O poder de um riso – Pai

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A estrada que liga Chiang Mai a Pai é composta, nem mais nem menos, por setecentas e sessenta e oito curvas. Leram bem, são mais de três quartos de um milhar de curvas ora montanha acima, ora montanha abaixo, numa carrinha dimensionada para doze mas que no nosso caso transportava quase duas dezenas de pessoas. Sorte a nossa que nenhum dos companheiros de viagem tenha tido problemas a nível de estômago. Caso contrário a coisa poderia ter-se tornado bem menos agradável de relatar.

Por que razão importa saber o número de curvas de uma tal estrada? Para demonstrar o quão desafiante para a saúde física e mental foi a viagem que nos levou ao próximo destino no meio das montanhas do Norte de Tailândia. Mas também para colocar a descoberto que o nosso estado de espírito, quando chegados à guesthouse que havíamos reservado para descansar nas cinco noites seguintes, poderia não ser o melhor. Não era. Nem o melhor nem o mais entusiasmado. Mas prossigamos.

Ali chegados, depois de trinta minutos de caminhada com mochilas de quase quinze quilos às costas, não nos cruzámos com ninguém que aí parecesse trabalhar. Olhamos à nossa volta, perguntamo-nos onde poderíamos encontrar alguém com quem falar, mas nada. Até que, à chegada à aparente zona da receção da guesthouse, a nossa atenção foi imediatamente direcionada para um papel colado com fita-cola na parede. Neste podia ler-se o seguinte: “If you need anything, just ask for Mom”. O que quereria aquilo dizer?

Nem um segundo havíamos tido para digerir tão estranha informação quando irrompeu pelos nossos tímpanos um som estridente. Era o som de um riso, mas não se tratava de um riso qualquer. Não. Este era um riso que fez com que, num ápice, todo o cansaço e sono, toda a fadiga física e mental que nos dominavam segundos antes, fossem de imediato substituídos por uma curiosidade tal que todos os pêlos dos nossos braços estavam já de pé. Um riso que entrou pelas nossas orelhas dentro sem sequer bater à porta e que pode ser melhor descrito da seguinte forma: um som que se situava algures entre o verdadeiro e genuíno significado de felicidade, por um lado, e a recordação de uma agonia estridente que teima em não nos deixar, por outro.

Foi assim que conhecemos a Mom. A Mom era a proprietária da guesthouse, uma antiga professora tailandesa compulsoriamente reformada que assumiu para consigo própria a missão de tornar o quotidiano daqueles com quem se cruza uma experiência inesquecível. Que sorte temos em que alguém como a Mom já se tenha reformado, imaginam?

Não desconsiderando as outras qualidades que certamente se lhe poderiam apontar – a constante disponibilidade para ajudar todos aqueles que a ela recorressem, a preparação e oferta de pequeno-almoço incluído no já reduzidíssimo preço da noite, os carinhos feitos no cabelo das pessoas por quem passava, entre outras -, aquela que me parece ser de destacar é que a Mom faz tudo a sorrir. Mas não só a sorrir. Antes a rir-se histericamente, digamos assim. Tal e qual isso, sim. Leram bem. A Mom fazia sempre tudo a produzir o tal barulho que é o ponto médio entre a genuína felicidade e a agonia estridente. Aquele que já tive a oportunidade de referir. E fazia-o alto, muito alto. Tão alto que, caso estivéssemos numa ponta da guesthouse sabíamos perfeitamente a todo o momento por onde andava a Mom, qual bussola reveladora do seu paradeiro a cada segundo.

A verdade é que o riso da Mom teve em mim um duplo efeito, um que antecipo possa também estender-se ao resto das pessoas que têm a sorte de a conhecer. Para começar, o seu riso, fonte de carinho e calor, prende-nos àquele sítio por tão bem, desejados e protegidos nos fazer sentir. Um deleite. Ainda assim, em simultâneo, e aqui está o reverso da medalha, aquele é um riso que nos afasta. Porquê? Já se está bem a ver o porquê. Um dia inteiro exposto ao som proveniente do riso da Mom, com os decibéis a um tão alto nível e de forma tão contínua quanto aquilo com que à data fomos brindados, não só pode ser perigoso para a saúde como também não é a banda sonora de fundo desejada quando vamos para uma guesthouse longe do centro de Pai para descansar, ler e apenas olhar para as montanhas.

Pensando bem, é como se o riso da Mom tivesse o estranho poder de transformar a relação entre ela e os que a ouvem numa relação maternal do mundo animal irracional. Por um lado, o som do seu riso constitui a fonte de conforto e segurança de que todas as crias necessitam quando chegam ao mundo pela primeira vez. Por outro, o seu riso tem o condão de dela nos afastar, de nos incitar a ir conhecer o desconhecido, de sairmos dali, da nossa zona de conforto, preparando-nos para o mundo lá fora. Como se de crias que estão prontas para uma vida de solidão nos tratássemos, somos forçados a aventurar-nos no desconhecido.

Durante as nossas conversas a Mom não proferiu mais do que dez palavras em inglês, e a verdade é que de forma alguma isso constituiu um obstáculo à forma como comunicámos. Nem pensar. Um sorriso do tamanho do dela, um riso tão verdadeiro provindo de um sítio tão profundo dentro de si, faz-nos sentir compreendidos, confortáveis, faz-nos sentir em casa. Algo que a quase dez mil quilómetros de distância do Porto é digno de registo.

Ainda hoje, enquanto escrevo estas linhas consigo ouvir o seu riso na parte de trás do meu cérebro. A sensação é boa, muito boa. A memória do riso da Mom transporta-me para outra altura, para outro lugar. Leva-me de volta a Pai, ao norte da Tailândia. Estou deitado numa rede em frente ao bungalow, os últimos raios de sol banham as montanhas ao final do dia. Com uma cerveja ao lado, dou por mim a tentar adivinhar como é possível ser-se assim tão feliz.

Texto e fotografia por:  João Barros

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