Entre Minas e a Madeira, por exemplo

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O meu sempre presente editor telefona-me. Está perto o prazo, viajar é o tema. Feliz acaso: preparo-me para partir para o Funchal. Viajar provoca, tanto quanto a experiência de vida me vai permitindo perceber, uma suave angústia ao bebedor consciente. Cava-se entre quase todos eles um fosso entre o conservador e o progressista, entre o paroquial e o cosmopolita. Há exceções. Mas não há sempre? Deixemo-las para depois.

O bebedor viaja. Seja de carro ou de avião, sai da sua zona de conforto, por muito que goste de viajar. O conforto torna-se, porventura, outro. E aqui começa a cisão. Há os que vão, mas buscando manter-se bebendo o que sempre bebem no conforto do lar, no seu bar de eleição, em casa de amigos. Viajar, sim, mas com estatuto diplomático etílico. Onde meus pés pararem e minhas espaldas descansarem, aí esteja a minha aguardente de Borba, com 30 anos de ponderação. É isto possível? Claro que sim. Cidadão bebedor que planeie poderá dar a volta ao mundo sempre bebendo a sua dieta. Dá trabalho? Sim! Mas, que diabos, o que não dá trabalho nesta vida? Há que respeitar este tipo de cidadãos. Há até que admirar este tipo de cidadãos. Certo bebedor habituou-se ao seu Yoichi 10 anos e pretende circular pelos continentes bebendo esse espécime escocês naturalizado japonês. Nunca se viveu em melhor altura para isto. A globalização, por paradoxal que possa parecer, é o melhor amigo do conservador. O cidadão aterra em qualquer cidade do mundo, mesmo que munido da sua própria garrafa de whisky nipónico (por segurança) e pode já ir instruído sobre como chegar ao local mais próximo onde, não só poderá desfrutar do seu Yoichi 10 anos (ou, no limite, o de 12 anos, desfaçatez que está disposto a conceder), como poderá até bebê-lo num ambiente elegante, como esperaria fazer junto dos seus. Este tipo de cidadão encara viajar, quer goste muito ou pouco, como uma extensão natural do seu mundo. Daí que o seu mundo, em podendo, deva ir atrás. É censurável? Não posso ir tão longe, mesmo não padecendo de semelhante condição. Confesso até um certo respeito, admiração mesmo. O exercício de preparar, de planear a extensão da existência para além do sustento próximo do lar, do local de trabalho, da cidade onde se vive, para outros países, outros continentes, merece reconhecimento. Há algo de estimável em querer manter os hábitos de bebida não obstante a mudança. Se tudo muda, que a âncora seja a bebida. Viajar torna-se assim mais prazenteiro, com a segurança dos hábitos elementares firmados. Ganha-se uma renovada segurança na exploração dos novos locais. Há quem sinta que não possa viajar-se de outra maneira. Há, contudo, quem ache exatamente o contrário. Ao invés do tipo agora estudado, este espécime planeia, não o modo como poderá continuar a beber a bebida que sempre bebe, mas como poderá descobrir novas bebidas. As bebidas autóctones, as bebidas genuínas. Aquelas que lhe escapam, lá do outro lado, no seu hemisfério. Este é o bebedor cosmopolita. E, sinceramente, às vezes um pouco fatigante. Antes de chegar ele já estudou a bebida local. Admitamos por exemplo que vai ao Funchal. Se quer uma cerveja pede Coral. É certo que a Coral é provavelmente umas das melhores cervejas do mundo (a loura, entenda-se) mas ele pede-a porque é a cerveja madeirense. Apesar de ser pouco amigo de aguardente, este tipo de bebedor transfigura-se perante a poncha, bebida no Funchal ou arredores. É a bebida local! É certo, novamente, que a poncha, quando bem feita (boa aguardente de cana), é maravilhosa. Aliás, como quase tudo o que é bem feito com limão. A aguardente aqui é detalhe, como é também na Margarita e por aí fora. Mas divago. Voltemos ao Sercial de onde o bebedor cosmopolita nunca quererá sair. Mas mais: quererá levá-lo consigo. Um dos traços do viajante bebedor, por oposição ao bebedor viajante, é que o primeiro gosta muito de beber, mas gosta ainda mais de viajar. Ele viaja e a bebida torna-se também viagem, não pode trazê-lo de volta a casa. Para ele é impensável continuar a beber o que já conhece ou o que é habitual. Ele quer da bebida o mesmo que quer da viagem: mudança. Por isso, Coral, poncha e um Sercial de ’82. E sabem-lhe como néctares que são. O mesmo cidadão confrontado com uma viagem profissional a Minas Gerais, investiga de véspera a melhor cachaça mineira, para não correr o risco de comprar coisa parecida. Ele quer cachaça, descobre Prosa & Viola, fica contente. Será a melhor cachaça que já bebeu na vida? Por certo. Não só porque na Europa só bebeu derivados e afins, sucedâneos xaropados de algo que se faz passar por cachaça, mas porque está a beber Prosa & Viola na capital do boteco, enquanto come um pastel. A bebida ganha outro sabor. O cidadão abalança-se para uma Backer Pilsen já sem qualquer planeamento, mas apenas porque uns locais lhe disseram que é cerveja de confiança. Até lhe sabe melhor. Para o cosmopolita, viajar é estar perpetuamente a responder a uma promessa de recomeço, mas brindado com a possibilidade de se renovar mais do que principiar. Ele não começa de novo a gostar de cerveja, nem descobre o prazer do vinho em cada viagem. Ele renova com a bebida a aliança que estabelecera há muito tempo, essa fonte de cultura e de pertença, por mais que se viaje e se escape. Há no meio quem escape a esta cisão, a este fosso alcoólico? Viajar proporciona sempre um encontro com as nossas bebidas preferidas. Sejam aquelas que sempre nos acompanham, sejam aquelas que assim descobrimos. O que muda é o olhar do bebedor. E a única exceção a este vai-vem de íntimas disposições é aquele velho cliché estafado de que bebendo se viaja sem sair do lugar. E mesmo aí a bebida não deixa de nos acompanhar. Já Edmondo de Amicis, em 1881, no seu “Efeitos psicológicos do vinho” notava que os bebedores por vezes conseguem com o vinho viajar para dentro. Mas dessa viagem, por mais literatura, poesia, terapia ou hipnose, que sabemos realmente nós? Dessas viagens não falemos agora.

Por Pedro Santo Tirso

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