Minha vida é um cinema

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Como filmes nos traduzem e abrem uma porta paralela para suportar a vida

Meus primeiros amores tinham vocação para o fracasso. Eles beiravam o impossível – ou o improvável – e talvez só tenham existido para que um coração adolescente descobrisse a potência de amar e, por consequência, o seu talento para a frustração. É nesse território do intangível – nessa fumaça de vontades irrealizáveis – que a arte se manifesta sublime e necessária. E entre as suas formas, o cinema foi a salvação de muitos de meus sonhos e de alguns de meus devaneios amorosos. Sim, Nitszche estava certo, é a arte que torna a vida suportável. Quantas angústias são silenciadas ou esquecidas na sublimação artística? Quanta de nossa insatisfação existencial é anestesiada pela fantasia que recria a realidade?

O cinema, em especial, é uma porta para uma dimensão paralela. E quantas vezes cruzei essa porta para ficar perto de uma realidade que, alheia aos meus dias, se iluminava na tela da ficção. Outro dia, lembrei-me de “Verão de 42”1, com sua inesquecível música-tema assinada por Michel Legrand. Não foi porque aquele retângulo reluzente transbordava a beleza hipnótica de Jennifer O´neill que o filme permaneceu em mim passadas mais de três décadas.  Foi porque a película tragou-me para aquela história de um adolescente que se apaixona por uma mulher mais velha. Foi porque o jovem Hermy compartilhava comigo esse mesmo sentimento naufragável de amar quem não se podia. Mas, diferente de mim que não passei da quimera, Hermy teve seu instante de beleza e amor. Foi nessa janela quântica que me meti para diminuir a frustração do platônico adolescente que fui.

Os filmes, é bem verdade, revelam muito de nós. Um pouco mais velho, ainda não perdera eu a inclinação para amores difíceis. Por isso entendi o padecimento de Richard (Christopher Reeve) em “Algum lugar do passado”2 na sua busca febril por uma mulher de outro tempo. E confesso ter torcido para que o amor se consumasse e traísse o enredo previsível de toda retumbante história de amor. Pois o que ensina a arte é que os maiores amores são os irrealizáveis. A banalidade da convivência empalidece o amor, pois deixa de ter o brilho épico das histórias que desafiam todas as adversidades.

Entretanto, não só de amor vive a arte. A vida aspira por grandeza. E o cinema é pródigo na produção de heróis. Há os que preferem os fantásticos, capazes de derrogar as leis da natureza e salvar a humanidade da extinção. Sinceramente, prefiro um John Keating, de Sociedade dos Poetas Mortos3, que não conseguia voar nem deter locomotivas, mas tinha o talento excepcional de fazer seus alunos alçarem voo. Instigava neles uma coragem poética que tornava sedutora a ideia de uma vida autônoma, livre das convenções de uma sociedade castradora. Era um herói dos mais perigosos. Não salvava vidas. Ele as empurrava para o abismo. E dali, seus alunos encaravam a face de seus medos. Alguns recuavam, incapazes de dar um salto que lhes custaria o conforto do consenso. Outros, profundamente subvertidos pelo mestre, se lançavam ao espaço noturno das incertezas. John Keating era um mestre para aqueles que sentiam a ardência de um chamado. Um capitão para almas que aspiravam a uma vida que fosse viagem sem porto de chegada.

Há outra classe de heróis que o cinema produziu. Um herói às avessas. O bizarro Powder4, um retraído adolescente albino com capacidades incomuns, que num mundo melhor seria tratado com uma joia da humanidade. Neste mundo de feiuras, sua figura exótica e suas habilidades excepcionais só despertavam o pior dos homens. Era um herói cujo poder era a sua própria fragilidade, porque, podendo revidar letalmente a agressão, preferia deixar exposta a brutalidade de seu agressor. Era um messias de nosso tempo que compreendia a força transformadora de um espelho a refletir aos medíocres e estúpidos toda a magnitude de sua mediocridade e estupidez. Quando revejo a cena final de Powder, penso como seria se ele persistisse ficar entre nós, ou se, neste planeta de coisas ainda tão horrendas, haveria mesmo lugar para um Powder. Depois, acabo por me render à beleza daquele sprint libertador sobre a pradaria, os braços alvos erguidos ao alto como se buscassem o colo maternal do universo. A música magistral de Jerry Goldsmith coreografando os passos de Powder em direção ao seu fim apoteótico. E cai uma tristeza sobre as testemunhas daquela transfiguração, as do enredo e as que disfarçam o pranto à frente da tela. E nos percebemos ali, humanos, indignos de presenças mais luminosas entre nós.

O cinema nem sempre precisa recorrer à ficção para nos inspirar uma vontade de grandeza. Alguém mais terá sentido, no suplício de William Wallace, em Coração Valente 5, a mesma pequenez de sua vida e a urgência de acrescentar à existência uma razão ou duas de estar no mundo? Ao ser estripado em praça pública, quando dizer “misericórdia” poderia findar a agonia da execução, Wallace insiste.  Junta todo o seu último ar para gritar a palavra pela qual morria. Até o sopro final, viveria por uma causa e inflamaria uma ideia invencível de liberdade.

Na minha lista de heróis reais ou verossímeis há ainda lugar especial para o Major Jack Celliers, um oficial inglês aprisionado num campo de concentração na Ilha de Java. E me pergunto porque o coloco nessa lista. Não é – já vou dizendo – porque, em Furyo (Merry Christmas, Mr. Lawrence) 6, é o camaleônico Bowie que encarna o rebelde prisioneiro de guerra. Mas é inegável que a figura magnética do músico ator empresta a Celliers um carisma transbordante. O que me atrai nele, entretanto, é o fato de não pretender nenhum heroísmo nem grandeza, sem superpoderes, sem capa nem cinto de utilidades. O fabuloso de Celliers era sua reles humanidade, de onde emergia uma bravura indômita, típica dos heróis, que não pesam o risco de fazer o que é certo. Quando Celliers saiu da formação em direção ao capitão Yonoi, este prestes a executar o comandante inglês Hicksley, ela caminha com a fleuma e a convicção de que não havia outro gesto possível. Enquanto se plantava de escudo entre condenado e executor, ele talvez lembrasse que a covardia pode salvar a própria pele, mas é uma fábrica de dores, porque o medo é a pior dos cárceres – o consentido. Quando é beijado por Celliers, capitão Yonoi colapsa, porque o beijo expunha seus piores medos. Diante dos outros, o de macular a sua honra militar.  De frente para o espelho, o de admitir um amor platônico, impossível e impronunciável.

 

Diretores

1 Robert Mulligan /  2 Jeannot Szwarc /  3 Peter Weir / 4 Victor Salva5 Mel Gibson / 6 Nagisa Ôshima

 

Por Luiz Garcia

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