Dois capitéis romanos de Lisboa

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Os caminhos sinuosos do nosso património

Quando em março de 2018 se anunciou publicamente que o Palácio do Correio Velho, Leilões e Antiguidades, S.A. iria leiloar o espólio do célebre historiador José Hermano Saraiva, foi com furor que centenas de pessoas se deslocaram à exposição. Salas e salas encontravam-se repletas de peças. Pintura, estatuária, elementos arquitetónicos, mobiliário, azulejos, variadas peças decorativas, um baldaquino de Rafael Bordalo Pinheiro, enfim, uma infindável coleção que refletia o gosto eclético do tão bem conhecido narrador das histórias da nossa história.
Um total de 444 lotes colocados à venda, que reunia o espólio da casa de Palmela. Uma casa grande, feita à medida de José Hermano Saraiva e que impressionava pelo ecletismo do seu recheio, onde o olhar mal se detinha em cada peça por serem tantas a desafiar a atenção.
José Hermano Saraiva foi um “belíssimo contador de histórias” e histórias era o que a sua Casa Grande de Palmela encerrava.
Fui a sua casa num dia do Verão de 1995! Encontrava-me nessa altura a realizar o levantamento de capitéis de época romana, com vista à realização da Dissertação Final de Mestrado em História da Arte subordinada ao tema “Capitéis Romanos da Lusitânia Ocidental”. Ao folhear uma revista de jornal, penso que do Diário de Notícias, reparei numa entrevista ao Professor José Hermano Saraiva, mais precisamente numa imagem onde o próprio surgia sentado numa poltrona na sua sala da casa de Palmela e onde se viam, ao fundo, duas peças que nada mais poderiam ser que dois capitéis romanos. Suportando um tampo de vidro funcionavam como base de mesa, ornamentando belissimamente o espaço.
Não me teria ocorrido que tais peças pudessem figurar com aquela nova função na sala de estar de alguém.

Por tão habituada a vê-los em museus ou em sítios arqueológicos – afinal, o seu verdadeiro lugar – não me ocorreria passar a consultar revistas de decoração para encontrar informações que habitualmente recolheria em inventários de arqueologia, textos da especialidade ou histórias gerais do passado português. Sinuosos são os caminhos da investigação histórica e a partir de então, passei a olhar com mais atenção algumas revistas “cor-de-rosa” ou de decoração pois nunca se sabe quem gostaria de ter um fuste de coluna à cabeceira, capitéis a servir de mesa, uma Nossa Senhora do Ó como bengaleiro ou uma ânfora romana a servir de bispote para flores…

