Grande entrevista – Fernando DACOSTA

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“Uma entrevista, é uma viagem ao interior de uma pessoa, não é um interrogatório policial.” – Jorge de Sena

Fernando Dacosta é um contador de histórias. Com uma voz suave, quase imperceptível, vai desfiando, com um humor por vezes corrosivo, estórias que se cruzam com a História e são um retrato vívido de um país, o nosso. Com uma habilidade impressionante, usa os fait-divers, as boutades, as anedotas, para caricaturar uma época, em que conviveu, lado-a-lado, com a elite cultural duma nação em efervescência.

Jornalista, romancista, dramaturgo, Fernando Dacosta, nasceu em Angola, numa fazenda a 40 quilómetros de Luanda, mas foi na casa do avô, em Segões, no distrito de Viseu, que passou a infância. Dessa infância beirã, onde conheceu Aquilino, amigo do avô, ficou-lhe o gosto pelas conversas de café, e a curiosidade de ouvir as histórias contadas pelos mais velhos.

Estudou no Liceu de Lamego e após breve passagem por Coimbra, rumou a Lisboa, onde se licenciou em Filologia Românica. Em 1967, a convite de Carlos Mendes Leal ingressa na Europa Press, e inicia uma carreira no jornalismo que o levaria a colaborar nos principais jornais nacionais: Diário de Lisboa, Diário de Notícias, Jornal de Letras, Público, Visão. Frequentador assíduo das tertúlias que fervilhavam um pouco por toda a cidade, em particular d’A Brasileira, do Chiado, onde se reencontra com Aquilino e conhece Almada Negreiros, Jorge de Sena entre outros vultos da intelectualidade da época, Dacosta embrenha-se na vida cultural lisboeta, onde, por intermédio da amiga Natália Correia, conhece Amália.

Da convivência desses tempos, e da enorme admiração que passa a nutrir pela fadista, resultou o livro “Amália – A Ressureição”, mote para uma conversa com a Bica, no ano da comemoração do Centenário de Amália.

O Fernando foi um homem de tertúlias, no tempo em que ainda existiam tertúlias.

Sempre gostei muito de tertúlias. Gostava d’ A Brasileira, porque era muito curiosa – na parte da frente, estava o reviralho, na parte de trás estavam os Pides. O Inspector Seixas passava pela oposição e dizia: “Boa tarde meus senhores” e o Aquilino Ribeiro, entre dentes, “Filho da Puta!” (risos). Era assim. Volta, meia-volta, lá apareciam, junto à estátua do Pessoa, dois senhores que me diziam: “O Senhor Inspector quer falar consigo.” e lá seguia eu até à António Maria Cardoso. Ele gostava de cinema e chamava-me mais para falar sobre isso do que para outra coisa. Eles sabiam bem que eu não era “perigoso”, porque não era do Partido Comunista, que, na verdade, era a única força organizada de oposição ao regime. O Salazar sabia-a toda. Tinha sido oposicionista em Coimbra e não tinha dúvidas que os intelectuais d’ A Brasileira não faziam revoluções (risos).

Conta algumas dessas histórias em “As Máscaras de Salazar”.

Toda a gente tem muitos aspectos. A mente humana é muito complexa e Salazar não era excepção. É sempre mais fácil olhar para a figura diabolizada, para o Salazar político, implacável, mas, a verdade, é que também existiu um Salazar humano. Gostava muito de se aconselhar e, em muitos casos, com pessoas que nem eram próximas do regime.

Só assim é que se entende que se tenha aproximado de António Ferro, que acabou Ministro da Propaganda.

E da mulher, Fernanda de Castro, que era altamente progressista para a época. Salazar telefonava-lhe a pedir conselhos. Este tipo de ditadores, que têm o poder absoluto, sentem a necessidade de encontrar alguém que lhes possa dar uma visão real do que acontece, e não efabulada ou submissa. Salazar gostava de ouvir a opinião de mulheres inteligentes.

A Dona Maria, que era uma mulher espertíssima e má como as cobras (risos), a Amélia Rey Colaço, muito inteligente, que navegou entre duas ditaduras: a ditadura do Estado Novo e a ditadura neorrealista do PCP. A Fernanda de Castro. Ele gostava de se rodear de mulheres com personalidade, de mulheres fortes. É uma personalidade da história que vale a pena estudar.

