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O trânsito que vá Pokhara(lho) - Pokhara

O trânsito que vá Pokhara(lho) – Pokhara

Detesto o trânsito. Por todas as razões e mais algumas, detesto-o. Chego mesmo a ser uma daquelas pessoas que até não se importa de seguir um caminho alternativo e chegar mais tarde, ou demorar mais tempo – nos casos em que não tenho de chegar a hora nenhuma a lado algum, como costuma suceder -, se isso implicar não estar parado no trânsito.

As filas intermináveis de trânsito remetem-me para uma falta de paciência e humanidade gritantes, para um mundo em que toda a gente se movimenta para os mesmos locais à mesma hora – porque será? -, em que todos têm o seu próprio meio de transporte, ou mesmo mais do que um. Remetem-me para um mundo em que ninguém tem tempo para nada e apenas olha para o seu próprio umbigo, em que se apita por tudo e por nada e também porque alguém demorou mais do que um segundo a arrancar depois de o semáforo ter ficado verde. As filas sem fim e a azáfama do trânsito recordam-me que vivemos num planeta em que não se deixam passar peões nas passadeiras, em que não se cede passagem aos outros, antes se optando por ignorar a sua existência e nem sequer um olhar lhes dirigir. Um mundo em que discussões são travadas consecutivamente à distância, dentro do conforto do carro de cada um, e em que o ritmo frenético da vida das pessoas passa para a estrada e afeta todos aqueles que, por azar, com elas se cruzaram a uma determinada altura e hora do dia. Por tudo isto e por mais, muito mais, não gosto de trânsito.

Creio não ser disparatada a opinião de que é no trânsito e na estrada que se vê muito daquela que é a educação das pessoas. Não só a educação como também o respeito que as pessoas têm umas para com as outras. Sendo esse o caso, lamentavelmente tenho vindo a concluir que a educação e o respeito não são para todos, nem parecem existir em abundância por aí. Se tal acontecesse nenhum iluminado se lembraria de parar o carro no meio de uma estrada de sentido único, impedindo a circulação de todas as outras pessoas ao arrepio das necessidades que todas elas, tal como ele, têm, apenas e tão só para ir fazer um recado de dois minutos, certo? Como assim alguém toma a liberdade despropositada de estacionar o carro no meio do passeio, mesmo em cima dele, ocupando-o na totalidade, fazendo com que todas as pessoas no exercício de um dos seus mais basilares direitos – o de andar por aí, na rua -, se tenham de desviar, ir para o meio da estrada às vezes de bengala, outras de andarilho ou até mesmo de cadeiras de rodas e com carrinhos de bebés, pondo-se a jeito para ser atropelados e levar com um carro, uma mota, uma bicicleta ou, nos dias de hoje, com uma trotinete em cima? Infelizmente vê-se muito disto por aí. Como assim não se cede passagem a alguém que, numa fila interminável de carros estanques, vimos estar num cruzamento há mais de cinco minutos a tentar, sem sucesso, entrar na rua principal? Não sou o pináculo da educação, reconheço. Mas o que é feito da mais basilar humanidade das pessoas? Onde foram parar a compaixão e o respeito pelos outros? Na estrada não se encontram de certeza, e a verdade é que se ali não os encontramos talvez não os encontremos mesmo em lado nenhum. É por estas e também por outras que não gosto nada de trânsito.

Ainda assim, arriscando-me a dar o dito por não dito, há um tipo de trânsito de que até gosto. Não que goste, vá, mas que até tolero. Bem, na verdade é um trânsito que só de nele pensar me faz aparecer um sorriso na cara. Poderia estar aqui a referir-me a muitos dos tipos de trânsito que, ao longo deste ano, vivi e experienciei no continente asiático, em especial no seu Sudeste. Mas não. Antes vou optar por me referir a um trânsito em particular, que é o trânsito das ruas do Nepal. Em concreto, um tipo de trânsito que pode ser encontrado nas estradas que vão dar a Pokhara, tanto provenientes de Jinu Dandah como de Kathmandu. No primeiro caso, um trânsito que transforma sessenta quilómetros de jipe em três horas e meia de solavancos atribulados. No segundo, um trânsito que faz de duzentos e dez quilómetros num autocarro local uma aventura de nove horas de trambolhões e pedidos a quem quer que acreditemos que exista que zele pela nossa vida, numa estrada que ziguezagueia pelo meio das montanhas, por entre terra batida, pedras, buracos e poças de água, com um precipício sempre a ameaçar engolir-nos à nossa direita.