O contacto com o Professor José Hermano Saraiva foi muito fácil. Nem me lembro já como consegui obter o seu telefone de casa, mas quando liguei foi o próprio que me atendeu e que prontamente me convidou a visitar a sua casa e a poder analisar, de perto, as peças que me haviam captado a atenção. Tive assim o privilégio de falar com o historiador, aquele que foi ministro da Educação entre 1968 e 1970 e embaixador de Portugal no Brasil entre 1972 e 1974. Antes disso, havia desempenhado as funções de Diretor do Instituto de Assistência aos Menores e de Reitor do Liceu Nacional D. João de Castro, em Lisboa, tendo igualmente sido professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina e Deputado à Assembleia Nacional durante o Estado Novo. Recuando ainda mais no tempo foi Diretor da Campanha Nacional de Educação de Adultos em 1959 tendo ingressado na Mocidade Portuguesa em 1955 sendo depois nomeado secretário-geral e relator da Comissão Executiva do II Congresso Nacional da Mocidade Portuguesa. Foi ainda Vereador para a Cultura na Câmara Municipal de Lisboa durante o mandato do Eng.º António França Borges. Curiosa esta personagem – António França Borges – que, em 1953 e 1954 foi Comandante do Batalhão de Caçadores em expedição à Índia. Assumiu as funções de Presidente da Câmara de Lisboa entre 1959 e 1970 e foi durante o seu mandato que se realizaram as primeiras escavações arqueológicas que permitiram colocar à vista o teatro romano de Lisboa. Outro que não ele, muito provavelmente, não teria percebido a relevância do aparecimento de tais antiguidades, e poucos seriam os que, então, alcançariam as razões de um investimento em prole da criação de uma reserva arqueológica que tem permitido, ao longo de mais cinco décadas, a descoberta do passado da cidade de Lisboa que marca a sua história e que igualmente a define, cultural e historicamente, na atualidade.
E recuamos no tempo precisamente porque foi neste contexto de início das escavações arqueológicas do teatro romano que, muito possivelmente, terão surgido os capitéis na Rua das Padarias.
A única informação fornecida por José Hermano Saraiva a propósito destes dois exemplares arquitetónicos foi o de terem aparecido naquela rua por ocasião de obras que ali se faziam. O tempo é, em termos vagos, a década de 1960 e o contexto histórico totalmente desconhecido. Pelas suas palavras, terá passado um dia pelo local e viu os ditos exemplares no meio de valas que se abriam na rua. Ou seja, não sabemos se surgiram estruturas arqueológicas associadas, outros objetos que, mesmo sem qualquer valor, poderiam ter permitido uma avaliação do contexto deposicional das peças. É esse o trabalho dos arqueólogos que valorizam tanto a envolvente e contexto do achado como quanto o que surge.
Na ausência de tais informações resta-nos as peças por si próprias, afinal o que menos interessa ao arqueólogo: quando através de simples objetos tem de reconstituir o momento histórico a eles associado, valendo assim o conceito do “objeto pelo objeto”!
Ainda assim, e comprovando que as pedras falam, são muitas as informações que podemos obter. Estes dois exemplares integramse na ordem arquitetónica coríntia e têm a particularidade de apresentarem estados distintos de acabamento: um apenas esboçado, no que respeita à sua decoração (ML. ESC.0763) e outro bastante mais finalizado (ML.ESC.0762).
Dado o relevante valor artístico e histórico dos capitéis, a Câmara Municipal de Lisboa optou pela sua aquisição para que este importante património possa ficar acessível ao público em exposição no Museu de Lisboa. Os esforços desenvolvidos para que tais peças não fossem a leilão não deram fruto. Sendo cinco os herdeiros diretos do recheio da casa de Palmela não houve consenso para que as peças fossem adquiridas, mesmo que por um preço simbólico, por uma instituição pública. Não existia qualquer comprovativo de compra pois a aquisição nunca teve lugar. As peças em questão surgiram no subsolo e, por essa razão, pertenceriam ao Estado, tal como definido por Diário da República nº 209, de 8 de setembro de 2001 (Artº 78, alínea 1). Naturalmente que na década de 1960 tal legislação não estaria em vigor, mas, do mesmo modo, na atualidade, apenas podem ser alienadas obras de arte quando a sua aquisição é comprovada, o que seria impossível fazer pelo facto de as peças nunca terem sido compradas, mas antes subtraídas ao património nacional.

Infelizmente este não é caso único e a história recente encontra-se repleta de exemplos semelhantes. Veja-se, por exemplo o caso de uma pintura portuguesa leiloada no dia 5 de julho na Sotheby’s, em Londres, da autoria de Diogo de Contreiras – um dos artistas basilares do «Maneirismo experimental» português, na opinião do historiador Vítor Serrão – intitulada «Visitação da Virgem a Santa Isabel», que pertencia à igreja de São João das Lampas (Sintra) e que “desapareceu” nos anos 60 do século passado para uma coleção alemã! Também neste caso não existia qualquer documento de posse ou de aquisição da peça e decerto que agora ornamenta uma qualquer parede de um qualquer endinheirado, de um qualquer país que não o nosso.
Por fim, não posso deixar de sublinhar a posição da Câmara Municipal de Lisboa, em especial da Vereadora da Cultura e do Diretor Municipal de Cultura da edilidade pelo interesse e empenho demonstrados ao longo deste processo. Estas pedras não são tábuas pintadas, não revelam de imediato a sua importância. Não são peças que suscitem o interesse de um qualquer museu nacional (não sei bem porquê!), mas são testemunhos silenciosos que não revelam a sua história a não ser a quem as saiba e queira ler. Um enorme obrigada a quem participou neste resgate que nunca deveria ter tido lugar pois o nosso património é de todos e não deveria necessitar de ser resgatado à queima roupa para satisfazer a procura de dinheiro vivo de alguns e a vaidade de ostentar em sala privada o testemunho do passado de uma identidade nacional.

