Lisboa e os seus arquitectos contados pelo Prémio Valmor

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Falar do Prémio Valmor de Arquitectura é sempre um excelente pretexto para olhar para a cidade de Lisboa e dar a conhecer os edifícios que ficaram na sua história como pontos de referência do seu crescimento ao longo de mais de um século.

Instituído pelo Município, em 1897-1902, o Prémio Valmor distingue anualmente os edifícios de Lisboa e resulta da decisão do 2.º visconde de Valmor expressa no seu testamento.

Fausto de Queiroz Guedes (1837-1898), 2.º Visconde de Valmor era um homem abastado, culto e viajado que conhecia as mais importantes cidades do seu tempo, como Paris e Viena de Áustria, onde tinha vivido e desempenhado cargos públicos e onde formara um gosto refinado pela arte e pela arquitectura que constituía o enquadramento dos elevados níveis de vida social e política que viveu nas últimas seis décadas do século XIX.

O Visconde de Valmor decide então legar à Câmara Municipal de Lisboa uma quantia de 50 contos, que constituiria um fundo cujos rendimentos anuais permitiam atribuir, todos os anos, um prémio a conferir, em partes iguais, ao Proprietário e ao Arquitecto do mais belo edifício construído em Lisboa, fosse ele “casa nova ou restauração de edifício velho”. Esta sua decisão fomentou o investimento de proprietários na estética das edificações que assim passaram a contratar arquitectos de reconhecido mérito em alternativa aos mestres de obras. O testamento refere a intenção de proporcionar à cidade de Lisboa “um estilo digno de uma cidade civilizada”.

A figura do Visconde de Valmor foi reconhecida logo após a sua morte em várias obras de expressão artística e arte pública como são o retrato por José Malhoa nos Paços do Concelho, o busto de Teixeira Lopes no largo da Academia das Belas-Artes e o jazigo com projecto de Álvaro Machado na entrada do cemitério do Alto de São João. Todas elas ficaram referências na memória colectiva dos lisboetas.

Em HISTÓRIA CRÍTICA DO PRÉMIO VALMOR, publicada no início de 2019, ilustrada com 150 imagens e redigida numa escrita acessível, fundamentada em prolongada investigação, o autor, José Manuel Pedreirinho, arquitecto e docente, doutorado pela Universidade de Sevilha, apresenta o resultado de mais de 30 anos de estudo do Prémio.

O livro está estruturado em oito capítulos que ilustram os mais importantes aspectos que caracterizam o Prémio Valmor e que articulam as temáticas em que a sua história se insere, ao longo dos seus 117 anos de existência.

No capítulo 1, Arquitecturas Premiadas, destaca-se a evolução dos gostos e das tendências, a referência às polémicas e reclamações da não atribuição do Prémio em alguns anos, ou a contestação que autores apontaram à omissão de certas obras à consideração dos júris e à distinção de outras, referindo-se, por exemplo, que, em 1932, de “600 projectos submetidos à Câmara Municipal de Lisboa, apenas 10 foram assinados por arquitectos”.

No capítulo 2, Regulamentos e Manipulações, referem-se as alterações regulamentares que se sucederam por determinação da Câmara Municipal de Lisboa, criando-se o Prémio Municipal e o alargamento às tipologias de obras a premiar, ou os meandros da constituição dos júris e representatividade das instituições envolvidas nas decisões.

Desde A evolução da cidade, onde se dá conhecimento da trajectória de desenvolvimento da cidade e dos instrumentos da sua gestão, a Da Cidade à Arquitectura, onde se sublinham momentos cruciais da expansão da cidade, os 3.º e 4.º capítulos observam como a disseminação da localização dos Prémios mais recentes evidencia o crescimento de novas áreas da cidade e de como os vários edifícios premiados confirmam o protagonismo dos bairros novos enquanto lugares de inegável qualidade do espaço urbano.

No capítulo 5, O Prémio Valmor enquanto intervenção crítica, refere-se que o visconde de Valmor era “um dos 40 maiores proprietários da capital” relacionando factos políticos e culturais, quer sejam da expressão de vários estratos sociais, quer dos comentários dos membros dos júris, apontando também a importância do aumento do valor do Prémio, bem como a criação, por Duarte Pacheco, do novo Prémio Municipal de Arquitectura.

No capítulo 6, Os Arquitectos e os Proprietários, o autor aborda o percurso das relações entre os dois grupos a quem o Prémio é dirigido, bem como a decorrente valorização e reconhecimento profissional que o Prémio promove. Refere também o momento, em finais dos anos 30, início dos anos 40, onde ocorre pela primeira vez a premiação de edifícios não habitacionais, como a igreja de Nossa Senhora de Fátima ou o edifício do Diário de Notícias.

A importância política e económica do prémio é o capítulo onde o leitor fica a conhecer quanto o prestígio do Prémio contrasta com a sua decrescente compensação financeira (3.000 escudos em 1943 e 7.800 escudos em 1982). Também o quanto a importância dos ciclos políticos e a constituição dos júris influenciou os critérios de premiação.

Finalmente, no capítulo O Prémio Valmor enquanto expressão do gosto, o autor evidencia o quanto a atribuição do Prémio é um reflexo dos gostos dominantes de cada época, identificando períodos distintos e as suas características próprias.

Ao longo das páginas deste livro vai-se tornando cada vez mais claro e visível o percurso da Arquitectura e dos arquitectos deste último século, em contraste com a interpretação dos diversos pareceres dos júris que fizeram, com as suas escolhas, uma história que o autor avalia de uma forma crítica.

No final do livro é apresentada a Lista Cronológica e completa de todos os prémios bem como de todas as menções honrosas atribuídas até 2016, ano a que se reporta a última distinção de edifícios premiados.

O leitor poderá compreender o interesse que o Prémio Valmor sempre despertou, quer através das notícias públicas, quer pelo próprio prestígio com que se tem afirmado e consolidado numa série de edifícios que estão claramente entre os mais belos e significativos da nossa cidade.

Uma Bibliografia com referência a 82 obras dedicadas à cidade, à sua evolução e desenvolvimento e à sua história urbana permitem aos leitores caminhar no estudo e investigação do processo de distinção da Arquitectura pelo prémio mais antigo do mundo.

 

Por: Filipe Jorge, Arq.

Director editorial da ARGUMENTUM

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