José Alberto Ribeiro – Palácio Nacional da Ajuda

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O Palácio Nacional da Ajuda é, hoje, o único Palácio Real de Lisboa aberto ao público. A história da sua construção daria um belo argumento para um filme de época, ou melhor, de épocas. Ao projecto inicial, traçado por Manuel Caetano de Sousa, a pedido de D. João VI, sucedem vários outros projectos, alguns iniciados e nenhum deles concluído, chegando até hoje incompleto. Espera-se que agora, com as obras de instalação do Tesouro Real, seja finalmente dado o remate final a este edifício. Na sua vida atribulada, foi residência real permanente de D. Luís, D. Maria Pia e seus filhos D. Carlos e D. Afonso, personagens que dominam o percurso expositivo do museu, que alberga uma magnífica colecção de artes decorativas.

Conversámos com José Alberto Ribeiro, Director do Palácio Nacional da Ajuda, sobre o passado, o presente e o futuro deste emblemático palácio de Lisboa.

Como é que o seu destino se cruza com o Palácio Nacional da Ajuda (PNA) e como descreveria o Palácio Nacional da Ajuda (PNA) a quem não o conhece?

Estou no Palácio da Ajuda como director desde 2013. Antes, estive sete anos como director da casa Museu Anastácio Gonçalves, que é uma casa bem mais pequena, mas que tem em comum o facto de ser também uma residência histórica. São ambiências diferentes dos museus ditos mais tradicionais, no sentido da apresentação ao público, porque as residências são normalmente um contentor cheio de objectos que têm uma magia diferente e que estão relacionados com as figuras que ali passaram e viveram. No caso do PNA, tem sido um esforço e um trabalho conjunto de equipa para mudarmos também a própria linguagem e comunicação que o Palácio tem com o exterior. Durante muito tempo, o palácio apresentou-se sempre como o maior museu português de artes decorativas, o que é um facto, mas de há uns anos para cá apresentamo-nos como o único Palácio Real em Lisboa que hoje é um museu, e isso faz toda a diferença em relação ao público que nos procura. O trabalho também tem passado muito pelo restauro de algumas das salas – possível pelo o apoio de grandes mecenas, como a Fundação Millenium BCP ou a Fundação BONTE – onde procuramos trazer a maior autenticidade possível do palácio em finais do século XIX, inícios do séc. XX, a partir de inventários que existem desses períodos. O Palácio tem a particularidade de só ter sido aberto ao público em 1968 e há um grande período – entre o final da monarquia e abertura ao público (e não é uma abertura ao público como nós a temos hoje, havia acessos condicionados) – em que que o Palácio foi muito mexido e saíram daqui muitos objectos.

O que aconteceu nessa altura ao Palácio?

O Palácio esteve fechado, apesar de na Primeira República terem usado o andar nobre do palácio para a realização de jantares e visitas oficias de estado, porque pelas suas dimensões – e pela Sala dos Banquetes e as Salas de Aparato do andar nobre – se prestava isso. Tal como na monarquia, pois mesmo depois da morte de D. Luís – que é quem vive aqui de uma forma permanente, com a Rainha D. Maria Pia – quer com D. Carlos, quer com D. Manuel II, o andar nobre é utilizado para cerimónias oficiais. Os cumprimentos do Ano Novo ao corpo diplomático ou os banquetes realizados durante visitas de chefes de estado, algo que a Primeira República vai continuar a fazer, tal como o Estado Novo e o actual regime. Este museu tem esta característica única de ser, também, até hoje, uma casa de representação de poder. Nós somos um Museu Nacional, fazemos parte da Direcção Geral do Património Cultural, mas o palácio tem utilização do Senhor Presidente da República para cerimónias. A Sala dos Banquetes faz parte do percurso de visita, mas é uma sala cuja utilização é exclusiva do Presidente da República, há essa coabitação também em algumas salas para cerimónias de estado, por exemplo a tomada de posse de cada novo governo é na Sala dos Embaixadores.

O palácio foi a residência privada de monarcas portugueses, mas também foi pensado para ter salas de representação de poder, não era um palácio como o da Pena, por exemplo, que era um palácio de recreio, foi pensado também para ter salas de recepção de homónimos e de outros chefes de estado ou delegações que visitassem o país.