E perceber, porque, entendendo o Estado Novo, de certa forma, compreende-se um certo Portugal.

Eu costumo dizer que Salazar não chegou a Portugal de disco voador (risos). Em determinados momentos, surgem essas figuras, ditas providenciais. Assim surgiu o Trump, o Bolsonaro. Mas, o tempo que os catapulta, também os deita logo abaixo. O tempo aí é sábio. O grande segredo de Salazar era o grande conhecimento que tinha da maneira de ser do povo português. Sabia muito bem como puxar as rédeas, como baixar a temperatura (risos), para usar uma expressão que o Biden tem utilizado muito, recentemente. São fenómenos interessantes, já fazem parte da história, já lá vai meio século, e cada um pode pensar o que quiser, mas temos a obrigação de compreender como é que estes fenómenos surgiram e se mantiveram. Salazar foi o político português que mais poder teve, e durante mais tempo, ao longo dos nossos 900 anos de história. Isso é que é necessário compreender.

O Fernando começou a sua carreira de jornalista no Diário de Lisboa?

Comecei como antes, a convite do Dr. Carlos Mendes Leal.

Fundador da Europa Press?

Exacto. Estive em Espanha, assisti, um pouco, ao nascimento do El País, coincidiu, e depois, fui trabalhar para a delegação da agência em Portugal, que apareceu com o intuito de mandar notícias nossas para o exterior. Escrevíamos as notícias, mandávamos para Espanha, em Espanha traduziam para inglês e para francês e espalhavam pelo mundo.

Portugal, lá fora, não tinha relevância nenhuma. De Portugal o que interessava era o Eusébio, que nunca vi jogar, não gostava de futebol, por isso, quando estávamos juntos, só falávamos de África onde ambos nasceremos, a Amália, o Salazar, a Guerra Colonial e, sobretudo, aquela corte de reis e príncipes que estavam exilados em Cascais e no Estoril. Eu consegui uma boa ligação com todos eles: o Conde de Barcelona, o Rei Humberto, a Rainha Joana, da Bulgária, com essa gente toda. Vivia entre a realeza (risos) e a tertúlia d’A Brasileira do Chiado, onde paravam os grandes intelectuais da época. Nessa altura, a sociedade portuguesa não estava como hoje, dividida entre novos e velhos, um crime cometido pelo Senhor Cavaco Silva. Nesse tempo, sentávamo-nos na mesa do Almada e do Aquilino e falávamos com eles de igual para igual. Isso era extremamente enriquecedor, tanto para nós, que tínhamos o privilégio de ouvir aqueles grandes vultos da cultura portuguesa, como para eles, que gostavam de perceber como pensavam os jovens. Nas tertúlias, não havia separação de gerações, a sociedade não estava fatiada – novos para um lado, velhos para o outro. Psicologicamente, isto é terrível.

Já dizia o Jorge de Sena que “o que salva Portugal é a bisbilhotice dos cafés”. Era uma grande escola, uma grande fonte de conhecimento e de crítica. Antigamente, falava-se do Salazar, do Cerejeira, do Tomás, hoje não se fala de nada. Era uma Lisboa muito engraçada, nada cinzenta, ao contrário da ideia que se tenta fazer passar. Nunca me diverti tanto como nessa altura. Os cafés estavam abertos até às 4/5h da manhã e eram frequentados por gente interessantíssima. Assim como os jornais, onde colaboravam os grandes intelectuais da época.

Há tempos, num debate, dizia-se que os jornalistas desse tempo eram uns analfabetos (gargalhada). Eu trabalhei com analfabetos. Com o analfabeto do Urbano Tavares Rodrigues, com o analfabeto do José Cardoso Pires, com o analfabeto do Luís de Sttau Monteiro, com a analfabeta da Natália Correia, com o analfabeto do Borges Coelho, com o analfabeto do Saramago. Foi um orgulho trabalhar com analfabetos assim.

O jornalismo mudou muito?

