Artigo

O BANQUETE DA CHANFANA DE SÉNECA AOS ROJÕES DE NIETZSCHE – PEDRO LOUREIRO

“A escolha do diálogo para esta obra de poesia dota-a de uma amplidão de vozes na qual uma fina ironia, por vezes, deixa implícita uma capacidade de visão do poeta em relação a temas valorosos da história, da metafísica, da mitologia e da arte, não como uma discussão ensaística, mas a partir dos próprios seres que a engendraram. Giorgio Coli, em sua obra O nascimento da filosofia, aponta que «Platão inventou o diálogo como literatura, como um particular tipo de retórica escrita, que apresenta num quadro narrativo os conteúdos de discussões imaginárias a um público indiferenciado. Este novo género literário recebe do próprio Platão o novo nome de “filosofia”». No caso, a referência a um dos mais famosos diálogos do filósofo grego, O Banquete, torna explícita a referência ao gênero inaugurado por Platão, mas aqui a diferença é que Pedro Loureiro não assume a posição de um «filósofo» (um amante da sophia), mas sim a posição abandonada pelo próprio Platão: a de um poeta. Ou seja, de alguém que não se apresenta como portador do logos, mas apenas como um meio, como uma abertura que, à medida que se abre, esconde o próprio rosto. Os diálogos deste O banquete da chanfana de Séneca aos rojões de Nietzsche não são constituídos como fios que nos conduzem a uma conclusão, como alguma verdade que pudesse ser atingida por uma ascese do discurso. Pelo contrário, a verdade dos diálogos (quando ela se propõe a existir) surge ao modo de uma revelação, tal qual um antigo oráculo (Quis o amor/Que a morte/Fosse o esquecimento) ou uma sentença da ordem dos mistérios (Aos homens resta-lhes/Uma imitação de sangue/Um desejo de regresso ao informe). Isso tudo entrecortado por momentos de pura sensorialidade como no caso de Ares & Afrodite (Se ao acordares/Eu aqui não estiver/Contenta-te com tua mão/Ou o que mais te aprouver). Com isso, afasta-se do diálogo platônico e aproxima-se da poesia dramática, tal qual em Diálogos com Leucó de Cesare Pavese, ainda que este mantivesse a presença efetiva das personagens em uma estrutura mais tradicional.”

Prefácio de Augusto Meneghin

Editora Urutau

O banquete da chanfana de Séneca aos rojões de Nietzsche

 

 

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