não saber quando o irá lançar”.

 

Roberto, o filho pródigo

Uma doença complicada toma o seu corpo e Roberto decide voltar para a sua terra natal. “Vai para Braga para morrer”, na esperança de um fim de vida mais fácil por “não se passar nada lá”.

Porém, quando chega, descobre uma cidade diferente, “com muita música, muita poesia” e cujos habitantes têm “uma mente mais aberta”. Descobre uma Braga “mais jovem, com uma nova visão”. A surpresa reanima-o e Roberto ganha uma nova energia. Como se não bastasse, conhece Sara, o que acentua tudo isto.

Esta é a história do novo filme de José Oliveira, os “Conselhos da Noite”. Segundo o próprio, “uma história universal: alguém que vai morrer para o sítio onde nasceu, mas ressuscita”. Ou por outras palavras, “uma versão moderna da parábola do filho pródigo”, acrescenta o cineasta numa referência à narrativa bíblica. Tal como Jesus com o filho pródigo, José também pretende enviar “um raio de esperança” através de Roberto, pretendendo mostrar a possibilidade de “dar sempre a volta às circunstâncias”.

 

Tiago Aldeia estreia-se no cinema

O cineasta bracarense nunca tinha trabalhado com atores profissionais, excepto do teatro, mas “uma produção com este investimento tinha de seguir outros critérios”. Chegara a hora de escolher um protagonista. Tiago Aldeia nunca havia participado num filme, mas José sentiu “a intuição típica de um realizador” e decidiu convidá-lo para protagonizar o seu filme. O realizador receou ouvir um não, mas o “Rodas dos Morangos com Açúcar” aceitou à primeira, “mesmo com uma agenda preenchida”.

O papel de Roberto serviu como uma luva ao ator lisboeta. Num filme “com muitos silêncios” e onde “o protagonista entra em todas as cenas”, a expressividade é essencial. Tiago revelou-se “brilhante na comunicação através das expressões faciais e do olhar”.

A facilidade de interpretar um personagem aumenta quando o ator “se empenha a 100 por cento”. José recorda “as chamadas às duas da manhã a perguntar o que achava desta e daquela ideia”. No argumento inicial, Roberto não esperava pela morte. Tiago sugeriu essa hipótese porque sabia que José “precisava de um personagem em perda”. O próprio sotaque bracarense poderia ser um enorme desafio, mas “ele fez o esforço de trabalhar a sua pronúncia”, falando um dialeto bracarense “meio diluído”, como dos retornados da capital.

 

Morais de Macedo e o seu Vicente.

Vicente é uma das pessoas que vê Roberto de Braga. Quando o protagonista regressa, “nasce uma amizade entre os dois”. José descreve-o como “um personagem tipicamente bracarense”. Inspirado no gerente do cinema do Braga Shopping onde José “ia na juventude”, esta figura divide o seu tempo entre esse cinema e “o seu bar meio clandestino”. O objetivo das duas personalidades era o mesmo: “dar a Braga aquilo que lhe faltava, cultura!”

O papel de uma figura “na sombra da Igreja e da sociedade bracarense” só poderia caber a uma pessoa: o jurista Adolfo Morais de Macedo, mais conhecido como Adolfo Luxúria Canibal. O vocalista dos Mão Morta protagonizou “a luta contra o conservadorismo e a gelidez da Braga do passado”. A sua banda era o cúmulo de uma alternativa, de “uma tentativa de forçar a barrar, de criar algo mais duro, mais sombrio, criar poesia”. A luta de Vicente, com o seu bar e o cinema como armas, representam uma homenagem “àquilo que os Mão Morta foram para os bracarenses”.

Ao contrário de Tiago, Adolfo não tem dificuldades com o sotaque nem com a cidade. Conhece-a como a palma da sua mão e “fala à Braga”, acrescentando “uma dimensão de verdade ao filme. Isso refletiu-se quando o José deixou mudar os diálogos, “desde que mantivesse o espírito”. O músico chegava a acrescentar expressões locais às suas falas. O realizador não disfarça o riso quando recorda a pergunta improvisada de Vicente a Roberto: “precisas que aperte o gasganete a alguém?”.

 

Ou tempo ou dinheiro

Segundo um antigo professor de cinema do ESMAE, “ou há tempo ou há dinheiro”. Quando um filme tem muito dinheiro envolvido, os prazos surgem. José ficou com apenas “duas a cinco semanas” para realizar todo o filme. Algumas cenas “foram filmadas num dia”.

O “sistema industrial do cinema”, como o cineasta bracarense lhe chama, obrigou-o a ter o “mapa de rodagem muito melhor definido”. Havia muito trabalho a fazer depois da pré-produção. Se José não tivesse isso em conta, “perder-se-ia muito dinheiro”.

José teve de se adaptar a este modelo, embora “gostasse de ter mais tempo para filmar”. Além disso, a tensão presente nesta película torna-se mais visível. Nas palavras do seu criador, um filme onde “personagens estão sempre a derrapar” sai a ganhar se “for filmado à pressa”. Por força das circunstâncias, todos no elenco se tornaram atores método.

 

 

Alô? Alexandra Lencastre?

José nunca imaginou que algum dia “teria duas longas metragens para lançar”. Mas a realidade é só uma: “Guerra” e “Os Conselhos da Noite” estão prontos a sair.  No primeiro caso, uma obra que exigiu muito esforço, incluindo “da família e da Marta”, que investiram no projeto. Mas o cineasta afirma mais uma vez: “eu não desisto! Eu sou teimoso!”.

Tão teimoso que já está a preparar mais dois guiões. O irreverente avançado do Sport Lisboa e Benfica, Vítor Batista, é o protagonista de um desses projetos. “Uma biografia” do craque, sem esquecer “a mítica interrupção do jogo com o Sporting quando deixou cair um brinco”.

O outro guião diz respeito a “uma atriz envelhecida, que procura um refúgio. Inspirado no “Sunset Boulevard” de Billy Wilder, José criou o papel de uma diva, com “a atriz Alexandra Lencastre em mente”.

Alexandra, se estiver a ler este artigo, ligue à The Stone and The Plot. Trabalhar com José Oliveira vale bem a pena.

 

Por Pedro Maia Martins

Foto: Nuno Sampaio

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