“Futuros de Lisboa”

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uma exposição do Museu de Lisboa

Tudo mudou na metafísica da consciência individual e social com o simulacro
e a universalização da rede de todas as redes, a web, mas nada mudou
nos stocks e nos fluxos que nos fazem entender a verdade como procura e
as comunidades de conhecimento como essencialmente dialógicas. Jorge
do Ó e Henrique Leitão, 2018, catálogo da exposição Futuros de Lisboa.

 

Passado, presente e futuro nos museus de cidade

Desde há cerca de quinze anos que os museus de cidade têm vindo a mudar em número, abrangência temática e posicionamento na sociedade. Sobretudo na Europa, na América do Norte e do Sul, e ainda na Ásia, tem-se assistido ao aumento de museus de cidade, tanto de criação ex novo, como de renovação de muitos museus que estavam vocacionados para contar a história mais remota das suas cidades ou vilas. As expectativas referentes à atuação dos museus de cidade passaram a incluir a atenção ao passado recente e até ao tempo presente das sociedades urbanas, necessidade que tem acompanhado o próprio fenómeno do crescimento das cidades, que passaram a concentrar mais de metade da população mundial. Surgem novas problemáticas e novas oportunidades de inovação, por vezes de sinal contraditório e equilíbrio instável, como o aumento da poluição e as preocupações da sustentabilidade, ou a evolução para um maior cosmopolitismo e o risco de perda das identidades locais.

A renovação e atualização programáticas têm-se verificado em museus de cidade como o Museu de Amsterdão (antigo Museu Histórico de Amsterdão), o Museu de Londres, o Museu da Cidade de Nova Iorque, o Museu de Vancouver, o Museu de Frankfurt, o Museu de Moscovo, o Museu de História de Barcelona, o Museu da História de Seul, entre muitos outros.

O papel de guardiões de memória através da investigação e da conservação de diversas tipologias de patrimónios e da sua interpretação, vocação máxima dos museus, deve poder ser complementado, no caso dos museus de cidade, com a abertura à reflexão sobre questões prementes na urbanidade contemporânea, seja através de debates e conferências, seja por meio de exposições.

Na senda das referidas tendências internacionais, o antigo Museu da Cidade foi transformado no Museu de Lisboa, em 2015, com cinco núcleos museológicos na cidade e com um significativo potencial de criação de conhecimento e de inovação.

O tempo presente tem feito parte de projetos recentes do Museu de Lisboa apresentados nos últimos três anos, os quais têm incluído exposições temporárias que integraram obras de arte contemporânea e/ ou referências antropológicas à atualidade: “Varinas de Lisboa, Memórias da Cidade”, “A Luz de Lisboa”, “Fragmentos de Cor – Azulejos do Museu de Lisboa”, “Lisboa, Cidade Triste e Alegre: Arquitetura de um Livro”, “Procissão de Santo António”.

Desta feita, executámos um projeto de reflexão sobre o presente de Lisboa através de visões transdisciplinares sobre possibilidades de futuros distantes.

Futuros de Lisboa conceitos e autores

Tendo iniciado este projeto há cerca de dois anos, o Museu de Lisboa lançou, propositadamente, o desafio do comissariado científico deste projeto a três especialistas de perfis diversos: ao geógrafo e economista João Seixas, ao arquiteto Manuel Graça Dias e à engenheira do ambiente Sofia Guedes Vaz. Cedo fomos cruzando perspetivas com o objetivo de construir uma exposição e um catálogo que não correspondessem à apresentação de uma perspetiva futurista para Lisboa, mas sim a interpelações plurais sobre valores, atitudes e tendências referentes a possíveis evoluções da cidade. Não pretendíamos exercícios de adivinhação, nem tão pouco chegar a propostas para a evolução de Lisboa nos próximos anos. Antes se procurou promover e divulgar perguntas e reflexões multifocais em torno da conjugação de três elementos – Lisboa, Cidade e Futuro – sem optar por cenários propositadamente distópicos ou utópicos, nem por propostas sonhadoras ou catastrofistas.

Algumas das questões que os comissários e a equipa do Museu de Lisboa se foram colocando, permanecem de algum modo na própria exposição como perguntas: como se tem pensado o futuro? Como se tem pensado a cidade? Quais poderão ser os elementos mais importantes na construção de futuros para Lisboa?

Através de imagens, documentos, peças artísticas e científicas, fotografias e vídeos, a exposição pretende levar o público numa viagem ora ao passado, ora ao presente, ora a projeções para futuros sem data, para se pensar melhor a nossa cidade e o que será mais importante no seu futuro.

Uma exposição tecnológica, centrada nas maravilhas dos conteúdos informáticos e robóticos teria sido, por ventura, mais expectável, mas, estamos em crer, menos inovadora e menos útil para a criação de pensamento sobre Lisboa.

