Mayra Andrade ON TOUR

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“Manga” é o 5º longa-duração de Mayra Andrade e já se encontra disponível nas lojas e em todas as plataformas digitais. A digressão europeia de apresentação já passou por Londres e tem ainda datas agendadas em Berlim e Paris, onde actua no prestigiado La Cigale, antes de regressar a Lisboa, para dois espectáculos no Capitólio dias 1 e 2 de Março. A primeira data já se encontra esgotada. A procura foi tanta, que a artista decidiu fazer uma segunda data no dia 2 de Março. Os bilhetes já estão à venda nos locais habituais.

5 anos após a edição de “Lovely Difficult”, a artista abraça uma nova sonoridade em “Manga”, misturando afrobeat, música urbana e ritmos tradicionais cabo-verdianos. Mayra Andrade nunca soou tão actual, sem perder as suas raízes num álbum cantado em português e crioulo de Cabo Verde, gravado entre Paris (França) e Abidjan (Costa do Marfim).

Para alcançar a nova abordagem criativa, Mayra convidou Kim Alves, seu amigo e músico, e Akatche, talentoso beatmaker, a participarem neste trabalho. Romain Bilharz, que já trabalhou com Stromae e Feist, e 2B, beatmaker  próximo da música urbana de Abidjan e Dakar, são os dois co-produtores do disco.

Este disco, conta com a presença de alguns músicos da composição das músicas que fazem parte do mesmo. João Gomes marca presença no instrumental de “Limitason”, “Terra da Saudade” tem letra e música de Luísa Sobral, e o tema “Guardar Mais” é da autoria de Sara Tavares. A música “Badia” tem letra de Cachupa Psicadélica.

Mayra Andrade – Afeto

 

 

 

“Manga” de Mayra Andrade

Notoriamente ausente do panorama musical nos últimos cinco anos, Mayra Andrade está de volta com um novo álbum notável. Neste disco, mergulha profundamente na música da sua ilha nativa de Cabo Verde, reinventando-a com uma nova inspiração rítmica.

Mudanças e movimentos

Nascida em Cuba, Mayra Andrade passou a sua infância em Cabo Verde. Também viveu no Senegal, Angola, Alemanha, França e vive actualmente em Portugal. A sua experiência de viajar pelo mundo deu-lhe aquilo que os treinadores vocais poderão denominar de mais do que um simples “instrumento”. E todos estes locais diferentes e ricos deram bastante “quilometragem” à sua voz. Independentemente disso, uma coisa é certa: Mayra tem de estar sempre em movimento. “Quando coloco os auscultadores, não consigo ficar quieta quando ouço músicas de que gosto mesmo que possa parecer esquisita”. O ritmo é um elemento fundamental para esta alma em movimento. F Do calor do fado, até ao bambolear das mornas, passando pelo tango e samba das costas longínquas da América do Sul, Mayra Andrade criou a sua própria herança musical. Sempre uma viajante, irá levar-nos para locais desconhecidos.

O seu pequeno local no Atlântico está, na verdade, no alto do continente africano. No entanto, os faróis da história da música da ilha parecem ter ignorado essa realidade tectónica por demasiado tempo. Mas tal não acontece agora com o seu “instrumento” em movimento. Certo dia, a música africana deu-me um toque no ombro e disse: anda, vamos fazer a nossa visita”, eu percorri as ruas de Abidjan, Lagos, Dakar e ouvi tantos ritmos! É impossível fugir”. Pouco tempo depois, com Kim Alves, o seu fiel guitarrista, decidiram procurar o local para a gravação deste álbum entre Paris e Abidjan. Romain Bilharz, o director musical que já trabalhou com nomes como Feist, Ayo e Stromae, pegou na batuta e juntou-se a 2B, um criador de ritmos da Costa do Marfim e nome consolidado no panorama musical de Dakar. Juntos, uniram esforços com Akatche, Momo Wang e JC, os três oriundos do panorama musical urbano e Afrobeat de Abidjan para formar um tipo de “Riddim Rang”. Renaud Létang (Seu Jorge, Feist, Empress, Manu Chao, Lianne La Havas, etc.) trabalhou nas consolas de mistura, formando assim uma equipa de sonho do continente e a mulher da ilha, Max Leguil (Melodie Gardo, Agnes Obel, entre outros) fez a mistura de “Plena”, o tema icónico do álbum onde o lamento da ilha ecoa nos tons staccato da Kora da região do Sahel. O som é um pequeno gostinho de música de fusão altamente ecléctica, uma mistura descontraída de música urbana contemporânea e música tradicional. O Afrobeat agita a ilha verdejante sem sequer trepidar. Pelo contrário, criam uma perfeita harmonia sonora. Imaginemos a secção rítmica musculada de Fela Kuti a acompanhar a voz melodiosa de Cesária Évora. Quem sabe que pérolas poderão sair desta colaboração. Neste álbum, descobrimos o que acontece quando Morna, Coladeira, Funaná, Batuque, entre outros, e todos estes ritmos de Cabo Verde se juntam ao Afrobeat moderno: nasce uma nova música. É claro como água.

