Artigo

Je suis Coronavírus

Para o desadaptado, o tempo de distopia é o fermento do ideal. Para o misantropo, o estado de excepção é o próprio ideal. É algures entre os dois que pode ser buscada a insolência que o estado de graça denega e reproduz. Ela é prima da resiliência e matriz do “individual”. Já este é o arpão que não pode faltar, sob pena de olvidarmos a crueza das verdades nocturnas e de arvorarmos a nova pandemia de uma sociedade de tele-relações. De pensamento teleguiado, com a irrazoável distanciação de um comando de punheta vocal.

O ideal cria os seus próprios hereges. A força da idiossincrasia resulta do poder de uma mutação provecta da realidade. O seu governo é o mutismo de uma verdade que indaga a expressão catastrofista. Transtornado o ambiente, pode o novo agente viralizar. A determinação tem, frequentemente, esta presunção. Doutro modo, não seria frequente ou peremptória. Porque o que medra aguarda resolutamente a oportunidade de afirmação. Quando ela se dá, acaba sempre por absorver muitos dos que permaneciam num limbo, enquanto outros morrem ou fenecem.

Para quem a distanciação social é, apenas, “mais do mesmo”, não é possível deixar de afirmar, insolentemente, “Je suis Coronavírus”. E a ordem de mudança soa intrépida enquanto, com gáudio, se vê desferir o golpe da fortuna, do sortilégio confinado. Porque o novo vírus é a modificação desesperada do arquétipo. Perante a qual, o antigo “normal” reage com a leveza de uma falsa união, tecnologizada pelo medo.

Se o vírus é uma oportunidade para recuperar a “razão de ser” “humano”, isso não nos obriga a ater-nos ao “demasiado humano”. Podemos aproveitar para matar uma série de viroses que têm vindo, progressivamente, a brandir a golpada da venalidade. O Coronavírus não é, enfim, o inimigo. O “Humano”, este sim, é que está a mais. O Coronavírus aproveitou-se, somente, da nossa fraqueza “normativa”, e fez por sobressair. E veio, quiçá, relembrar alguns de que somos “natureza”, nudez, fragilidade, perante as quais a “cultura” deplora o seu lugar.

O “Humano” pode e deve reconstruir-se. E isso passa, primeiro, por um período de quarentena, pelo obrigatório gládio da individualidade, pelo rigor da clausura redentora, pelo “retiro” capaz de reiniciar o sistema. Mas não se trata de perpetuar a distância, de destruir as relações, de mortificar a mestria e a rugosidade. O “indivíduo” mata o “indivíduo”. Para muitos, a óptica segundo a qual “vamos todos ficar bem” é, acima de tudo, uma reprodução do Homem que já se rebobinava. À falta de um retorno, existe, sempre, a reconstrução, e esta partilha natureza e aventura. Diria que “Vamos todos ficar diferentes”. Se já nada será como dantes, façamos, ao menos, com que o “dantes” nos ensine, aliás, nos choque e force a restaurar a razão num tempo em que o pior vírus é, ainda, humano. E, antes que a máquina nos sobrepuje, antes que os números desqualifiquem o que temos de “espírito”, há que tornarmo-nos uno com o novo vírus, a nova realidade, há que chorar, sofrer, fazer o luto, e, finalmente, avançar.

O avanço poderá ser feito da mesma dilapidação da moral, da excisão da razão, do triunfo da Hipermodernidade. Ou poderá tecer-se de uma pós-modernidade em que a ciência não desmente a sabedoria, e a matriz de que é feita. Teremos de ser nós a decidir se o retorno ao “Espírito”, necessariamente laico, se concebe num novel modo de viver, ou se implica a assunção da morte nadificadora. O novo vírus é um aviso. A forma como lhe respondermos é já a sequência imprescindível. Se, entretanto, escolhermos uma via “eugénica”, estaremos, afinal de contas, a dar ao vírus toda a razão para nos destruir. Mas se escolhermos enlaçar a Natura, seremos, quiçá, capazes de abraçar tantos outros vírus dum modo compreensivo, maturador. Sinceramente, para a Natureza, a morte do Homem implica um risco bem menor. Mas, parece-me, o contrário não é verdade. E desferir o golpe contra as raízes é, tal-qualmente, desferir o golpe contra a Razão. A mesma razão que foi trabalhada sagazmente pelos grandes “vírus” de cada tempo. No último plano, a atitude racional condiz com a anuência viral da morte, em contraste com a visão científico-liberal, que se limita a fazer azular o problema, na conquista telúrica, não remissiva, do futuro. Vencer o vírus, tão-somente, é tratar a manifestação, sem que a causa seja importada. Ao contrário do que se possa pensar, mesmo, e sobretudo, em “estado de emergência”, a Filosofia é mais requerida do que nunca; ela previne e instrui a própria ciência, humanizando-a, também, e escusando a tentação fáustica, que, aqui, se coloca no pólo oposto da libido.

Um jogo de força com um vírus é como quem se entesa contra um inimigo. Aqui, queremos menos falo de potência derrisória e mais incesto unificador. Menos violentação constante e de proa liberal, mais coito de multidão espirituosa. Não, não creio na lógica de luta e/ou fuga, que é, de facto, a reacção “emergente”. Creio no receptáculo da desilusão, da derrota, na plena redenção. Se ela cria a fuga é para que não exista contágio de uma normalidade “louca”. Por isso, o evitamento social não é só de agora, como de agora é o ensejo de intransigência. Há que sair à rua, em desacordo e desacato, quebrar as barreiras, mas barricando, de vez, a grosseria da competitividade.

O Coronavírus aguarda. Aguarda pelo isolamento, que é toda uma profilaxia do viver humano. Que se estende da individualidade para a totalidade. E a última inclui o enlace de muitas possibilidades “virais”. O maior misantropo é o Homem Superior. Façamos com que a desadaptação seja comutada pela tolerância. Somente a aceitação, o amor, pode criar a perfeita adaptação, que é ser o próprio mundo presenteado pelo Humano nu. Não, “não vamos todos ficar bem”, nem “melhor”, nem “pior”, “sejamos Bem”. E se “ficarmos mal”, que seja por Bem. (Repitam, porventura: “Vamos todos ficar mal”, porque doentes estaríamos se continuássemos bem, depois da actual experiência. A doença é um vírus impensado. A infecção é a multidão que se arruína, pior, que esconde a ruína. O vírus é a segunda vinda de Cristo, já não para remir, mas para julgar. Sim, este é o Apocalipse. Mas outra Era virá! Porque um Cristo que descende lembra-nos algo acerca do Verbo irreprimível.) A Comunhão é, ainda assim, adaptação. A sua comutação por um modelo de “poder” é ceder a potência a outros vírus. Se não queremos ser assassinados, façamos por evoluir na esfera da libido universal. O Silêncio é o máximo que pode suceder. E não é pouco.

 

Por Luís Coelho

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