Este é um trânsito que resulta, desde logo, do mau estado das estradas, as quais têm mais buracos que pedaços planos alcatroados e em condições de serem utilizados enquanto via de locomoção. É um trânsito de carros velhos, de autocarros do século passado, de motas com três ou mais pessoas sem capacete que nelas se empoleiram a alta velocidade, de pessoas que andam a pé por aí e também de cães que, todos eles sem exceção, desrespeitando o sentido das vias, tando andam de um lado para o outro como descansam na beira da estrada chamando a si a propriedade de uma faixa que lhes fica exclusivamente reservada por tempo indeterminado. Mas não só. Nestas estradas cruzamo-nos ainda, em cada pedaço delas, com todos os tipos de animais. Vacas sagradas, búfalos com cornos para todos os gostos e feitios, cavalos, burros e mulas de transporte, galinhas e patos bravos que são também todos eles donos da sua quota-parte de espaço, deambulando desvairadamente, sem rumo aparente, por todo o lado, assim contribuindo para elevadas doses de caos e confusão. De quando em vez deparamo-nos até com milhares de ovelhas e cabras a ser guiadas, no meio da estrada, recorrentemente contra o sentido da marcha, por pastores empunhando cajados feitos de bambu, os quais, foi-nos dito, se dirigem periodicamente a Nayapul para um festival hindu que chama pastores e rebanhos de todos os cantos da região e que por mero acaso se realizará por um destes dias. Este é um trânsito no qual à noite, vá-se lá perceber porquê, nem toda a gente acende as luzes do seu veículo, dificultando de sobremaneira o trabalho, já por si só árduo, de todos aqueles que por estes lados se aventuram a conduzir rumo a Pokhara.

Este é um trânsito de que eu gosto, ou de que posso gostar. Há muita confusão, sim, como se de um expoente máximo de caos e anarquia em ebulição se tratasse. Mas este é um caos aparentemente organizado, no qual ninguém apita a não ser para avisar que está prestes a realizar uma ultrapassagem mais ou menos perigosa. Nestas estradas persiste uma sensação e um sentimento de ingovernabilidade sem igual, os quais, apesar da insanidade que lhes está associada, acabam por ser o habitáculo para um trânsito que flui de forma natural e aparentemente harmoniosa. Um trânsito em que ninguém se chateia, em que não se detetam discussões, em que não há cá insultos nem gestos obscenos de parte a parte, em que cada um se limita a seguir o seu caminho e o de trás que se cuide e acautele. É um trânsito em que as regras são para todos ou, melhor dizendo, em que a falta de regras – isso sim – é que é para todos. Isto é, as regras não são para ninguém e tudo vai funcionando bem assim. Deste modo, quanto mais não seja assegura-se um certo nível de igualdade e justiça rodoviária, reduzindo-se substancialmente o espectro de existência para um que chico-esperto se ache mais inteligente que os outros. Nestas estradas todos são chico-espertos, ou então não há cá chicos-espertos para ninguém. Assunto resolvido. Este é, na verdade, um trânsito de que eu até posso gostar.

Por estas e por outras, da próxima vez que der por mim preso num trânsito infernal algures em Portugal – e, vivendo no Porto, certamente terei a minha dose de trânsito ao qual não conseguirei escapar -, tenho a solução para os meus problemas. Num tal momento, em que esteja a ser vilipendiado por buzinadelas e insultos silenciosos bastar-me-á, ainda que momentaneamente, fechar os olhos. Aí, recordar-me-ei que em alguns lugares do mundo, como no Nepal, é possível estar parado numa fila de trânsito infindável e ainda assim ser feliz.

Por João Barros

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