Maria José Mauperrin – A nossa amiga sem idade

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Maria José Mauperrin de Carvalho, a Mauperrin, como carinhosamente lhe chamávamos, foi aluna de Belas Artes, desenhadora, radialista, jornalista e, se é que esse título existe, uma excecional conversadora.

Entrou para as nossas vidas em 1968, quando foi para a Emissora Nacional como locutora, onde já estava a minha irmã Luisa Mota, de quem se tornou colega e amiga. A entrada dela para a rádio foi “por acaso”, como ela dizia, “nunca tal me passara pela cabeça”. De facto, estava ela “a desenhar uns bonecos e a escrever uns spots numa agência de publicidade”, quando alguém (não me recordo o nome) que trabalhava na Emissora achou a voz dela “interessante” e a desafiou para ir experimentar a rádio. Desafios eram com ela e lá foi e lá ficou mais de 30 anos. Passou pela Emissora, Rádio Clube e Rádio Comercial, tornando-se uma das vozes mais conhecidas da rádio portuguesa.

Essa voz marcante, o seu gosto cultural e decisivamente o seu talento para comunicar, para conversar, fizeram com que em 1973, Alberto Represas, pai do Luís Represas, então diretor da programação, lhe desse a oportunidade de realizar os seus próprios programas, tornando-se assim a primeira realizadora de rádio em Portugal.

Quatro Temas em Dezembro foi um dos seus programas de autor de maior sucesso. Ousado para a época, estávamos em plena Primavera Marcelista, pelos temas abordados, como por exemplo a pobreza, a Mitra, em que saía do estúdio em busca de realidades escondidas, entrevistando os seus protagonistas, nomeadamente crianças institucionalizadas. Embora ainda inexperiente na sua função de realizadora e responsável pelos conteúdos, quando lhe perguntávamos se não tinha medo das consequências que poderiam advir dos temas escolhidos, a Mauperrin troçava de nós dizendo: “eu preocupo-me com o programa, vocês preocupam-se comigo” e, como sempre, fazia o que achava que era pertinente e que podia ser uma pedrada no charco. Curioso é que os registos destes programas que passaram o crivo da censura, por tratarem em cada semana temas considerados tabus naquela altura, foram destruídos muito depois do 25 de Abril, quando da restruturação da RDP.

Depois disso ainda realizou outros programas que evidenciavam o seu talento criativo e irreverente, como por exemplo um cujo título diz tudo – O Cão Andaluz e a sua Coleira de Estrelas, programa que a própria Mauperrin classificava como “um pouco esquizofrénico”.

Mas, no dia 4 de fevereiro de 1980, na Brasileira do Chiado, estreia-se em directo aquele que viria a ser o maior sucesso da carreira radiofónica da Maria José Mauperrin – o “Café Concerto” (com Aníbal Cabrita, entre outros) onde participavam nomes como Miguel Esteves Cardoso, Amaral Dias, Jorge Listopad, Fernando Dacosta, Sílvia Chicó ou José Duarte.

Durante 7 anos, todos os dias da semana, primeiro durante 3 horas depois das 22 às 24h, milhares de ouvintes sintonizavam a Rádio Comercial, para ouvir um programa em que “a conversa era rainha”.

Numa atmosfera de convívio, às conversas em tom coloquial juntava-se a música escolhida com gosto e sensibilidade, criando um verdadeiro café concerto à maneira francesa do século XIX, a que não podia faltar o cigarro na ponta dos dedos da Mauperrin.

