Marvão: de onde se vê o mundo

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“De Marvão vê-se a terra toda”. Quando Saramago o escreveu, limitou-se à verdade das sensações. Quem sobe às muralhas do castelo, e delas contempla um universo de curvas e contracurvas, o peso imenso do Alentejo e, para além dele, a vizinha Espanha, não tem muito mais a temer do que deixar-se seduzir pela amplitude absoluta dos campos. Com o avançar do tempo nesta vila portalegrense, haveríamos de vir a descobrir novas nuances na paisagem, como as histórias do “Ti” Manuel, rosto do contrabando transfronteiriço e de outros modos de vida. O castelo é, por assim dizer, um paradoxo emocional: ao mesmo tempo que nos atrai para dentro, que nos aconchega o peito com pequenas ruas empedradas ardendo ao sol do fim de agosto, também nos convida a levantar os olhos, a respirar as correntes de ar vindas do Outro lado, do lado de lá, do lado do futuro que está por vir. Passado e futuro condensados num paraíso luminoso e repleto de silêncios: eis Marvão, a terra que nos acolheu.

A quase 900 metros de altitude, este lugar foi o escolhido para palco de um encontro de jovens portugueses apaixonados pelo projeto europeu. É desse evento que aqui vos falo na qualidade de participante. O SummerCEmp destaca-se mais por aquilo que não é, do que por aquilo que é: não é uma escola de verão dedicada a doutrinar; não é uma escola de verão dedicada ao unanimismo e à repetição de ideias feitas que nada dizem ao cidadão comum; não é um local de formação dos políticos do futuro. O que o SummerCEmp é – e escrevo-o ainda sob o efeito transformador de nele ter podido participar –, é uma experiência intensa, poderosa, diversificada e enriquecedora de formação cívica dos jovens que serão, no futuro, os obreiros da sociedade portuguesa e europeia. Com percursos de vida diversos, locais de origem variados e múltiplas ambições de futuro, fomos recebidos por oradores provenientes de distintos quadrantes políticos, todos eles dispostos à partilha e ao convívio.

Os mais de 160 visitantes ficaram alojados em instalações locais, fiéis à essência do espaço. As refeições celebraram-se no “Varanda do Alentejo”, restaurante cujo nome assenta como uma luva a este local de histórias. Nele se haveriam de sentar, em comunhão, os jovens participantes e os ilustres convidados: ministros, deputados, eurodeputados, membros da Comissão europeia, diplomatas estrangeiros. Os quatro dias de duração do evento parecem não ter obedecido às mais elementares leis da física: dias longos que se diluíram nas muitas horas de um dia, do alvor matutino às horas impossíveis da madrugada marvense, entre copos de cerveja e canções arrancadas dos pulmões com a força de quem se vê contaminado por uma felicidade em que não se cabe.

O tema do populismo foi debatido com preocupação. Não fugiu à memória a ameaça radicalizada em alguns pontos nevrálgicos da construção europeia nem o propagar das fake news, que são armas para a divisão dos povos. A via populista, que parte de falsos problemas e, por isso mesmo, é incapaz de propor soluções, aposta na criação de uma falaciosa divergência entre a “elite corrupta” e o “povo enganado”.

De volta à paisagem imensa do castelo, vemos os montes como ondas e a nossa mente foge para os cenários terríveis do Mediterrâneo. A crise dos refugiados também tem lugar neste Marvão de diálogos, assim se pondo em confronto a dimensão mediática do problema com a dimensão real do mesmo, que sendo grave, muito mais grave parece às mãos dos populistas. A comunicação social é chamada à palavra: o que fazer com tudo isto? Como alimentar a democracia numa era em que tantos a ameaçam e outros tantos ficam impávidos diante da sua deterioração? Como resistir à tentação de arrancar o outro da sua caverna platónica apenas para o confinar na nossa própria caverna ideológica, à sombra do nosso próprio medo? Aonde está, de facto, a luz da verdade?

Considero que o convívio entre a tradição e as novas construções políticas é imperativo. A cultura que partilhamos como nação, forjada em séculos de experiências comuns, de sofrimento comum, é um bem nacional que fica dentro de nós mesmo que nos queiramos livrar dele. É preciso é que saibamos avançar para a Europa e que nela encontremos as memórias que os nossos netos e bisnetos viverão. Neste ponto, o pragmatismo é essencial: só poderemos ter uma sociedade capaz de viver os benefícios da União se lhe proporcionarmos, na justa medida, um grau de prosperidade e de conforto que permita ver “mais além”. Assim, atacar as desigualdades e lutar por uma política de convergência que exista como objetivo em si mesmo, e não como analgésico para as dores de parto da Europa, parece-me obrigatório.

Entre os participantes desta iniciativa encontrei uma riqueza comovente. Dali parti com a confiança redobrada na nossa sociedade civil, com a certeza de que cada um de nós não quer mais do que fazer o bem comum, cada um com suas propostas e métodos. Contudo, não consigo evitar regressar ao pragmatismo que, bem ou mal, me persegue. Do castelo de Marvão vê-se o mundo, mas um grito lançado da muralha não chega sequer a Portalegre, quanto mais a Bruxelas ou a Washington. O grito lançado da muralha não passa sequer da mancha de mato ardida que jaz no sopé do monte. A voz desta Senhora Europa que nos seduziu noite adentro não basta para conquistar o coração dos que, física e socialmente, estão longe. Somos uma elite. E assumi-lo não é arrogância, mas realismo. Temos a obrigação moral de ir por esses caminhos, curvas e contracurvas, montanhas em cima de montanhas, comunicar a nossa ideia a todos e a todas, sem medos, sem receios, de coração aberto. As dúvidas e opiniões divergentes que encontrarmos serão legítimas. Vamos aprender a aceitar a diferença. As nossas armas serão os nossos argumentos. A nossa vontade será a nossa energia. É esse o trabalho que temos pela frente.

Como se pode agora compreender, talvez a frase de Saramago não tenha sido a melhor opção neste contexto de um europeísmo convicto. Proponho que se respeite a memória do Nobel português com uma analogia à sua medida: este Marvão de onde se vê o mundo foi local de recolha de “vontades”, à moda de Blimunda, e com elas construiremos a “passarola” que conhecerá o mundo. “O homem, primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará.”

Não posso terminar sem agradecer do fundo do coração à organização, na pessoa da Sofia, da Raquel, do Paulo, da Carla, do Vasco, da Sofia e do Rodrigo. Assim, com o primeiro nome, porque se algo contruímos em conjunto então algo ficará para sempre como ligação entre nós. Aos meus amigos, que comigo partilharam esta página maravilhosa, nenhuma palavra cumpre melhor a mensagem do que esta: obrigado.

 

Por: Pedro Eduardo Ramos

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