Entre a gula e a virtude, comamos!

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Um grupo de doutos e velhos senhores se reúne para elaborar uma síntese definitiva para a salvação das almas humanas. Estão preocupados em sepultar os anos da indecência romana, que a tantos corrompeu o espírito com vícios e devassidão moral. Num mundo agora cristão, a culpa pela gradual derrocada do império de Roma era atribuída à frouxidão religiosa que vigorou por séculos. Os romanos haviam adorado deuses pagãos que, à vista dos tais senhores, eram permissivos com o desfrute de prazeres que afastavam o homem das aspirações divinas e induziam a depravação dos bons costumes. Os romanos haviam tombado na própria montanha de imoralidades.

Na lista de vícios que estavam a compor aqueles homens de barbas, logo aparece a gula, o desejo irrefreável por comida e por bebida. Era, afinal, uma  forma de egoísmo e cobiça, um impulso a desejar sempre mais, uma insatisfação permanente com o que se tem. E isso transgredia as leis do Criador, porque se opunha à temperança, a virtude excelsa de que os patriarcas da Igreja queriam dar exemplo. O homem não poderia se alçar às hostes divinas enquanto seu corpo deliberadamente consentia em estar aprisionado às paixões da carne, entregue ao deleite dos prazeres mundanos.

Os santos padres do Cristianismo primitivo facilmente completariam a lista dos pecados capitais. Fecharam a conta em sete, porque o número era simbólico e – acreditavam – agradaria a Deus, que já tinha simpatia pelo algarismo: ele fizera o mundo em sete dias e dissera, pela voz de seu filho Jesus, que era necessário perdoar o semelhante não sete, mas setenta vezes sete.

Séculos depois, Dante Alighiere, em “A divina comédia”, populariza a lista infernal e lá está a gula, representada no Terceiro Círculo, no Lago de Lama, onde os gulosos jazem imersos no próprio vômito. Cérbero, o cão de três cabeças (que mais modernamente ficou popular por conta da série de filmes de Harry Potter), ali está naquela zona abismal como algoz inclemente. Com apetite insaciável, ele arranha, esfola, esmaga, dilacera e esquarteja os espíritos dos gulosos.

Essas imagens trevosas penetraram na cultura da civilização ocidental.  Num princípio absoluto, os prazeres eram vistos como a porta larga e sedutora da danação, uma ideia que resistiria séculos afora e forjaria a mentalidade repressora da sociedade feudal e do entranhado conservadorismo da cultura burguesa. Uma e outra, porém, sempre estiveram fadadas a se confrontar com a própria hipocrisia. Mesmo empenhadas em encarnar as virtudes de Deus, as sociedades conviviam com o escândalo. No mundo privado, a intimidade flertava com as tentações dos sentidos. As vontades humanas não se elevaram à altura e na rapidez que esperavam os padres fundadores. O homem concordava intelectualmente com a ordem moral estabelecida, mas tinha dificuldade em repelir as forças poderosas que brotavam algures em sua profundeza. Isso porque, embora percebesse os estragos de uma vida licenciosa, ele intuía uma verdade desconfortável para os pregadores da condenação eterna. Por que Deus, em sua infinita sabedoria e infalibilidade, havia dotado o homem da capacidade de sentir prazer, se alguns de seus representantes oficiais iriam mais tarde condenar a gozo de tais prazeres? Em outras palavras, por que Deus daria aos seus filhos corpos com brinquedos deliciosos para depois os proibir de com eles brincar?

Há uma síntese desse paradoxo num livro de Karen Blixen. Em “A festa de Babette”, duas irmãs são devotas herdeiras de uma vida de regrada abstinência ensinada por seu pai e profeta de uma comunidade religiosa enterrada no interior da Dinamarca. A existência ali é justificada pela supressão dos vícios, o que implicava banir os prazeres associados ao corpo, pois eram fonte das distrações, dos desvios e do obscurecimento da alma. Ocorre que a rotina das irmãs Martine é subitamente alterada com a chegada da francesa Babette Hersant, em fuga do movimento repressor à Comuna de Paris. Ela passa a trabalhar como cozinheira das irmãs, reeditando pratos típicos da comunidade. Depois de 14 anos a serviço delas, Babette ganha o prêmio de uma loteria e tem a ideia de gastar os 10 mil francos num banquete em homenagem à memória do pai fundador da comunidade.

A experiência do banquete seria libertadora. Os convidados, cujas vidas haviam sido a tradução da insipidez e da negação dos sentidos, viram-se surpreendidos  momentaneamente por ondas sucessivas de prazer a inundar-lhes a boca. O sabor dos  pratos requintados de Babette, que fora chef do prestigiadíssimo Café Anglais, expunha os convivas ao desconcerto de uma condição inédita: render-se ao prazer soberbo que excitava as papilas ao mesmo tempo em que a consciência vigiada por uma vida inteira de privação lhes cobrava desinteresse por tais apelos do sentido. Ao final, as irmãs se entregaram à felicidade de um prazer tão humano, a ponto de inverter ordem das coisas: “Babette, você encantará todos os anjos”, profetizou uma delas.  Elas compreenderam que aquela felicidade, mesmo sensorial, não poderia desagradar a Deus. O banquete as fizera mais felizes, mais do que muitos anos de autocastração dos sentidos. O que haveria de errado nisso?

A história da gula é a da própria narrativa do conflito travado na consciência  humana, que ora reprimiu o desejo, ora o distensionou para explorar seus limites, oscilando entre versões variadas do hedonismo e do estoicismo gregos. Nessa gangorra, entre a abstinência e o regozijo, o homem descobre o caminho da virtude. Num movimento ancestral, a gula, no exercício dos excessos, permitiu desenvolver a sofisticação do paladar. O sentido mais apurado passa a valorizar mais as experiências episódicas do prazer à mesa do que a rotina repetitiva e calejante de comer abundantemente. Em vez do prazer da saciedade, o homem busca essa felicidade percebida pelas irmãs Martine, uma experiência que, se não fosse ocasional, não produziria as mesmas sensações extraordinárias. Porque todo prazer é intermitente, obedece a ciclos entre o gozo e o fastio. Comer pode ser uma experiência trivial e viciante, uma compensação diária para o desprazer da vida. Em sua história, a gula, porém, nos deixou uma lição. A felicidade suprema à mesa é quando todos os sentidos se excitam, se deleitam e se saciam completamente, para depois, sem pressa nem ansiedade, aguardarem a próxima oportunidade de plenitude.  Comer só poderá ser transcendente quando for desnecessário.

 

Luiz Garcia

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