O Grande Ecrã

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“O cinema é um modo divino de contar a vida”  –   Federico Fellini

O cinema… a sétima arte… sempre desencadeou em mim um turbilhão de emoções e sentimentos, experiências enriquecedoras, assustadoras e inesquecíveis, o trigger ideal para um momentâneo escape à realidade, a possibilidade de mergulhar num universo paralelo, onde os protagonistas nos dão a conhecer através dos seus olhos todo um mundo virtual capaz de nos transportar de novo para a nossa infância, para os nossos receios, para os nossos sonhos e para todo um mundo de possibilidades, aventuras e desventuras.

Sozinho, acompanhado, na sala de cinema, no conforto do lar, com pipocas, sem pipocas, seja qual o setting escolhido, sei que irei viajar para destino incerto, mas com toda a convicção, com aquela ânsia pelo desconhecido, à boleia de toda uma narrativa que me permita absorver tudo o que caracteriza a condição humana, com todos os defeitos e virtudes que ela acarreta.

Tal como em relação a quase tudo, o gosto por cinema, pelos filmes, está sujeito a estados de espírito… ‘o que te apetece ver hoje?’ Talvez esteja com sede de sangue e me apraz um serão com o Scorsese, entrando assim no táxi do Travis Bickle e pagando de bom grado uma bandeirada a caminho da revolta e da vingança, culminando num glorioso tiroteio for the ages…ou talvez esteja mais num mood galhofeiro e queira embarcar no ‘Aeroplano’ dos irmãos Zucker e gargalhar sem apelo nem agravo à pala do traumatizado piloto Ted Striker e restantes personagens cartoonescas… interrogar o Nicholson em ‘Uma Questão de Honra’ com a ajuda do Cruise? Why not? É só uma questão de saber se aguento ou não a verdade… que tal acompanhar um hobbit na sua demanda para destruir um anel e seu criador Sauron? Vamos lá então a galope com o Gandalf e na companhia do bipolar Gollum… conheces Gotham City? Já marquei viagem. Teremos uma visita guiada pelo Nolan e um encontro marcado com um morcego milionário e um palhaço psicopata. Confuso? Não te preocupes. Logo, logo, entenderás… and so on. Toda uma panóplia de possibilidades, pick your poison. Garanto-te que irás adorar e pedir por mais.

O cinema causa impacto, põe muitas vezes as coisas em perspectiva, obriga-nos a reflectir, a contemplar e a questionar, seja numa decisão pessoal, familiar ou amorosa, proporciona-nos a capacidade de projectar certas frases, atitudes e trejeitos para o nosso dia-a-dia, adaptando-as à realidade como uma oportuna muleta de julgamento, decisão e tomada de posição. Não me iludo, aquela afirmação, tantas vezes repetida, ‘isto só mesmo nos filmes’ faz muito sentido. A realidade não se dá ao luxo de tirar proveito de um enredo previamente elaborado, onde tudo é um mar de rosas e um happy ending é dado adquirido. O realizador somos nós, a imprevisibilidade é latente e o impacto físico é palpável. Ninguém grita ‘corta!’ e dá o mote para um novo take. No entanto, é inegável que o cinema nos proporciona, em doses moderadas, mas convictas, um sentimento de conforto e de pertença, como aquele amigo ou familiar que já não vês há muito tempo, mas, quando o reencontras, parece que nunca se separaram e que o carinho por ele está lá, sempre esteve lá. Um escape? Uma ilusão? Talvez. Mas que por vezes bate forte, isso é certo. E em cheio, na mais profunda essência do nosso ser.

Tal como a Literatura, a Pintura, ou qualquer outra arte, o cinema mostra-nos um espelho, um espelho da realidade, da imaginação ou de algo que nunca existiu, mas um espelho de algo que ganha vida. Fantasia ou realidade, há sempre uma forma de nos identificarmos com ele e suas histórias. É o reflexo daquilo que somos, enquanto seres humanos e sociedade, tal como é uma constante lembrança da História e do que não podemos deixar que aconteça de novo, como importante catalisa- dor para um presente e um futuro melhor.

Perfeitamente conscientes e com os pés bem assentes no chão, mas sempre que puderem deixem-se levar pela tela, pelas histórias, pelo enredo… riam, chorem, julguem, mas sintam, porque afinal de contas, a nossa vida dá mesmo um filme.

Por Gustavo Homem

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