Sabe, o jornalismo não é só a notícia. É a reportagem, o editorial, a crónica, a entrevista, a investigação. Uns são bons numa coisa, outros noutra e, normalmente, quem é bom nas notícias, não é bom na crónica ou na entrevista. Por isso as redacções reuniam gente muito diversa e era essa mescla que fazia dos jornais espaços de liberdade, mesmo na ditadura. A palavra escrita é uma arma contra a opressão e a prepotência, por isso decidiram substituí-la pela imagem, que pode marcar muito num momento, mas se desvanece na nossa mente. Costuma dizer-se que uma imagem vale mais do que mil palavras, mas foram as palavras que mudaram o mundo e isso deixou de interessar. Ao contrário do que se afirma, a censura não acabou com o 25 de Abril. Foi privatizada. Hoje, a informação está concentrada em dois ou três grandes grupos de comunicação social. Já não há jornalismo, há comunicação (risos).

Quando comecei a trabalhar no Diário de Lisboa, chegava às 8h da manhã à redacção, depois chegava o Raúl Rego, que era um idiota, e a meio da manhã, lá para as 11h saíamos, e íamos até À Brasileira, porque não era dentro do jornal que fazíamos as notícias. Depois regressávamos ao jornal e às 13h estávamos despachados, só trabalhávamos, normalmente, das 8h às 13h e depois tínhamos o tempo todo livre para andar na boa-vai-ela (risos).

E, ao contrário de hoje, bem pagos.

Eu, em 1974, ganhava 17 contos por mês, o ordenado médio acho que eram 5 ou 6 contos. Nunca ganhei tanto dinheiro como nessa altura e subi rapidamente nos jornais. No 25 de Abril era Chefe de Redacção do Diário de Lisboa, que era o principal jornal de oposição. E não foi através de cunhas, nem precisei de ter cartão de nenhum partido, foi pela competência, pelo reconhecimento do meu trabalho e, sobretudo, porque tive a sorte de ter aprendido com os melhores. Ouve pessoas que me marcaram profundamente. O Agostinho da Silva, o Jorge de Sena, o Aquilino…

Conheci o Aquilino em Viseu, em Segões. Quando regressei de África com a minha mãe, fomos viver para casa do meu avô, do pai da minha mãe, em Segões. O meu avô era uma figura giríssima, doido, completamente doido. Um anarca. Era amigo do Aquilino. Caçavam e bebiam copos juntos. O Aquilino tinha casa em Soutosa e quando ia para Segões ia para a taberna com o meu avô, que era em frente da escola primária que eu frequentei, aluno da Dona Palmira que era má que se fartava e dava aulas a todas as classes ao mesmo tempo. Ela era a única pessoa que sabia ler e escrever em Segões, que era uma terra de muita emigração para o Brasil, de modo que toda a gente lhe entregava a correspondência. Ela guardava a as cartas e como catrapiscava o Aquilino, entregava-lhas e ele usava-as para os romances que escrevia (gargalhada). O Aquilino estava sempre a dizer que para viver tinha de escrever dois livros por semana e …era assim que fazia (risos).

Conviveu de perto com os grandes escritores e poetas deste país.

Isso era inevitável. O país era muito pequeno e quase todos passaram pelos jornais.

Até Agustina.

Uma mulher muito arguta para aquela época. A Natália (Correia) odiava-a. Chamava-lhe a “Bruxa da Areosa”, em compensação, a Agustina dizia que a Natália era uma “tasqueira da Graça”. Era um espectáculo! Eu, como gostava de ouvir histórias, apanhava aquilo tudo. Os ódios, as paixões… Lembro-me de uma história engraçada com a Sofia (de Mello Breynner), que era um bocado snobe. Um dia, houve uma conferência no Hotel Infante de Sagres e eu desci para tomar o pequeno-almoço e estava a Sofia sentada numa mesa a fumar e convidou-me para me sentar na mesa dela. Passado um bocadinho desce o Saramago que pediu licença para se sentar connosco e atirou logo à Sofia: “Parece impossível a esta hora já a fumar” ao que ela respondeu com aquele ar etéreo que gostava de colocar: “Enquanto tenho aos mãos ocupadas com um cigarro, não estou a escrever baboseiras, como outros fazem.” (Gargalhada). Ela era assim. Teve um papel muito importante na Assembleia Constituinte. Foi muito corajosa nessa altura. Era um ambiente engraçado, agora, visto à distância.