Como é que se consegue gerir a coabitação de um museu com as funções de estado? Porque não é só usar as salas para as cerimónias, com todo o aparato em volta, há questões de segurança. Como é que se consegue compatibilizar tudo isso?

Não é fácil, mas não é impossível e acima de tudo é preciso ter em conta o seguinte, a nossa função aqui é facilitar. As cerimónias não são nossas, são da Presidência da República, organizadas com um protocolo de estado a que nós damos todo o apoio que nos pedem, como facilitadores. Sendo também de ter em conta que uma cerimónia desta envergadura nunca é marcada com uma semana de antecedência, há sempre uns meses de antecedência, há visitas preparatórias. Ou seja, tudo o que temos marcado para esse dia, alguma conferência, algum evento, tentamos desmarcar. Penso que só uma vez, nestes anos todos, é que tivemos que desmarcar qualquer coisa porque, obviamente, a Presidência da República tem precedência. Acabamos por dar muito apoio a essas cerimónias, um trabalho não visível do museu, porque isso não é uma actividade museológica.

Isso acaba por manter o palácio como uma coisa viva, mantendo uma função para o qual ele foi pensado.

Eu costumo dizer que o PNA foi criado para ser não só uma residência real, mas para ser uma casa de poder, de representação de poder. E continua a sê-lo porque continua a ser usado pelos governantes e pelo Presidente da República.

A maior parte da colecção não está exposta, por este não ser um museu, mas uma casa museu, chamemos-lhe assim, ou seja, está mais pensado não na perspetiva de um museu de colecção, mas sim de mostrar a vida do próprio espaço, o que implica que muitas coisas não possam estar expostas, mesmo que o acervo seja bastante grande. Como é que gerem esse acervo?

Nós trabalhamos numa colecção muito grande, pois temos mais de 100 000 objectos inventariados, em que primeira preocupação é a inventariação e a conservação dessas peças. Depois temos o objectivo de mostrar acervos novos ou menos conhecidos ao público, através de algumas exposições temporárias e outros programas de apresentação de partes da colecção. Por exemplo, tivemos, pouco tempo depois de eu cá chegar, uma exposição dedicada aos vidros de Murano da colecção da Rainha Maria Pia, onde mostrámos algumas das melhores peças da colecção. Fizemos uma exposição sobre a obra artística da Rainha Maria Pia, não só como aguarelista, mas também como fotógrafa, e isso foi uma novidade que se apresentou aqui no palácio, pois os próprios técnicos não tinham a noção da quantidade de desenhos e aguarelas que havia da rainha, e foi um estudo muito interessante. No ano passado, tivemos uma exposição com o apoio da embaixada do Japão, do Instituto de Estudos Diplomáticos e de um mecenas, a FUJITSU Portugal, que se chamava Uma História de Assombro. Portugal – Japão Relações diplomáticas Séculos XVI-XX, onde nós mostrávamos essas relações diplomáticas a partir do acervo do PNA. Aliás, uma das imagens da exposição é precisamente uma armadura de um cavalo e de um guerreiro japonês, objectos que foram oferecidos ao Rei D. Luís, em 1862, numa das primeiras embaixadas a ocidente depois da reabertura do país, que visitou vários países da Europa e um dos quais foi Portugal, onde deixaram essas peças que nunca tinham sido mostradas ao público e para tal foram restauradas.

Muitas dessas peças nem caberiam no percurso expositivo, tal como ele está pensado.

O cavalo e o guerreiro, como tivemos pena de os esconder já, estão neste momento na antecâmara da sala chinesa e quem visitar o palácio pode ver essas peças magníficas. Tem que se perceber que esta casa, como disse, também era uma casa de família, temos as compras de objectos da Rainha Maria Pia e do Rei D. Luís (que era um coleccionador), que felizmente compraram muito, e muito chegou aos dias de hoje, fazendo parte do património nacional português. Mas também há peças que vêm de um lastro anterior de heranças da família real.

Essa era a minha curiosidade, obviamente que as peças do Palácio não se restringem do Século XIX para a frente, apesar do incêndio da Real Barraca e do terramoto há-de ter sobrado com certeza alguma coisa anterior. Muito estará em Vila Viçosa, mas ainda chegou alguma coisa anterior ao século XIX?

