Ode ao discurso universal na estreia em Portugal de Suite nº4, de Encyclopédie de la parole

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A temporada de teatro inicia-se com a perfomance musical Suite nº 4, da companhia Encyclopédie de la Parole, de Joris Lacoste, com composição musical de Pierre-Yves Macé e Sébastien Roux, e interpretação musical do ensemble Ictus. Em Lisboa, o espectáculo tem lugar na Culturgest, no dia 1 de fevereiro, e no Porto, no Teatro Rivoli, no dia 4 de fevereiro.

Ao longo de quinze anos, o artista francês Joris Lacoste construiu um vasto acervo de vozes, contendo mais de mil gravações com fragmentos de discursos, anúncios, confidências, leituras e instruções. Com este material, criou a série de espetáculos Suites, que se tornou um sucesso em festivais e teatros de todo o mundo.

Ao som da música de Sébastien Roux e Pierre-Yves Macé, interpretada ao vivo pelo Ensemble Ictus, as gravações transmitem os mil pormenores registados pela gravação original, numa orquestração de vozes que transmite a variedade e a riqueza infindável da comunicação humana. Neste capítulo final da série, Lacoste opta por dar a ouvir as vozes do seu acervo sonoro sem a mediação de atores. Os próprios falantes regressam do passado para falar com as suas vozes, a sua melodia original, o seu tom único, a sua respiração própria.

Para encerrar a sua série de Suites, lançada em 2013 como parte do projecto Encyclopédie de la parole, o objetivo final passa por puxar os limites do gesto, até à abolição do seu princípio. Nas três primeiras Suites, que tiveram a sua estreia em Portugal em 2014 (Suite nº1), 2016 (Suite nº 2) e 2018 (Suite nº 3), os performers eram os guardiães de palavras que não eram suas, mas que tinham que as reproduzir tão fielmente como possível. Na Suite nº4, esta condição desaparece completamente e é só apresentado em palco, o som original das gravações que anteriormente eram interpretadas.

As gravações sonoras recolhidas ao longo de uma década por Joris Lacoste, Oscar Lozano Pérez e Elise Simonet, acompanhados por cerca de quarenta colecionadores convidados, vêm uma após outra na sua forma mais simples. Na tradição da Enciclopédia, a excertos selecionados formam uma viagem sensorial que traduz a pluralidade do mundo e faz com que o espectador navegue de língua para língua, de cidade para cidade, de época para época, de forma para forma e de tema para tema.

Desta forma, o público viaja velozmente no mundo através de diálogos, como uma conversa entre dois bebés para um sorteio da lotaria espanhol; de um discurso português com um forte dialeto para uma visita de um museu americano; de um concurso de líderes de claque tailandesas à previsão do tempo marinho sueco; um tutorial de bricolage encontrado no YouTube para a voz automática do metro de Moscovo. A passagem do discurso sonoro é realizado sem transição nem separadores.

As gravações podem ser ouvidas em inglês, italiano, alemão, francês, hebreu, tailandês, espanhol, japonês, malaiala, sueco, neerlandês, árabe, português, napolitano, russo, gaulês, escocês, coreano, susu, xangainês, catalão, siciliano, grego, tomáraho.

Sobre Encyclopédie de la parole
Encyclopédie de la parole é um projeto artístico que explora todas as formas de palavra dita. Desde setembro de 2007, a companhia vem reunindo gravações diversas e catalogando-as segundo fenómenos específicos. A partir desta coleção, que inclui mais de 1300 documentos disponíveis gratuitamente no seu sítio, a Encyclopédie de la parole faz uso das gravações para produzir peças sonoras, performances, espetáculos, conferências, concertos e instalações.Sobre Ensemble Ictus
Ensemble Ictus é o principal grupo de música contemporânea de Bruxelas. Fundado numa altura em que os conjuntos se viam a si mesmos como miniorquestras formadas por solistas altamente técnicos, o Ictus transformou-se num coletivo multifacetado de músicos criativos que se dedica à música experimental no sentido mais lato.

Sobre Sébastien Roux
Sébastien Roux imagina novas situações de escuta. Usa algoritmos, jogos, movimento, espacialização e diagramas para articular duas ideias complementares: a perceção da forma e as formas da perceção. O seu trabalho assume várias formas: sessões de escuta guiadas usando altifalantes, concertos com projeção de partituras gráficas, instalações sonoras e apresentações pensadas especificamente para os locais. Tem um mestrado multidisciplinar em ciências e tecnologias musicais.

Sobre Pierre-Yves Macé
A música de Pierre-Yves Macé situa-se no encontro da clássica contemporânea, composição eletroacústica e arte sonora. Uma parte importante do seu trabalho tem por base sons gravados, documentos ou arquivos, utilizados como material privilegiado para escrita instrumental. A sua música é publicada pelas editoras Tzadik, Sub Rosa e Brocoli. O Festival de Outono em Paris programou concertos monográficos das suas obras em 2012, 2016 e 2020. Compôs muitas partituras para espetáculos de teatro e dança.

Sobre Joris Lacoste
Joris Lacoste vem escrevendo para teatro e rádio desde 1996 e vem dirigindo as suas próprias apresentações e espetáculos desde 2003. Em 2007, fundou o coletivo Encyclopédie de la parole, no âmbito do qual foram criados sete espetáculos. Joris Lacoste criou igualmente inúmeras apresentações e participou em várias exposições em museus e centros de arte. Também traduziu três peças de Shakespeare para o encenador Gwenaël Morin.

Os bilhetes para o espetáculo na Culturgest, em Lisboa, custam entre 5€ e 16€ (descontos) e estão à venda na Culturgest e na Ticketline.

Foto:Suite n°4 KFDA 21 Lacoste © Anna Van Waeg

Créditos:Speak

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