Foi nesses meandros que conheceu Amália?

Conheci a Amália por questões profissionais, logo muito cedo, na década de 60, porque a imprensa internacional queria saber coisas sobre ela e tínhamos de estar informados. As pessoas não se aperceberam da importância que a Amália teve a nível mundial, mais até do que para Portugal. Ela era uma mulher muito inteligente. Para mim, que tive a oportunidade de conhecer os grandes vultos deste país e não só, a Amália foi a pessoa mais inteligente que conheci. Era tão inteligente que se fazia de burra, que é uma coisa que dá muito resultado entre nós (risos). Além disso, era manhosa, só dizia o que lhe apetecia, quando lhe apetecia, como lhe apetecia e, normalmente, esquecia-se de tudo, dizia que não tinha memória: “Ai, não me lembro”. Logo ela, que tinha uma memória fabulosa, que decorava aquele repertório todo, centenas de frases, sabia aquilo tudo de cor, era uma esponja, mas, quando não lhe convinha, desviava-se e vinha com a história de que só tinha a quarta classe. Ela falava 5 línguas (risos).

A essência da Amália é a inquietação que ela sente. Há pessoas assim, que são tocadas por essa inquietação. Facilmente ela se torna uma grande cantora, miudinha, domina todo o meio fadístico. Mas não gosta muito dele, não gosta muito das casas de fado, dos aventais, dos xailes, não gosta dos poemas que canta. Há muito fado que é um chunguice pegada e ela, como tinha muito bom gosto, sabia distinguir. A certa altura, sente-se que começa a procurar outros horizontes.

E então, um dia, reparou que o fado é uma ópera em miniatura, ela gostava de ópera, e começa a pensar naquilo, depois, começa a prestar atenção ao fado de Coimbra, mais pela simbologia do que pela musicalidade e pelos poemas, que acha um bocado foleiros, finalmente percebe que o fado é único no mundo. Então, a pouco e pouco, ela, que muito cedo descobre a poesia e lê muita poesia, começa a recriar o fado. Desde logo na questão da apresentação. Com a Dona Ilda Aleixo, que ainda é viva e tem a idade dela, (falei há três dias com ela, está em Oliveira de Azeméis, num lar) e que era costureira da Ana Maravilhas, a grande modista da época, começa a conceber um vestuário próprio para a ideia de fado que a Amália tinha: vestidos negros, compridos, ou seja, vestidos que já não são vestidos para os fados, antes os paramentos de uma Deusa que vai oficiar algo sagrado. Com aquela voz, com aquela presença, com aquela força, com aquele repertório, com aquela inteligência, transforma-se num fenómeno.

Inclusivamente, transforma, musicalmente o fado, com a colaboração de Alain Oulman.

Mas nunca descaracterizando.

Reinventando.

É uma criação que vem da inquietação dela. Ela sente, e isso é muito bem descrito pelo grande psiquiatra Eduardo Luís Cortesão, que gostava muito de interpretar os comportamentos das pessoas ao nível da psicologia, e que dizia que a inquietação de Amália a levava a uma insegurança, a um medo, que atingia proporções de terror. O Eduardo Luís Cortesão dizia que a sorte dela, era o fado durar 5 ou 7 minutos, porque se durasse uma hora ela não aguentava e tinha estourado, tinha enlouquecido ou morrido. Ela contava que quando cantava o “Povo que Lavas no Rio” e chegava à parte em que dizia “as tábuas do meu caixão”, via-se metida dentro de um caixão, aterrorizada. Isso é tudo verdade. Por isso é que, imediatamente depois de cantar um fado com esta intensidade, cantava o “cochicho da menina”.

Algo que cortasse a intensidade dramática que o fado lhe exigia. Algo que aliviasse a tensão, que a trouxesse à terra.

Exactamente. Ela era genial e sabia-o. Tinha perfeito conhecimento da sua genialidade, não era nada humilde, como se diz. Sabia que era um génio a nível mundial e que ia ficar na história universal do século XX.

O Oulman como a conhecia e percebeu o seu gosto pela boa poesia, convenceu-a a cantar Camões. Isso foi extraordinário.