Sim, aliás o grande bloco de colecções da família Real está dividido entre Vila Viçosa e o PNA, havendo peças dispensas em Queluz, em Mafra e nos dois Palácios da vila de Sintra, mas nada se compara em termos de volume com o que existe de colecções no PNA. As exposições temporárias servem precisamente para isso, fazer novos estudos, mostrar peças que de outra forma é impossível ir mostrando. Também as reconstituições das salas permitem mostrar algumas peças que, entretanto, percebemos que estavam numa determinada sala, voltando ao seu local original.

Ou seja, o percurso expositivo não é estático.

Não, e isso também acontece com a colecção, que não é uma colecção fechada, no sentido em que sempre que aparecem no mercado peças de interesse para o palácio elas são, dentro do possível, adquiridas. Aconteceu com peças que eram do PNA e foram vendidas na primeira República, ou com peças que a Rainha D. Maria Pia tinha deixado ao Banco de Portugal como garantia bancária dos empréstimos. Nós temos hoje um centro de mesa da casa Veyrat – que foi presente de casamento do Rei Vitor Emanuel à filha por ocasião do seu casamento –, que comprámos em 2014, e que tinha sido uma das peças que a Rainha tinha dado como garantia bancária e apareceu no mercado.

Sempre que aparecem peças que de alguma forma ajudem a completar o discurso do que nós temos, ou peças de conjuntos que por alguma razão das divisões entre palácios ficámos com menos ou um prato, ou o copo ou uma outra peça. Embora nos apareçam também, por vezes, propostas completamente absurdas. Pelo facto de ser um antigo Palácio Real as pessoas às vezes pensam que nós estamos interessados em comprar tudo o que tenha a ver, mas isso não faz sentido, apenas nos interessam peças que nos ajudem a ter uma melhor leitura da colecção ou do percurso expositivo, ou que tenham, de facto, pertencido ao PNA.

O percurso está muito centrado em quem mais tempo morou no palácio, D. Luís e D. Maria Pia. Estas são as personagens do enredo?

Sim, D. Luís, D. Maria Pia e os filhos que aqui viveram, D. Carlos e D. Afonso (que viveu aqui até 1910), são as personagens principais do enredo da história que aqui se conta. Embora nós tenhamos a preocupação no discurso de visitas de falar sempre de outras pessoas que passaram por cá, inclusivamente neste momento há uma antecâmara no piso térreo que fala precisamente das pessoas que passaram por cá e que viveram cá desde D. João VI até ao fim da monarquia.

Passando para os dias de hoje, gostava de lhe perguntar o que vai acontecer na nova ala que vai, finalmente, rematar o palácio. O que nos pode contar sobre as “jóias da coroa”?

O projecto é da Direcção Geral do Património Cultural, do arquitecto João Carlos Santos, (Subdirector da DGPC), e tem um financiamento da taxa de turismo de Lisboa. A colecção é na sua totalidade do PNA à qual chamamos de Tesouro Real – porque “jóias da coroa” é um segmento dentro deste Tesouro Real – e é a equipa do PNA, assessorada por consultores científicos, que está a fazer o projecto museológico para colocar naquela ala. Vai ser um remate da colecção do PNA, porque todas as peças são da colecção, ou foram herdadas ou compradas.

Os dois edifícios vão ser independentes (apesar de estar pensado um bilhete conjunto para visitar a residência real e o tesouro) por questões de segurança, porque este novo edifício é sobretudo uma caixa forte, e é dentro dessa caixa forte que vai ser mostrada a colecção, portanto vai ter condições de segurança raras em Portugal.

A maioria das peças também é do século XIX?

Não, temos também peças mais antigas, como o maior conjunto de prata de aparato do mundo, formado por 23 salvas de aparato do século XVI, que nunca estiveram expostas.

Vai ser um acontecimento e mesmo quem é estudioso desta área tem apenas uma noção do que existe, vai ser uma surpresa porque a colecção é muito grande e é de muito boa qualidade.

Qual é a previsão de abertura ao público?

2021, as obras estão a decorrer a bom ritmo.

Houve um projecto para o eixo Ajuda-Belém que aparentemente caiu. Não há neste momento nada pensado para trabalhar este conjunto? Pergunto isto porque tenho sempre a noção de que a Ajuda, estando literalmente ao lado dos Jerónimos e da zona de Belém, tão falada e visitada, é às vezes injustamente esquecida, talvez pela distância desta calçada (da Ajuda), que afinal não é assim tão grande.