Foram mais de trezentas entrevistas que a Maria José fez a homens e a mulheres da cultura, desde sociólogos a pintores, de músicos a antropólogos, de gráficos a escritores, de cineastas a etnólogos. Assim de repente, lembro-me do António Vitorino de Almeida, do Vergilio Ferreira, do Lobo Antunes e duma discussão enorme entre Alberto Pimenta e Augusto Seabra sobre um filme alemão. A propósito, no dia seguinte fartámo-nos de rir com a Maria José a relatar a discussão em que “quase se bateram”. Recordo ainda a semana à conversa com José Cardoso Pires que começou com a Mauperrin a comentar quando entrou na cabine “a fumarada” que ali estava e quantos cigarros o escritor fumava por dia. Devia ser muito grande a tal “fumarada” para a Mauperrin, que não largava o cigarro, o comentar! Aliás, logo de seguida pediu “Dá-me lume?” E então sim começou o Café Concerto com o convidado da semana, Cardoso Pires.

Também foram muitos os convidados estrangeiros, nomeadamente Mário Lagos, Chico Buarque de Hollanda, Mário Soldati, Léo Ferré entre outros. No horário do Café Concerto “parava o trânsito nas redacções dos jornais da altura” pelo seu carácter polémico e inovador, pela mudança radical nos discursos habituais, pela voz da Mauperrin que se impunha, mas, sem dúvida, pelo poder das palavras e pelo carácter coloquial e espontâneo das suas conversas. Era empolgante porque era em directo e com a Mauperrin tudo podia acontecer!!! E aconteceu quando um dia, nos últimos meses do Café Concerto, em que o Aníbal Cabrita estava ainda sozinho na cabine e se preparava para anunciar que ia sair do programa, a Maria José irrompe pela cabine e em directo perguntando alto e bom som: “Porque vais sair do Café Concerto??”. E essa intrusão deu azo, sempre em directo, a uma enorme conversa de 2h sobre a rádio em Portugal.

“Realizei o Café Concerto e o Café Concerto realizou-me a mim”. A oportunidade de se relacionar com os outros, de conversar com tanta gente interessante, de aprender sobre assuntos tão diversificados foi uma das melhores experiências da sua vida.

De facto, a Mauperrin não trocava por nada uma boa conversa, nem por mais umas horas de sono. Quantas vezes depois dos jantares de Domingo em nossa casa, no fim dos anos 60 início dos anos 70, as conversas seguiam pela noite fora, mesmo que tivesse que trabalhar cedo no dia seguinte. Era quase sempre a última a sair dos convívios, das festas ou dos serões que sempre foram frequentes na nossa família e no nosso grupo de amigos.

Vítima dessas conversas intermináveis foi o seu filho Mário Luís, hoje o jornalista Mário de Carvalho, que era a sua companhia habitual e que acabava por adormecer ao colo de alguém ou no sofá mais próximo.

Tinha o culto da Língua Portuguesa, não tolerava “calinadas” no português e evitava galicismos. Mesmo entre amigos ou apenas conhecidos, era capaz de interromper uma conversa para corrigir um erro. Tinha “um ódio de estimação” por alguns muito frequentes ainda hoje: à última da hora em vez de à última hora; uma grama em vez de um grama; muitas das vezes em vez de muitas vezes. Porquê dizer playlist em vez de alinhamento musical, como se dizia no seu tempo?

Casou em 1971 com João Carreira Bom, jornalista de reconhecido mérito, cujas crónicas no Expresso se tornaram conhecidas não só pela sua qualidade literária, mas pelo seu carácter polémico. Com ele partilhava esse respeito e exigência por um bom português, tendo acompanhado o lançamento do Ciberdúvidas, projecto informático criado pelo João, que ainda hoje existe, e que se destinava exactamente a promover e preservar a correção da Língua Portuguesa.

Com ele também, fez parte de um grupo de intelectuais que ajudaram a desenvolver ainda mais o seu gosto pela cultura e pelas artes. Muitas eram as tertúlias em que a poetisa Natália Correia era anfitriã e onde participavam artistas como Dordio Gomes e Vespeira e por vezes Ary dos Santos. Aliás, a Natália Correia foi madrinha de casamento do João Carreira Bom.