Foi uma revolução. Ela percebeu Camões, porque só cantava o que percebia. Isso é outra coisa muito importante. Há muita gente que se põe a cantar e não percebe o que está a cantar. Ela estudava aquilo. Não gostava nada que lhe cantassem o repertório, o que se compreende, porque lhe deu muito trabalho. Mas, muita gente, à laia de homenagem, plagiava-a e nem sequer lhe pedia autorização. No outro dia ouvi na rádio uma coisa muito engraçada, passaram uma tipa qualquer a cantar o “Povo que Lavas no Rio”, eu ia ficando horrorizado a ouvir aquilo e, depois, logo a seguir, passaram a versão da Amália e pensei, “esta gente é tão estúpida… “

O Fernando costuma dizer que Amália tinha um feitio complicado.

Às vezes conseguia ser muito irritante (risos). Adorava pôr uns contra os outros. Ela despertava paixões, fogueiras, fanatismos. Era tudo de uma enorme intensidade. O problema da Amália é que era igualzinha à Natália Correia, só que a Natália tinha um defeito muito grande, dizia na cara das pessoas aquilo que pensava, a Amália não, só dizia o que convinha, sabia muito bem em que águas navegava e, portanto, aí andava, desde a política à literatura. Não levava nada a sério, nem a religião. Diziam que era muito católica, mas não era nada.

Da mesma forma que reinventou o fado, também reinventou a religião. Foi buscar um bocado de cada religião, porque precisava de uma âncora e sabia que transportava algo de genial, de excepcional e gostava de pensar que isso era um tributo de algo superior. Agarrava-se a essa fé, à Filosofia, ao canto, à grande poesia. Sempre conviveu com a nata da intelectualidade mundial, e, inteligente como era, absorveu o máximo que pôde.

Muitos se questionaram sobre o posicionamento político de Amália. Qual é a sua opinião sobre o assunto?

Amália estava acima da política. Não levava a sério. Quando dava dinheiro para os estudantes comunistas irem a não sei onde, não era por ser comunista. Dava porque gostava de dar, para ficar bem, para não a chatearem.

Mas, reconhece, neste seu livro, “Amália – A Ressureição”, que ela tinha uma certa admiração por Salazar.

Aí, curiosamente, a Natália definiu isso muito bem. A Amália gostava de Salazar como pessoa, mas não era salazarista. Como a Natália Correia gostava do Cunhal, mas não era cunhalista. Eu próprio convivi com o Salazar e com o Cunhal em termos pessoais, e sentia um certo respeito, uma certa consideração por eles. Mas não tem nada a ver com a política. Aliás, muita gente do regime temia que a Amália se passasse para a oposição. Mas ela, esperta, nunca deixou que a utilizassem. Aliás, há uma cena muito curiosa que vale a pena contar. Houve um inspetor da PIDE, de que não sei o nome, que tentou admoestar a Amália para ela cantar o fado de Peniche (“Abandono”, com letra de David Mourão-Ferreira e música de Alain Oulman), e o Salazar deu uma descasca ao Silva Pais, porque a uma figura como a Amália não se dizia o que podia ou não cantar.

Portanto, ela convivia com gente de todos os espectros. Aqueles serões em casa dela eram deliciosos. Fui a dois deles, com a Natália. Era muito complicado aturar dois bichos como elas (risos). Cada uma com um ego do tamanho do universo. Na casa de Amália havia dois cadeirões um em frente ao outro e mais umas cadeiras. Num dos cadeirões era onde a Amália se sentava, o outro, era para quem chegasse primeiro, normalmente era a Natália. Como eram muito modestas as duas (gargalhada), sobretudo a Natália, começava logo a citar poemas, Cantigas de Amigo, e a Amália começava a ficar com os azeites. Manhosa como era, pegava numa guitarra que dizia ter estado em Alcácer Quibir e começava a cantar.

Ora nós, entre estar a ouvir a chumbada das cantigas de amigo da Natália ou ouvir a Amália, virávamo-nos todos para a Amália. A Natália ficava doida. Era muito engraçado.

Mas admiravam-se mutuamente. A Natália percebeu que Camões, Pessoa e Amália faziam parte do “triângulo de luz da identidade portuguesa”. Camões deu-nos a língua, Pessoa o pensamento, Amália a voz.

Por João Moreira

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