Há bilhetes conjuntos – há um que se chama inclusivamente a Calçada Real –, mas neste momento, que eu saiba, politicamente não está agilizado nenhum projecto nesse sentido. Eu estou convencido que depois da abertura do Tesouro Real poderemos ter alguma intervenção nesse sentido, até porque neste momento a calçada está cortada de um lado e o palácio está de mais difícil acesso, apesar de termos tido um crescimento de visitantes. Quando houver o Tesouro Real e a Calçada da Ajuda for totalmente circulável, de certeza havendo uma maior procura, não só do ponto de vista do turista individual, como dos operadores turísticos, a própria câmara obviamente terá interesse, haverá certamente mais carreiras e uma necessidade maior de não tirando o fluxo turístico lá de baixo, o expandir. Em vez de estarem tanto tempo lá em baixo para entrar no Mosteiro dos Jerónimos, vêm aqui e depois vão lá, portanto é uma questão de gestão desses fluxos turísticos e estou convencido que isso vai melhorar.

Espero que sim. Eu sei que os fluxos turísticos são assim e as pessoas vão directas ao ponto, mas há tanta coisa para ver, o PNA, o Jardim Botânico e outros locais que podiam estar eventualmente abertos ao público, e é uma pena os turistas ficarem a sobrelotar completamente os Jerónimos e a Torre de Belém com filas às vezes impossíveis. Presumo que aqui não tenham esse problema?

Não temos, mas um dia lá chegaremos. Esperemos.

Tenho ideia de que este é dos palácios mais interessantes para o público jovem, o que é que o palácio tem no seu serviço educativo?

Nós temos uma mini-equipa de serviço educativo e depois trabalhamos com voluntários e com empresas, com quem temos protocolos e que realizam visitas aqui ao Palácio. Posso dizer que é uma dessas empresas com quem nós trabalhamos que mais sucesso tem junto dos mais pequenos, a visita chama-se A Rainha mostra o Palácio, em que aparece uma senhora, que é muito qualificada para fazer as visitas, vestida de Rainha Maria Pia e faz a visita aos miúdos e eles entram no cenário completo da figura da rainha que anda pelo palácio a mostrar as coisas.

Para os miúdos, quer se queira quer não, o imaginário dos reis, das rainhas e das princesas ainda existe e existirá sempre porque faz as pessoas sonharem, as miúdas sonham todas em ser princesas. Essas actividades têm sempre muito sucesso, e é um público que tem vindo a crescer.

O PNA está envolvido no projecto Google Arts, gostava que me falasse um pouco sobre isso, o projecto parece ser interessante e ainda não está a ser muito divulgado em Portugal.

O projecto Google Arts é um projecto da Direcção Geral do Património Cultural (portanto não é um projecto do palácio) de disponibilização de imagens de alta resolução das colecções permitindo ao visitante, a partir destas imagens, ver em casa uma obra com uma proximidade e uma qualidade excepcional no ecrã do seu computador. Também permite criar exposições virtuais, o que como forma de divulgação junto do público é muito interessante.

Em relação ao público, que é sempre difícil de atrair, como é que tem sido a evolução do número de visitantes nos últimos anos?

Há aqui um fenómeno pelo meio que é a exposição Joana Vasconcelos, que teve 250 mil visitantes e foi um sucesso extraordinário, com uma grande produção com a Everything is New, mas foi um caso excepcional. Antes disso o palácio tinha 50 mil, 70 mil visitantes. Desde então para cá temos andado sempre acima dos 100 mil, entre os 100 mil e os 120 mil. No ano passado houve um pequeno decréscimo de visitantes, que foi geral em todos os museus e palácios, e que acho que teve a ver com um decréscimo no turismo.

Temos andado por esses números e espero que venham a crescer porque temos muita potencialidade para crescer muito mais.

Uma última pergunta. A nível de programação do museu, o que está a acontecer e o que vai acontecer?

Neste momento, estamos a preparar uma grande exposição, em colaboração com o Museu da Presidência da República, que será dedicada à Rainha D. Maria II, e que decorrerá para o ano. Teremos também uma exposição mais pequena, mas interessante, a partir de uma colecção privada de gravuras sobre a dança de corte no século XIX. Conto também ter uma exposição sobre relíquias reais, relicários e tudo o que tenha a ver com esse universo, com peças nossas e de uma fundação privada. Para além disso teremos a habitual programação de congressos, conferências e concertos.

 

Por João Albuquerque Carreiras

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