O vírus que nos pôs de castigo

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Imaginemos uma família: o pai, um promissor candidato ao melhor emprego do mundo, chega tarde a casa e sempre com a boca cheia de virtudes perante os colegas, desgraçados que nunca sabem nada. A mãe, que se compacta nas inúmeras formas de ser mulher, chega a casa, desce dos saltos altos e marca encontro com os tachos. Não lavou as mãos e em silêncio, lança pragas à vida que escolheu, ao homem presunçoso que escolheu e ao emprego que a escolheu. Os dois filhos armam-se de chinelos nas mãos e pontapés perdidos na disputa pelo telemóvel da mãe, esquecida na cozinha. Há berros que disparam e se instalam no ego de um pai que, esforçado como é, nem um beijo dos miúdos recebe. Silêncio reposto pelo berro mais forte, o pai dirige-se à cozinha e sem gestos, não pede beijos, não pede nada. Senta-se e perde-se no vórtice de notícias que lhe disparam o alarme do telemóvel. As horas passam, velozes, e quando se dá conta do corpo que lhe escapa, percebe o fim de mais um dia. Levanta-se e o silêncio da casa desperta-o para o sono dos miúdos, já garantido em cada um dos seus quartos. A mulher finge dormir e esquece, também, as tentativas de lhe contar o dia, um fio que ainda lhe ata a memória aos tempos de namoro. Adivinhavam-se dias iguais. Um amanhã ritmado pelas horas de quem leva filhos à escola, de quem distribui tarefas, de quem não quer chegar atrasado. De quem esquece o telemóvel e corre, apressado, para o recuperar.

Mas naquele dia, tudo foi diferente.
Entre um ontem apressado e um hoje congelado, a família caiu em quatro paredes. Dizem que foi um vírus que tentou entrar-lhes porta adentro, vinha zangado como um pai quando os filhos se portam mal. O castigo não deixava espaço para dúvidas: portas fechadas, corpos afastados, mãos lavadas e interdição total a beijos e abraços.
Todo um novo mundo parecia estar a brotar deste castigo estranho. De um momento para o outro, a família percebeu-se fechada em casa, com medo. Os abraços que acalmam tinham de ficar para lá da porta, sem prazo de reabertura.
Imaginemos uma família que é o mundo todo. Um mundo novo que reclama reclusão e fartura de tempo. Se até então a primazia do telemóvel imperava, hoje é o refúgio das famílias que desesperam na saudade de um abraço que não deram. Se até então as pessoas faziam perder tempo, hoje são procuradas entre ecrãs para encolher um tempo que se alastra como espuma. Uma família que é o mundo todo e que, de tanto querer, deixou de ser tudo. De tanto reclamar a falta de tempo, Deus ouviu e na ironia mais sublime, sonhos foram realizados. O tempo abunda entre a solidão dos dias acelerados em que para ser, é preciso de ter. A má conjugação dos verbos é agora o reflexo de um mundo que, também ele, se confundiu nas prioridades e, confuso, fechou-se em si mesmo.

A todos os pais candidatos ao melhor emprego do mundo, a todas as mães e mulheres que se ramificam e estão cansadas de saltos altos, a todos os filhos perdidos entre castigos sem sentido, camuflados em jogos de tirinhos, a todas as famílias que são o mundo, que somos nós, aprendamos com o vírus que nos pôs de castigo. Em todo e qualquer castigo impera uma questão que foi magistralmente colocada por Richard Yates: “… não se trata da pior perda possível? Quando a pessoa se dá conta do valor de algo depois de a deitar fora?”

Pensemos. Pensemos.

Por Denise Rolo

Blogue Literário «Ler(-te)»

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