Lisboa, cidade para amar

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É difícil escrever sem inspiração – porque as palavras ficam presas, saem rombas, sem melodia, sem paixão – mas pior é viajar sem compreender a essência do local onde se está e sem aproveitar a oportunidade de renovação que uma mudança de ares tão facilmente nos pode proporcionar.

Viajar descansa, abre horizontes e pinta de azul o mais negro dos céus. Para viajar basta querer. Sair a porta, combater a rotina e estar aberto à surpresa. Apanhar um avião, um comboio, conduzir centenas ou milhares de quilómetros não é para isso condição sine qua non. Podemos viajar na nossa própria cidade. Partir à descoberta é sobretudo uma questão de vontade, não de tempo. Mudar de ares é um estado de espírito e tal como o amor é também uma questão de disponibilidade mental.

Há cidades que se conhecem numa mão- cheia de dias e que se esquecem logo ao virar da esquina. Lisboa não é assim. Creio que não há ninguém que possa vangloriar- se de a conhecer na sua totalidade. Talvez nem uma vida inteira seja suficiente. Porque se reinventa e, tal como as águas do rio, muda da noite para o dia.

Apesar do magnetismo que emana, Lisboa não é leviana. Lisboa é amor à primeira vista. Entra directamente para a memória do coração. É recatada, misteriosa e detentora de uma luz que deveria ser considerada Património da Humanidade, pelos tons que dá ao Tejo, pela for- ma como ilumina as suas colinas e pela maneira como nos aquece a alma.

É nesta cidade que viajo todos os dias e que por ela me deixo fascinar. Andar a pé em Lisboa é um desafio aos sentidos. As caminhadas, por muito rápidas que sejam, relaxam. Há sempre cantos e recantos por explorar, estórias a ouvir, pormenores para observar. Ouvem-se conversas num número sem fim de idiomas, vêem-se pessoas de todas as idades e de todos os cantos do mundo, há sorrisos, choros, saudade. Há vida.

Lisboa é uma cidade para apreciar, para conhecer com calma, para nos perdermos sem pressa e nela nos voltarmos a encontrar. Seja vista da torre mais alta do castelo ou do beco mais escuro, é uma terra que quanto mais se conhece, mais se quer amar.

É por isso que Lisboa não pode adormecer à sombra de paixões internacionais esporádicas nem da avalanche de turistas que todos os dias a vêm visitar. Lisboa é mais do que isso. Lisboa está muito acima disso. É um verdadeiro spa para a alma, principalmente para os que lhe dão valor, seja ela ou não capa de revista.

por: Constança Martins da Cunha

fotografia: António Conde Falcão

 

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