Luz, Câmara, Acção.

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Há destinos instagramáveis? Podem fotografia e cinema criar uma consciência de identidade cultural? Serão as artes populares transformadoras? Em Viseu, acredita-se que sim.

Aviso à navegação: este artigo pode ser incrivelmente chato. Como diria Baudelaire (cito de cor), só pode falar de si próprio quem saiba divertir…

O poder de aborrecimento deste texto deriva do seu carácter: o de uma explicação. Por definição, dispensa-se à publicidade como à literatura e às obras de arte qualquer justificação. As explicações empobrecem. Têm, porém, a incrível vantagem de partilhar sentidos não evidentes. Correndo bem, são uma história. Neste caso – de Viseu – de uma estratégia de desenvolvimento local que não se confinou ao “betão” (ou apenas), mas estende-se à cultura e criatividade, ao património e história, e a um “turismo sustentável” (essa buzzword).

Em 2020, Viseu regressa às suas aparentes “provocações” de marketing territorial. Depois de “2017, Ano Oficial para Visitar Viseu”, de “Viseu 2018, Cidade Europeia do Folclore” e de no ano passado a cidade de Viriato ser “Destino Nacional de Gastronomia” (conquistando a sua primeira Estrela Michelin), em 2020 declara-se cidade e destino de fotografia e cinema. Nem mais: “Viseu 2020. Luz, Câmara, Ação”.

Venha a explicação: estas “provocações” estão muito para além de sound bytes comunicacionais. Arrastam consigo programas de criação artística e de valorização cultural e patrimonial, novas dinâmicas museológicas e projetos de criatividade e educação (agora diz-se “mediação”), ao serviço de uma comunidade.

A “bandeira” é, assim, o pretexto de uma transformação. A efervescência promocional – não irrelevante na “atitude” e na “ativação” de um território que se quer afirmar como destino, sobretudo se fora das grandes “centralidades” e dos holofotes dos media – dá então lugar a uma coisa mais séria e duradoura. Isto é, a iniciativas que atuam em camadas mais profundas da formação e valorização de uma comunidade cultural e histórica, da aquisição e partilha de uma identidade coletiva (de uma memória e de uma “consciência de si”) e da emergência ou renovação de um ecossistema de criação. E isso importa – e muito – se ambicionarmos gerar uma qualidade de vida própria e atrair o “bom turismo”, em vez de um modelo industrial, indiferenciado, de “loja do chinês”.

A curva positiva de crescimento turístico de Viseu, conquistada nos últimos anos, acima das médias nacionais e regionais, tem sido sustentada na redescoberta e revalorização da sua história e mitologia (que explica o nascimento do Museu de História da Cidade e do Polo Arqueológico de Viseu), por dinâmicas criativas (sustentadas no inédito programa de financiamento VISEU CULTURA e numa incubadora de atividades artísticas), em eventos e festivais não importados (e ao longo do ano), na revitalização do folclore (que convocou intervenções de artistas como Moullinex e Katty Xiomara) e da gastronomia.

Porquê o cinema e a fotografia?

Viseu oferece argumentos de sobra para ser um cidade e destino “instagramável”. É uma “cidade-jardim” (espécie de Éden urbano), a “cidade vinhateira do Dão”, uma cidade patrimonial (a “cidade de Viriato”), a cidade de Grão Vasco e do linho milenar de Várzea de Calde. Dispõe de paisagens naturais e culturais sedutoras e singulares – e mais do que tudo tem humanidade e charme, alma e atitude. Mas nenhum território ou cidade se pode conformar à ideia de ser um “destino instagramável”. Antes de ser destino, uma comunidade é uma memória. E – façamos- lhes justiça – as artes da fotografia e do cinema excedem em si essa ambição.

2020 é, desde logo, a oportunidade de ouro para iniciar uma operação de resgate, salvamento e valorização do património fotográfico e fílmico de Viseu, através de uma imagoteca local. O que existe de uma cidade histórica e monumental incrível como Viseu encontra-se disperso ou em risco de perda. Constituir um arquivo de imagem e uma filmografia torna-se indispensável para preservar a memória, fomentar uma consciência histórica local e promover Viseu enquanto destino cultural, patrimonial e histórico. Este desígnio terá um impulso em 2020 e 2021, no quadro do projeto do Museu de História da Cidade e numa base de participação comunitário. Para o cinema, conta ainda Viseu com a cooperação do Centro de Conservação (ANIM) da Cinemateca Portuguesa.

Fotografia e cinema são ainda artes e tecnologias dominantes na cultura contemporânea, nos media e no quotidiano social. Democráticas, populares, acessíveis, transformadoras. Estimular a formação de talentos e competências artísticas, culturais, educativas nestas expressões adquire um especial sentido estratégico (tanto quanto uma consciência crítica sobre as difíceis questões dos novos media e da asfixiante omnipresença da imagem). “Viseu 2020” não deixará de o fazer através de financiamentos à criação do VISEU CULTURA e de um programa muito diversificado de intervenções e formações culturais – especialmente integrado nos museus municipais. No pipeline estão ações tão distintas como “trazer” o olhar de Helena Almeida a Viseu, formar para a história da fotografia e do cinema, abrir um laboratório de fotografia analógica ou fomentar criações e criadores.

Finalmente, Viseu será em 2020 palco de dois grandes eventos ligados às práticas da fotografia e do cinema. Por um lado, daquele que é um dos mais importantes festivais internacionais de cinema de turismo e marketing de territórios – o ART&TUR 2020 (20 – 23 de Outubro). No contexto do ART&TUR serão ainda desenvolvidos dezenas de filmes a concurso subordinados a Viseu, no contexto do “Art&Factory”. Por outro lado, Viseu será ainda local do congresso anual da APPImagem – Associação dos Profissionais Portugueses da Imagem e do seu fórum “The Way 2020” (20 – 23 de Fevereiro).

Sem prejuízo de múltiplas colaborações, três “embaixadores” acompanham-nos nesta demanda: o realizador António-Pedro Vasconcelos, o apresentador e escritor Mário Augusto e o fotojornalista Nuno André Ferreira.

Por Jorge Sobrado

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