“LUZ DO MUNDO”

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Senti repulsa, em fevereiro de 2020, quando vi nas notícias 45 ucranianos e 27 estrangeiros, retirados da província chinesa de Hubei, serem recebidos com pedras a caminho da quarentena. Não terei sido o único a sentir-me desiludido com a humanidade. O medo, quando associado ao desconhecimento, despoleta atos bárbaros.

Se o vírus parecia estar tão longe, há escassos meses atrás, na China, no distante continente asiático, o apedrejamento de autocarros que transportavam pessoas vindas da China (nem sequer se sabia se estariam contaminadas) parecer-nos-ia algo impossível de replicar no nosso país. A Lei de Murphy cumpriu-se! Se a chegada do vírus à Europa estava à distância de um voo, o apedrejamento de uma ambulância que transportava um grupo de pessoas idosas de um lar da terceira idade, em Portugal, repito em Portugal, para um hospital, deixou-nos a todos envergonhados.

O absurdo está ao virar da esquina…

O Vice-Governador do Texas, que se opõe às medidas de isolamento, verbaliza: “os velhos norte-americanos estão dispostos a morrer para salvar a economia do país”; o Presidente do Brasil ironiza, apelando aos brasileiros que continuem a trabalhar, que, com o seu histórico de atleta, se for infetado pelo covid 19 no máximo terá uma “gripezinha” ou um “resfriadinho”; o inefável André Ventura: “Libertam-se os presos e os bons portugueses ficam presos em casa” / “E no final ainda compramos material de proteção à China”. Não há palavras para tamanhos absurdos.

Parece ser consensual, no seio da comunidade científica, que a pandemia tem como principal origem, à semelhança do que aconteceu em 2003, 2009 e 2012, em vírus zoónicos, transmitidos de animais para os humanos.

Para quem tiver interesse em perceber melhor a origem destes vírus, que têm abalado o mundo ciclicamente, recomendo o documentário Coronavírus: uma Ameaça Global, apresentado pela SIC Notícias, no programa Toda a Verdade. Uma sucessão de murros, com toda a força, no estômago. Já se imaginou contaminado e soldarem-lhe as portas de casa para não poder sair?

Se tiver acesso à Netflix, deve ver, o mais rapidamente possível, a série documental original Pandemic: Como Prevenir uma Epidemia. O grau de previsibilidade e a adequação ao que estamos a viver no mundo, com a pandemia que mata todos os dias, é inacreditável. Vista há escassos meses atrás, pareceria uma serie de “ficção científica”, vista agora, as mensagens que transmite são altamente perturbadoras:

“A pandemia não é uma coisa do passado, não é uma questão de ‘se’ mas de ‘quando, é uma questão de tempo até a próxima pandemia começar’”;

“Basta uma pessoa para começar o surto. Somos incubadoras humanas, podemos hospedar várias doenças”;

“Estes surtos são mais assustadores do que a guerra convencional.”;

“O medo das pessoas entra em cena antes da lógica.”

“Se acharem que tive contacto com uma doença, dizem ‘não me toques’, ‘não te aproximes’.”;

“A próxima gripe pandémica já se perfila no horizonte e não saberemos o que fazer com as nossas famílias, os nossos filhos, os nossos pais…”

Não foi possível prevenir, é hora de intervir. A União Europeia, com ou sem Coronabonds, tem o dever de responder solidariamente às necessidades dos seus estados membros e inverter um rumo que lhe poderá ser fatal, como sabiamente alerta o professor Adriano Moreira: “A própria União Europeia, que chegou à última forma de ser ´Luz do Mundo’, dá mostras de enfraquecimento da responsabilidade igual de cada membro.”        

Por José Carreira

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