Tinha o dom da palavra e da escrita. Foi jornalista do Expresso durante vários anos onde fez peças jornalísticas com foco na área cultural, como reportagens e entrevistas a personalidades de relevo, sobre os temas mais diversos como o design, a moda, o sexo. A sua peça mais notável como jornalista no Expresso foi o trabalho magnífico sobre Calouste Gulbenkian. Uma investigação cuidadosíssima que contou com a colaboração de Azeredo Perdigão e da sua mulher Madalena Perdigão, com quem privou durante meses para recolher um acervo inédito e muito interessante sobre a vida de Gulbenkian e a sua relação com Portugal.

A exigência que tinha com os seus melhores amigos era a mesma que tinha com ela própria. O seu objetivo era sempre a perfeição. Gostava de pintar, mas, na sua opinião, a sua pintura era medíocre. Se os seus quadros não tinham técnica, se ela tinha razão em não se considerar uma artista, isso não sei, mas que tudo o que fazia tinha “alma”, que ela conseguia conversar através da sua pintura, isso dou como certo. E a prova disso é o retrato do João Carreira Bom que ela pintou um tempo depois de ele ter morrido, sem ter à vista nenhuma imagem dele, em que “o pincel só era movido pela saudade”.

Essa exigência, que se estendia mesmo àqueles de quem ela mais gostava, deu-lhe a fama (às vezes com proveito) de ser uma pessoa de “mau feitio”, assim como a coragem e a força na defesa das suas convicções muitas vezes era confundida, justa ou injustamente, como teimosia.

Não era uma pessoa de afetos, como se diz agora, não gostava de evidenciar fragilidades nem dependências, muitas vezes não sabia qual a melhor maneira de mostrar que se preocupava e que a sua amizade ou o seu amor eram incondicionais.

Mas, quem privou com ela durante quase 50 anos, sabia perceber na maneira como se preocupava e falava dos que mais gostava, o filho Mário e os netos Frederico e Daniela, que o afecto existia, era enorme, mas não era para ser partilhado, vai-se lá saber porquê!

A morte do João, a saída do Expresso e a sua crescente falta de mobilidade e de capacidade para guiar, fez com que a Mauperrin, uma amiga sem idade, passasse a sentir as duas décadas que nos levava de avanço.

A pouco e pouco foi-se isolando, deixou de ir para a Ericeira como ela tanto gostava, perdeu o gosto de se deslocar porque agora dependia de outros para o fazer; deixou de lhe dar prazer conversar com os seus amigos de sempre, porque começara a sentir que os seus interlocutores tinham projectos que já não estavam ao seu alcance e interesses que já não faziam sentido para ela.

As nossas conversas, agora muito mais queixosas, vinham pelas longas chamadas telefónicas nocturnas ou por visitas que ela apreciava, mas que era incapaz de solicitar. Como sempre o que animava a conversa, e o que animava a Maria José era contar, com orgulho, do percurso dos netos. O Frederico de Carvalho, que se tinha tornado um informático de sucesso e que lhe resolvia todos os problemas com as novas tecnologias e a Daniela que se tinha formado com distinção ao mesmo tempo que viajava pelo mundo como hospedeira do ar.

Morreu no dia 7 de Setembro de 2018, ia fazer 90 anos.

Foi a primeira realizadora de rádio em Portugal. A rádio foi uma das paixões da sua vida, mas morreu sem gostar de rádio. Não ouvia rádio porque “se perdera a liberdade criativa”, “não havia espontaneidade”, “os realizadores eram escravos das audiências e das playlist que limitavam mais o alinhamento musical, do que a censura antes do 25 de Abril”. “Está tudo feito, agora só vamos gerir um computador”. “Pena terem morto os programas de autor. É desses que ainda nos lembramos hoje em dia”

Não podia acabar uma conversa sobre a Maria José Mauperrin sem lhe dar voz, por mais controversa que seja, até porque me falta talento para escrever sobre ela e para contar as suas histórias. Só o faço porque, embora me falte talento sobram-me saudades e memórias.

Até sempre Mauperrin.

 

Por Cristina Kirkby

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