FUTURO – EDITORIAL

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“Nunca houve transformações tão profundas e rápidas: toda a terra reconhecida, explorada, equipada, diria mesmo, inteiramente apropriada; os acontecimentos mais longínquos, conhecidos no mesmo instante; as nossas ideias e poderes sobre a matéria e sobre o tempo, sobre o espaço, concebidos e utilizados de um modo completamente diferente daquele de como foram até nós. Quem é então o pensador, o filósofo, o historiador, mesmo o mais profundo, até mesmo o mais sagaz e mais erudito, que agora se arriscaria a profetizar o mínimo que seja?”

A frase, que podia ter sido escrita ontem, tem quase 100 anos. Escreveu-a o filósofo francês Paul Valéry, em 1932, ainda as notícias não nos entravam casa adentro, através da televisão, nem Neil Armstrong se aventurara a dar “um grande passo para a Humanidade” na superfície lunar; ainda o mundo desconhecia os horrores do holodomor, o genocídio ucraniano levado a cabo pelo regime estalinista, e da “solução final” nazi, plasmada nas arrepiantes imagens de Auschwitz, Dachau e Treblinka; ainda os campos eram verdes, em Chernobyl, e o Enola Gay não largara as suas bombas sobre Hiroshima e Nagasaki; ainda não existiam telemóveis, nem computadores, nem internet, e “o saber” não estava à distância de um clique, dependente de uma sucessão de algoritmos, antes compilado em grandes enciclopédias, que era necessário aprender a consultar; ainda a esperança média de vida, à nascença, na Europa, não passava dos 32 anos e as intolerâncias alimentares (e outras) não se tinham banalizado; ainda se via o céu, nas grandes cidades do mundo, e os icebergs polares não tinham começado a derreter; ainda se brincava, nos jardins e nas ruas, e as pessoas se podiam abraçar e beijar, sem receios; ainda se olhava o futuro como o sonho idílico de um mundo melhor.

Quase um século passado, o futuro já não é o que era. Não há previsão que aguente mais do que umas horas, quando muito, dias, e, tirando os cartomantes de serviço, uns quantos analistas televisivos e alguns economistas sempre muito propensos a prever o futuro e os futuros, já não há “filósofo, historiador, mesmo o mais profundo, até mesmo o mais sagaz e mais erudito, que agora se arriscaria a profetizar o mínimo que seja”, para regressar à frase, essa, sim, profética, de Valéry.

O futuro a Deus pertence, habituei-me a ouvir em miúdo, e, talvez por ser católico, a verdade é que essa frase, mil vezes repetida, se transformou numa espécie de reconfortante refúgio mental, que me desobrigava do fardo de me preocupar com os dias vindouros. Por isso, e pelo facto de, muito cedo, ter arrumado interiormente a questão da minha finitude terrena, a verdade é que nunca me perdi em grandes cogitações sobre o futuro e, mesmo na literatura e no cinema, à excepção das fantásticas e proféticas aventuras de Júlio Verne, das criações de H. G. Wells e E.P. Jacobs e do nunca concretizado teletransporte, do Espaço 1999, que sempre desejei se tornasse realidade, mais por comodismo do que pelas benesses que pudesse trazer à Humanidade, nunca fui fervoroso adepto de ficção científica, nem dos seus sucedâneos, mais ou menos realistas. Sempre lhes preferi os olhares preocupados, dos muitos que, visionando o futuro, nele anteviam os perigos resultantes dos erros do passado. Das preocupações ambientais de Goethe, em “Fausto”, ao “Admirável Mundo Novo” de Huxley, passando pelo big brother orwelliano de “1984” e pela sociedade do espectáculo de Bradbury, em “Fahrenheit 451”, foi, sempre, o assustador caminho para a desumanização que me prendeu a atenção. Isso e a banalização do mal, a que Arendt dedicou a vida e a obra.

Ora, aqui chegados, a este quase final do primeiro quartel do Século XXI, assolados por um vírus que a medicina, apesar de todos os avanços das últimas décadas, tarda em conseguir combater, e que teima em obrigar-nos a um isolamento compulsivo, afastando-nos dos que mais amamos e agravando a distância que, por egoísmo ou alheamento, fomos mantendo com vizinhos e colegas de trabalho, somos confrontados com a incapacidade colectiva de aceitar um isolamento, que, em abono da verdade, antes, não só praticávamos como ambicionávamos. A solidão forçada atingiu-nos onde mais dói, na nossa liberdade, e, pior ainda, no nosso ego, ao expor a nossa vulnerabilidade. Por isso, a reacção, depois do medo, que se sobrepõe, sempre, a tudo, e que, numa primeira fase, nos empurrou, voluntariamente, para as nossas casas, foi a da urgência de regresso a uma suposta normalidade. A verdade é que essa normalidade já revelava o que descobrimos por imposição. A solidão é um dos maiores dramas das sociedades actuais. Estudos recentes (anteriores à Pandemia da COVID-19) mostram que a sensação de solidão, ou de não pertença, assola um em cada oito britânicos, com maior incidência nos jovens entre os 18 e os 29 anos, um em cada cinco norte-americanos e dois terços dos cidadãos alemães. Embrenhados nas redes sociais, inchados com o número crescente de “amizades” conquistadas, trocámos os sorrisos, as gargalhadas, os beijos e os abraços por emojis, as conversas por tweets, os livros por posts do Facebook, os jantares com amigos por stories do Instagram, sem percebermos que, ao invés de nos aproximarmos, nos estávamos a afastar. Um teste feito a 60 000 adolescentes ingleses, a quem foi limitado o tempo de acesso às redes sociais, revelou que passaram a sentir-se mais integrados, mais sociáveis e, sobretudo, menos violentos e mais tolerantes. Hannah Arendt, no seu imprescindível “As Origens do Totalitarismo”, já se debruçara sobre essa relação íntima entre a solidão e as políticas de intolerância. Por isso, talvez não seja de estranhar que, à esquerda e à direita, surjam movimentos cada vez mais radicais, apostados em cativar esta gigantesca mole humana de inadaptados.

Assim, caso as palavras de Agustina (sempre Agustina!) não se tornem dramaticamente premonitórias: “Dentro de poucos anos o mundo será um imenso hospital sem possibilidades de atendimento, sem recursos para ser gerido convenientemente. As pessoas, aprendendo o medo como uma lei social, vão dedicar-se à doença como não se dedicam aos amigos e aos parentes”, é essencial que o ambicionado fim deste tenebroso vírus resulte, implique, não num regresso à normalidade, mas antes num novo começo.

Por João Moreira

Revista Bica 12 – FUTURO

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