O que se passa a dezoito metros de profundidade? – Koh Tao

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Quando se fala em viagens à Tailândia somos de imediato levados para as suas ilhas do Sul. Como pano de fundo da motivação de atravessar metade do mundo num ou mais aviões sobrelotados estão as praias de areia branca e a água azul-turquesa que, conjugada com o verde da vegetação que se arrasta até ao oceano, nos remete para um filme digno de Hollywood com o Leonardo DiCaprio como protagonista.

Uma justificação ponderosa para, logo de seguida a Banguecoque, se ir diretamente para o Sul da Tailândia – em específico, para Koh Tao -, é a vontade de, no início de uma longa viagem, se pretender obter uma licença de mergulho. Porquê no início? Porque, numa clara alusão ao fenómeno FOMO – Fear Of Missing Out -, está sempre presente o receio de se perder uma boa oportunidade de mergulho em algum dos sítios por onde se conta passar ao longo do percurso. Porquê Koh Tao? Porque alegadamente há coisas para ver quando se está no fundo do oceano a fazer mergulhos de treino e dessa forma junta-se o útil ao agradável. E porque é barato, muito mais barato que outros sítios…

Mas não é acerca de opções forretas que quero aqui escrever. Aquilo sobre que quero falar é sobre a experiência de mergulhar. É isso que importa.

O ser humano não foi feito para passar demasiado tempo debaixo de água, nem tão pouco a profundidades significativas. Essa é uma das razões que faz do mergulho algo de tão especial. Quando mergulhamos sentimo-nos novamente miúdos na escola, prontos a desafiar – de forma sempre educada, claro está – o professor e as regras afixadas a fita-cola no hall de entrada. E isso faz parte da emoção de mergulhar: ‘eu não devia estar a fazer isto, mas vamos lá ver no que dá’.

Quando mergulhamos somos transportados para um mundo diferente. Um mundo em que nos movemos a três dimensões, em que o peso dos nossos corpos não acusa os excessos decorrentes da deliciosa mariscada que, à superfície, acabamos de comer. É um mundo em que o conceito de gravidade pouca ou nenhuma relevância tem, em que embora nos sintamos em plena estação espacial num exercício de gravidade zero, a verdade é que dela nunca estivemos tão longe. Quando mergulhamos tornamo-nos os mais delicados e graciosos bailarinos, donos e senhores de movimentos de causar ciúmes ao mais prestigiado ballet. A diferença? Os sapatos de pontas são trocados por enormes barbatanas e o corset dá lugar a um fato também ele excessivamente apertado e que deixa pouco espaço à imaginação no que respeita aos contornos da figura humana.

Quando mergulhamos estamos num mundo distorcido. As cores, ainda que não mais intensas, ganham uma tonalidade especial fruto dos raios de sol que, atravessando a superfície do oceano, nos brindam alegremente com uma palete digna dos mais prestigiados pintores. Os seres vivos que avistamos são desconhecidos para os nossos olhos, geram em nós uma vontade insaciável, mas que tem de ser controlada, de sentir com os nossos próprios dedos as suas peculiares texturas. Os sons são longínquos e arrastam-se vagarosamente até nós, tal como o faz a maré que, ao pôr-do-sol, traz até à areia as novidades do dia num tom ameno e salgado. O que está longe parece estar perto e torna-se inexplicavelmente alcançável. O nosso corpo não pára nunca de ondular ao sabor das marés e das correntes e toda e qualquer tentativa de o domar está invariavelmente votada ao insucesso.

Quando debaixo de água damos por nós rodeados de novas sensações e de seres vivos com os quais não parece ser natural interagir. Peixes, coral, crustáceos e até outros mergulhadores nos seus fatos escuros e com botijas de oxigénio às costas. Mas ainda assim, quando mergulhamos, estamos sozinhos. Estamos a sós com os nossos pensamentos, com a nossa respiração. Não conversamos com ninguém, não ouvimos coisa nenhuma e se pudéssemos evitar olhar para outras pessoas assim o faríamos. Ouvimo-nos a nós, à nossa respiração – qual Darth Vader pronto para conquistar a galáxia -, escutamos o silêncio salpicado pelos sons do oceano e nada mais. E é mágico, podem crer que sim.

Mergulhar é uma experiência tão intensa e simultaneamente relaxante que, quando obtive a minha licença mereci uma reprimenda da minha instrutora. A razão? Gastava o oxigénio depressa de mais. Nas suas palavras, aqui traduzidas e quiçá um pouco enviesadas, o meu estado de espírito estava algures num ponto intermédio entre ‘demasiado entusiasmado’ e ‘relaxado em demasia’, o que implicou que cada vez que inspirava e expirava o fizesse tão profundamente quanto a profundidade a que o meu corpo se encontrava. O resultado? Uma botija de oxigénio gasta a olhos vistos e companheiros de mergulho não tão felizes assim com a perspetiva de o seu tempo debaixo de água ter sido reduzido em demasia. No fundo, depois de tentar colocar em palavras aquilo que senti, cheguei à conclusão de que estava demasiado à vontade num local onde não deveria estar, e isso fez com que me sentisse demasiado empolgado. É estranho, não é?

Depois de mergulhar pela primeira vez percebi que vivo num planeta bem maior do que aquele em que habitei até ao momento. Um planeta com mais possibilidades para investigar, mais portas por abrir, mais experiências por viver, mais seres vivos por descobrir. E a verdade é que uma tal sensação, para alguém que não nutre especial apreço por se sentir acorrentado à impossibilidade – meramente imaginária e não raras vezes autoimposta – de explorar tudo aquilo que o planeta tem para lhe oferecer, não deve ser desperdiçada pelo simples facto de sabermos que, no fundo, não devíamos estar ali.

Texto e fotografia por:  João Barros

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