Análise descritiva
Os exemplares, talhados em calcário esbranquiçado, são atribuíveis ao século II d.C. e têm ambos uma altura de 0,43m. Esta dimensão, a par das restantes que não diferem muito (diâmetro da base, altura das duas coroas de folhas que ornamentam o corpo da peça, dimensões do ábaco…) apontam para que tenham sido feitos para um mesmo edifício.

Descrição:
ML.ESC.0762
Capitel coríntio canónico. Duas coroas de folhas compostas por lóbulos que se dispõem paralelamente, apresentam um perfil arredondado na sua terminação. Analisando as folhas da imma folia (primeira coroa de folhas que arranca da base da peça) estão presentes cinco lóbulos, organizados em conjuntos. Pequenos pontos de trépano marcam lateralmente o local das separações lobulares. Os lóbulos, organizados em conjuntos de três folhinhas — mais evidentes na parte inferior da folha — mostram o pormenor da sobreposição lobular, característica que se presencia sobretudo a partir da época de Augusto. Na summa folia (segunda coroa de folhas) encontramos folhas semelhantes que apenas se desgarram superiormente do kalathos (corpo do capitel). A terminação arredondada ou em forma de gota de alguns parece, por vezes, não ter sido concluída devido a um acabamento imperfeito.
Entre as folhas da imma follia e elevando-se por cima das folhas da coroa superior, dispõem-se os caulículos decorados por dois sulcos longitudinais e por uma orla superior de perfil convexo ornamentada por pequenos sépalos. E nítida a verticalidade destes elementos, apenas ligeiramente inclinados na parte superior e afastando-se, assim, do eixo da peça. Dos caulículos arrancam duas meias folhas de perfil, que suportam, respetivamente, as faixas correspondentes aos canais das volutas e das hélices.
A proporção entre os dois registos inferiores — imma e summa folia — e o superior — hélices, volutas e ábaco — não segue os padrões canónicos do séc. I d.C., concedendo uma notória importância ao primeiro em detrimento do segundo, o que se traduz numa explanação mais contida dos motivos decorativos do registo superior obrigando, deste modo, a uma maior horizontalidade das volutas e hélices, elementos que contrastam com a verticalidade dos elementos inferiores — folhas e caulículos. Esta alteração da proporção do capitel torna-se mais notória a partir dos finais do séc. I d.C., sendo mais acentuada na seguinte centúria.

Volutas e hélices encontram-se representadas por faixa larga e lisa, de enrolamento espiraliforme na sua parte terminal sendo o botão central sobrelevado. Frontalmente, as duas fitas que representam o canal das volutas que se observam por baixo do ábaco unem-se a meio através de um pequeno listel, ao invés da simples junção que encontramos em peças de época augustana ou dos inícios da época Julio-Claúdia. Dos caulículos surgem duas meias folhas. Entre estas surge uma pequena folha trilobada, pormenor decorativo que apenas ocorre a partir dos inícios do séc. II d.C., tal como podemos constatar em capitéis de Itálica (Eecija, Sevilha) ou de Mérida.
O ábaco é decorado por uma moldura alta e ligeiramente convexa que se sobrepõe a uma banda mais reentrante e de perfil ligeiramente oblíquo. Os lados são côncavos e a parte central é decorada por uma roseta de cinco pétalas e com botão central relevado.
Na parte superior do ábaco observa-se um pequeno scamillus, mais reentrante em relação ao diâmetro do ábaco, elemento que confirma o cuidado técnico e o perfeito conhecimento das técnicas então em uso na realização deste tipo de peças. Esta pequena altura na parte central do ábaco do capitel impede que a força da arquitrave se exerça sobre os ângulos da peça, zona bastante mais frágil que, por meio deste artifício, ficaria salvaguardada. As volutas por baixo do ábaco unem-se através de um pequeno listel, ou faixa, pormenor ornamental caraterístico a partir de meados ou finais do séc. I d.C.

