FUTURO

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“O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos.” – E. Roosevelt

 

Sopro rápido sobre o qual discorrem os dias. Fatos, camisas e gravatas, reuniões, viagens, novos negócios e prosperidade, tudo vergado a um jugo acelerador. Imediatismo, rapidez, metamorfoses diárias. Time is money. Jantar com amigos, aniversários, festejos e abraços. Gargalhadas e afectos num perímetro curto. A beleza dos sonhos. Passado.

Almas despidas do brilhante e indelével joie de vivre emanam a saudade do que não viveram. Presente.

Como o mar, não sabemos onde começamos, nem onde terminamos, como os tempos que nos abraçam, o agora está a forjar o futuro e não sabemos como será o molde do amanhã. Ou preferimos não saber. Sei que estamos habituados a arregaçar as mangas, a lutar, a reinventarmo-nos, não somos letárgicos, nós encerramos esse axioma. A despeito, penso, e estendo um preâmbulo de dúvida, uma dúvida frágil carregada de certeza que, os tempos futuros não serão ensopados em muita luz. Até essa luz tem um quarto de sombra. Sinto que vivo numa dormência de mãos dadas com a ansiedade, acompanhar os números, os casos, os surtos, as informações, o défice, a retoma à normalidade, retoma económica, o turismo, o SNS… esses mantos escuros, opacos e fantasmagóricos que ficam suspensos na minha televisão e ecoam pela casa e pelo meu ânimo. Questiono-me sobre a minha situação actual, a de familiares, amigos e desconhecidos, todo um véu de inquietações que me, e nos, molestam todos os dias, e fico a boiar nesse mar mediterrâneo da inquietação, inquietação, é só inquietação… como no sussurra o José Mário Branco.

Se o futuro sempre foi o verbo dúbio do amanhã, agora, presente, todas as premissas sobre as quais assentávamos, por mais que estas oscilassem, não deixavam de estar ancoradas. Agora, os conceitos mudaram, após a aleivosia das 12 passas de dia 31, a nossa psique ficou molestada pela incerteza, que sempre existiu a espreitar na esquina, esteve sempre lá, encostada à parede à nossa espera, com o entusiasmo de uma criança pronta a pregar um susto, a impactar os batimentos do nosso coração. Mas agora não vislumbro um susto infantil, mas sim algo mais lúgubre e opaco, com perfídia. Estamos a ser obrigados a repensar a nossa forma de estar, os nossos planos, os nossos sonhos e a candura da sua beleza, o nosso livre arbítrio. Temos um lápis azul ubiquista que fiscaliza todos os nossos comportamentos e pensamentos que seca o cravo de Abril.

Emocionalmente, ainda burilo estes sentimentos. Ainda estou a tactear e a aferir clareza ao que me rodeia. Ando a despertar, paulatinamente, com as sobrancelhas arqueadas, desta anestesia profunda, como se tivesse ficado sem pé, bracejo e venho à tona. Reajo e penso, coloco todos os meus medos em fila, uma legião, dou-lhes ordens de comando, agrupam-se e colocam-se em sentido. Há luz, há esperança, há sonho mas o mundo mudou. Está a ajustar-se, em gestação tal como nós. Nunca a distinção entre os tempos verbais foi tão laça, sinto que atingi o paroxismo da dúvida e estou sentada em cima dela. Titubeio com tristeza e encaro essa verdade, da nova realidade, reféns de um despotismo. Tento encontrar o afago paliativo desta incerteza num futuro incerto, esperando que a incerteza do amanhã seja mais anódina que a certeza de hoje.

É a paixão e a quimera que nos guiam, não a verdade, como nos confidencia Raul Brandão, a inquietação é que esses dois catalisadores estão dormentes…. Uma poeira que se foi alojando e adormecendo a paixão e abafando a quimera. Há luz, sim, que vara tudo como uma onda demolidora rasgando e infiltrando-se nas fissuras dolentes da vida, existe pois. Mas também existe uma névoa espessa, densa, que nos encurta a vista e aguça a dúvida, essa soberana, dominando toda uma orquestra interior. É a dúvida, com a sua gramática própria que nos faz definhar. Sinto um esbulho, sinto que me foram confiscados muitos sentimentos da fórmula do futuro, que ele me sabe a pão recesso, açorda insípida e solteira que está no menu do dia.

Rego todos os dias as raízes de uma esperança, essa que não alimenta mas que dá sabor ao pão, na qual espero ver brotar a flor da beleza dos sonhos. Não me peçam para escrever sobre o futuro… entre a raiz e essa bonita flor há o tempo, e esse, não sabe também em que tempo verbal existe.

Por Regina Azevedo Pinto

Imagem: Menina na Janela – Salvador Dali 1925

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