O que Amália gostava de ser

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Em 1980, Amália teve vontade de cantar quem era. A doença nos anos anteriores pode ter urgido a necessidade de escrever seus próprios poemas, que deram vida ao seu álbum “Gostava de ser quem era”, o primeiro inteiramente autoral. Eu que não sou um estudioso de sua biografia, fico a especular o que ela pretendia dizer ao mundo, quando já gozava de todo prestígio internacional. Imagino que estivesse a pensar na verdade inevitável de que não somos donos de nossa própria história. Não temos controle sobre o olhar alheio que ora nos aplaude, ora nos sentencia.

Amália sabia disso. “Quando fizerem a minha história e eu já não for viva para dizer como foi, então é que se vão fartar de in- ventar. Mesmo falado por mim muita gente dirá que não é verdade, que os boatos é que são a verdade. Uma pessoa é dona de si própria. Se fosse essa a verdade não me importava que falassem. O que me irrita é a mentira. Mas sei que a minha história vai ser aquela que escolherem, aquela que é a mais interessante, aquela que não é a minha.”

Esse é o fado do estrelato. Perder o domínio sobre a própria biografia. Enquanto Amália era a moçoila que vendia frutas no cais da Rocha, o anonimato lhe resguardava. Mas quem busca o aplauso paga o preço de ver criar, à sua revelia, um alter ego, uma projeção aumentada ou idealizada do eu. Quando ganhou o palco, a filha de Albertino e Lucinda brilhou. E nos anos seguintes, brilhou mais do que imaginava. Não sabia ela que Portugal precisava de uma Amália. De uma diva que entronizasse a mística de ser português. E talvez, quando se apercebeu de quem todos falavam, já era ela a Amália Rodrigues, a rainha do Fado.

O comentário dela acima faz-me pensar que Amália sofreu ao perder o controle sobre sua biografia. A mentira lhe doía. Não era a perda da vida privada, para a qual todo artista deve estar supostamente preparado. Era perceber que, à medida que lhe endeusavam, mais distorcida era a imagem de seu alter ego. Era a vida que perdera algo importante no tempo.

É claro que alcançar a condição de ícone de um povo é a consagração máxima de um artista. Sua realização está em diluir-se na alma coletiva, de habitar as consciências alheias, de ferir as notas mais sensíveis de seus corações. Mas o artista logo percebe que ele verdadeiramente não é essa entidade deificada, embora sinta o peso de ser a sua matriz.

Terá Amália se arrependido de ser Amália? Se responder, poderei estar-se já não estou – entre esses que estão a inventar sobre sua vida. Por isso, restrinjo-me a especular. Quis ela tornar-se embaixadora de um povo? Pretendeu representar algo além de si mesma, de sua sensibilidade lírica? Buscou ser a intérprete de uma nação que buscava novos heróis nacionais?

A resposta poderá ser não para todas as perguntas. Mas Amália não teve a vantagem dessa visão retrospectiva do tempo. Ela foi arrastada de roldão pela história. Seu talento excepcional foi tragado pela ânsia coletiva de uma nova deidade portuguesa. Talvez preferisse apenas ter tido a oportunidade de cantar às multidões, de arrepiar-se sobre o palco do Olympia, a distinguir na plateia faces embevecidas por sua voz inconfundível. Talvez quisesse simplesmente ter dividido o palco da vida e do teatro com tantos outros talentos grandiosos de outros lugares. Talvez desejasse apenas o mágico encontro com o público, suspenso pelo fio dos acordes do fado. Sem as ideologias nem as políticas. Sem a canonização de seu nome.

E afinal, que Amália gostava ela de ser? Os biógrafos responderão melhor, mas eu digo que, quiçá, queria ela ser a Amália que cantava apenas, aos milhares ou às dezenas somente, indiferente ao poder que sua imagem produziu no imaginário e ao interesse de quem disso queria fazer uso estranho. Porque “todo sofrimento eu sinto que a alma cá dentro se acalma nos versos que canto”. Cantar para deixar a existência mais tolerável. Cantar como catarse e viver do talento “que foi Deus que lhe deu”. Como grande, talvez Amália quisesse tão-somente o mais essencial. Cantar e viver.

Por Luiz Garcia

Ilustração por Luís Teles

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