Para além da escolha de três comissários, a opção pela diversidade de conhecimentos e perspetivas conduziu, também, ao convite a 21 especialistas de áreas diversas para escreverem treze ensaios que irão integrar o catálogo, a lançar em setembro. Manuel Sobrinho Simões, Viriato Soromenho Marques, João Ferrão e Rui Tavares, António Câmara e Cristina Gouveia, Rita Marta, Sandra Marques Pereira, Afonso Cruz, Jorge Ramos do Ó e Mário Alves são alguns dos autores de textos nas áreas das neurociências, da ética, do trabalho, da cidadania, da ficção, da psicologia, da educação, da mobilidade, da habitação, entre outras.

As parcerias que se estabeleceram para a criação dos conteúdos para a exposição originaram outros olhares complementares, nomeadamente vindos da fotógrafa Luísa Ferreira, dos autores da obra multimédia António Jorge Gonçalves, Nuno Artur Silva e Filipe Raposo, de cientistas do Instituto Superior Técnico, de alunos de jornalismo da Universidade Lusófona e de alunos de escolas de 1º ciclo de vários bairros de Lisboa.

Ao longo do processo de construção da exposição, optámos, ainda, por convocar outro tipo de colaborações, que resultaram das respostas ao repto lançado aos cidadãos através do sítio da exposição na internet (www.futurosdelisboa.museudelisboa.pt). Pedíamos o envio de frases, contos breves ou imagens referentes ao futuro de Lisboa. Ao cabo de um mês e meio recebemos 160 participações, das quais se selecionaram cerca de 50 para a exposição, estando mais disponíveis online para consulta. Das propostas enviadas, destaca-se a sua diversidade e expressividade, em particular através da escrita.

Principais conteúdos

Nesta exposição sobre futuros, por anacronismo propositado, cada sala do Torreão Poente tem um nome, como se de um museu oitocentista se tratasse. Da Sala do Futuro ao Longo do Tempo, onde somos confrontados com documentos, imagens e vídeos referentes a desejos e a preocupações sobre o futuro de Lisboa, desde o século XVI ao ano 2000, passamos para a Sala do Futuro pelas Pessoas, com a presença de uma grande variedade de crianças de escolas da cidade e as suas ideias sobre o futuro das suas vidas profissionais. Segue-se um jogo com as noções de passado e presente no ambiente de museu antigo, na Sala do Futuro do Passado, em que objetos de criação e uso muito recente são solenemente apresentados em vitrines antigas dos anos 20 do século passado, como relíquias de um passado próximo.

O tema das Dificuldades em Prever o Futuro resulta em duas salas do edifício com a apresentação comparativa de imagens, ora antigas, de cerca de 1918, ora recentes sobre temas diversos da vida em Lisboa como o acesso ao ensino, os cuidados de saúde, os espaços comerciais e de lazer, a participação cívica de homens e mulheres, os meios de transporte, o armazenamento de informação, etc., deixando para a imaginação do público os cenários para daqui a cerca de mais 100 anos.

A Sala do Futuro que Já Cá Está apresenta um conjunto de experiências científicas inovadoras desenvolvidas por departamentos do Instituto Superior Técnico nas áreas da energia, da mecânica e dos sistemas e robótica. Novos materiais para uma construção futura mais durável e reutilizável, um carro movido a hidrogénio por um processo de eletrólise, um protótipo de um robot humanoide destinado a ajudar idosos que vivem sozinhos n

 

a cidade, uma bancada hidráulica que demonstra como se poderá no futuro vir a utilizar as águas residuais da rede urbana para a produção de eletricidade, são alguns dos exemplos.

Na Sala dos Hipotéticos Futuros apresentamos o resultado da intervenção de jovens autores de videojogos em fotografias panorâmicas atuais de Lisboa de Luísa Ferreira, comparando a realidade recente com possíveis cenários futuristas, mais ou menos distópicos.

A importância da economia circular dá o mote para a Sala do Futuro Inevitável explicando os seus conceitos fundamentais, desde a reciclagem à reutilização e à partilha de produtos, com exemplos de muitas iniciativas empresariais e associativas que já existem em Lisboa nesta área, práticas que deverão aumentar no futuro.

No piso térreo do Torreão Poente, apresentase a última parte da exposição, a Sala dos Pilares de Lisboa, tirando partido das 16 colunas desta bela sala, onde se expõem valores importantes da identidade de Lisboa e uma reinterpretação da Casa dos 24, criada pelo Mestre de Avis, com uma proposta de 24 Direitos para a cidade. Todo o restante espaço da sala é tomado pela projeção da obra multimédia, que funciona como uma síntese da exposição em registo ficcional e artístico.

De entre a pluralidade de perspetivas, com os graus diversos de imaginação que a exposição convoca, destacam-se as interpelações para assuntos essenciais para o futuro de qualquer cidade, e de Lisboa em particular. Para uma cidade futura mais sustentável, mais resiliente, ainda mais humana.

 

Por: Joana Sousa Monteiro

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