O registo inferior da peça (as duas coroas de folhas que se sobrepõem) apresenta uma acentuada verticalidade dos motivos, no entanto, este aspeto contrasta com o aspeto pesado da parte superior do exemplar onde as volutas angulares e as hélices detêm uma inclinação acentuada como que segurando o peso do ábaco. A orientação quase horizontal que estes elementos adotam – em oposição à verticalidade acentuada que apresentam no séc. I d.C. e mesmo durante a seguinte centúria – faz aproximar das correntes decorativas que se visualizam em peças tardias do séc. III d.C., como acontece em exemplares de Perugia.
O acentuado efeito de claro/escuro, a sucessão de volumes provocada por uma marcada projeção de alguns dos elementos, assim como o recurso ao uso do trépano, leva a integrar esta peça numa linha evolutiva de tradição flaviana ainda que já degenerada, onde alguns motivos surgem simplificados e fazendo um maior recurso a efeitos de luzes e sombras e a um tratamento bidimensional dos elementos.
Pelas características evidenciadas datamos este exemplar da primeira metade do séc. II d.C.
Técnica:
Utilização de picão na parte superior da peça e de pico de ponta grosseira na parte não decorada do kalathos (zona superior). Vestígios do emprego de escopro ou cinzel de ponta nos pormenores decorativos e de escopro de bisel nas folhas, volutas e hélices. Trépano corrido mal realizado, ou deficientemente terminado, nas nervuras foliáceas, assim como em outros locais. Utilização de broca de ponta em casos pontuais. São ainda visíveis vestígios do início da utilização de abrasivos de afeiçoamento, sobretudo nas volutas, onde não será de excluir a hipótese de utilização de cinzel gradilhado.

Descrição:
ML.ESC.0763
Este capitel apresenta a característica de não se encontrar terminado. A decoração mais pormenorizada não está concluída, ainda que os traços decorativos gerais — a sofrerem tratamento posterior — estejam presentes.
Curiosamente, apenas quando esta peça foi colocada em exposição no Museu de Lisboa – Teatro Romano foi possível perceber a razão pela qual a peça não foi terminada. Com efeito, presencia-se um erro de desenho/traçado da peça ou então um erro de corte em relação ao fuste uma vez que a peça é, claramente, mais alta de um lado que do outro. Os elementos mais pormenorizados ainda chegaram a ser delineados a trépano mas deve ter ficado evidente, logo no início do trabalho, que seria impossível concluir a peça. Este dado permite-nos afirmar da presença de aprendizes ou de artífices não qualificados que trabalhariam em ateliers de razoável qualidade. A peça que acima descrevemos, completa, atesta a qualidade da oficina, com a produção de trabalhos destinados a um público que exigiria peças semelhantes às que teria observado, por exemplo, na capital da província da Lusitânia: Augusta Emerita (atual Mérida, em Espanha).
Não obstante o estado inacabado da peça, podemos afirmar que nos encontramos perante um capitel canónico, uma vez que estão presentes, ainda que meramente esboçados, todos os elementos que o caracterizam. Algumas das folhas da imma folia apresentam bem demarcados quatro lóbulos. Os pequenos pontos de trépano que ladeiam lateralmente a folha podem fornecer-nos alguma informação em relação à técnica de talhe deste exemplar. Com efeito, a colocação de pequenos furos à volta da folha divide a sua superfície preparando-a para a ornamentação mais cuidada. A nervura central é materializada por dois sulcos profundos realizados a trépano. Os vários pontos não se encontram ainda unidos, ainda que fosse essa a intenção do canteiro. As folhas da segunda coroa apresentam-se muito similares às da imma folia. O afastamento da parte superior da folha em relação ao kalathos é também mais acentuada, o que certamente conferiria um maior efeito de sombras e luzes, tornando de igual modo mais evidente o consequente jogo de volumes.
Por entre as folhas desta coroa saem grossos caulículos, dos quais se encontram somente representadas as respetivas orlas, decoradas por moldura ligeiramente convexa delimitada por sulcos. A parte inferior dos caulículos não se encontra verdadeiramente representada uma vez que não existe separação entre estes e a superfície do cesto. Dos caulículos saem caules que suportam meias folhas apenas esboçadas.
As hélices elevam-se quase verticalmente ainda que a sua terminação superior altere bruscamente de sentido e o local onde, provavelmente, se localizaria o enrolamento espiraliforme, mal apareça esboçado. Ainda que se observe um pequeno alargamento das hastes das hélices junto ao ábaco, parece não haver espaço suficiente para a inclusão das volutas, estas, a serem explanadas, certamente seriam muito contidas.
Nos ângulos da peça observamos volutas de acentuada projeção, separando-se do kalathos com o objetivo de acompanhar o ábaco que se lhes sobrepõe.
O ábaco é estreito, de lados côncavos, oferecendo um perfil vertical e infletindo para o interior com talhe biselado. As suas faces encontram-se decoradas com motivos distintos. A tradicional flor foi aqui substituída por elementos pouco usuais no léxico do capitel coríntio canónico. Um dos motivos é uma palmeta muito estilizada a qual, se analisada individualmente, poderíamos integrar em cronologias tardias.
Por cima do ábaco detetamos um pequeno scamillus, retraído em relação à dimensão do ábaco, semelhante ao da peça que anteriormente descrevemos. O aspeto mais interessante, como acima referimos, diz respeito ao erro de talhe inicial da peça. Este facto leva a colocar a hipótese de o atelier que produziu ambos os exemplares não se localizar muito longe do local onde os mesmos foram encontrados.