Tempo

Nos primeiros álbuns, deixamos a música transportar-nos”. Falávamos mais do que fazíamos. “Descobrimos que as nossas vidas eram demasiado aborrecidas e sem paixão suficiente para que valesse a pena entrar em grande pormenor“. Depois, o tempo passou “e em algumas canções, surgiram alusões, elipses…”. O passado persegue-nos, coloca-nos dúvidas e faz-nos pensar sobre o que sentíamos. “Quando estava triste, não compunha música. Quando me sentia assoberbada, vomitava o que estava a sentir numa expressão sem som.” O futuro infiltrou-se no presente da mulher que veio a incorporar “o amor que nos parte em pedaços” de um ser que ainda é um trabalho em curso. Depois disso, a escrita transforma-se numa forma de catarse. “Podemos estar tristes mas esta tristeza produz canções lindas” e é isso que nos faz continuar. O poder rir para chorar molhar e chorar mas com alegria. À medida que o tempo passa, o importante não é a idade mas sim o que aprendemos pelo caminho. Cada palavra encontra o sítio certo com mais facilidade, as letras estão arrumadas de forma mais densa, musculadas e potentes como jaguares a atacar a jugular. Aos 33 anos de idade, a sua carreira já conta com 17, o que ajudou a cantora a aprender a “apreciar a esperança” de sobreviver para voltar a nascer, melhor. Afinal de contas, 33 é a idade perfeita para uma ressurreição gloriosa!

 

Espaço

Este álbum é uma praia extensa que abraça esta ilha única que Mayra cria para nós. Na sua ilha fala-se crioulo. Está repleta de cores vibrantes e um local onde as tradições de Cabo Verde se transformam. Num tema aparentemente leve, embarcamos numa comemoração com “Santiago”. Somos convidados para um vasto buffet da ilha, onde pratos de feijão, farinha de milho e carne de cabra temperados com rum e onde é servido vinho antes de nos banquetearmos com os entusiasmantes sons do Funaná, Batuque e outros ritmos de Cabo Verde. Na faixa intitulada “Segredu”, ouvimos melodias em diálogo com uma sereia que canta os segredos do mar e que nos canta para não gastarmos os nossos sonhos no dinheiro. Mayra mostra-se contra os preconceitos, juízos de valor, todas aquelas pessoas que nos dizem “não faças isso, isso é errado, etc”. Somos levados a dançar ao som do ritmo reggaeton no tema “Pull up”. Tal como em Cabo Verde, na Ilha de Andrade, quanto mais nos afastamos da praia, maior é a altitude e maior é a perspectiva que temos de nós próprios. Nesta Terra da Saudade, uma terra de melancolia onde já não existem jovens nem crianças, onde ninguém se beija onde ninguém saboreia o gosto de uma canção, sabemos como desafiar a gravidade ao erguermo-nos. Continuamos no nosso caminho com um desvio agradavelmente surpreendente com electro dub, onde fazemos a nossa visita à casa de Kon! Kon! Kon! Batemos à porta mas ninguém responde, só ouvimos Tan Kalakatan, um som que sai do bater numa panela vazia. Um credo excelente pode ser retirado deste tema (“Limitason”): “Venho de uma ilha pequena, a minha mente é incisiva e aberta e não deixo que faças joguinhos comigo. A minha voz é minha e do meu povo.” Como tal, tema após tema, descobrimos a gravidade sem o peso, a leveza sem a superficialidade, o que nos leva ao verdadeiro âmago da cantora. Em “Afeto”, o fim da corrida pelo afecto, apesar dos esforços feitos, a medalha atribuída é sempre a de bronze, a da criança do meio, que cresceu demasiado rápido e com culpa de nunca conseguir chamar a atenção para si própria. A ternura da única pessoa de quem sentimos falta e o vazio que nos invade com mais solidão através de uma esperança que nos acaricia de forma desconfortável. No tema “Plena”, o caroço desta manga (“Mango”), encontramo-nos no fim desta encantadora viagem. Regressamos com esta certeza: todos os mundos tiveram início no ventre de uma mãe.

GAUZ’ Romancista, fotógrafo, guionista, documentarista, escultor, entre outras coisas, Gauz’ é o autor de “Debout-payé” e “Comrade Papa”, dois best-sellers que mudaram o rosto da literatura francesa.

 

Fonte: Livecom

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