Técnica:
Utilização de pico ou picão em praticamente toda a superfície da peça. Vestígios do emprego de escopro de ponta nos pormenores decorativos e de trépano corrido em alguns contornos foliáceos. Escopro de bisel nos pormenores angulares das volutas e igualmente presente nos elementos que decoram o ábaco. Nas volutas são visíveis alguns traços de raspador e, em algumas partes do kalathos pode-se observar a utilização de um abrasivo de afeiçoamento/polimento (?).

Contexto:
Sem que saibamos mais pormenores sobre o local de aparecimento destas peças, a proximidade com as Termas dos Cássios ou com o Largo de Stº António, onde se poderia ter situado uma das portas monumentais da cidade de época romana, são locais prováveis onde estas peças podem ter sido utilizadas. A Rua das Padarias é uma artéria de grande relevância para a cidade. Nesse local, ainda embebida nas fachadas dos edifícios do lado direito de quem sobe a rua, implanta-se a antiga Cerca Velha a qual teria uma torre já no Largo de Stº António (lado sul). Também na esquina entre a Rua das Padarias e a atual Rua dos Bacalhoeiros localizavam-se, no séc. XII as antigas “padarias”, designação que deu origem ao topónimo e, mais tarde, ao longo dos sécs. XIV/XV, as “Carniçarias” da cidade. No mesmo local, mas recuando no tempo, terá aí laborado uma fábrica de transformação de pescado de época romana que, provavelmente, terá estado em funcionamento entre meados do séc. I d.C. e o séc. V d.C. Há igualmente a referir vestígios de época romana detetados no Largo de Stº António. Apesar de difícil interpretação, pela exiguidade da área intervencionada e escassez de dados fornecidos, as estruturas aí reconhecidas são importantes pela sua dimensão e qualidade técnica, colocando em evidência a possível existência de um edifício público no local. Um pouco mais para noroeste encontramos, na Travessa do Almada, quatro inscrições romanas, provavelmente também atribuíveis ao séc. II d.C.
Não podemos deixar de mencionar que atualmente (e até 23 de setembro) as réplicas destas epígrafes encontram-se em exposição no Museu de Lisboa – Teatro Romano numa exposição temporária designada (RE) inscrições da Travessa do Almada.
As pedras que aí se expõem reproduzem três das quatro inscrições romanas que se encontram embutidas na parede do edifício junto à Igreja da Madalena, concretamente na fachada do prédio sito na Travessa do Almada (com entrada pelo nº 1 da Rua das Pedras Negras e Largo da Madalena nºs 3-6). Estas peças foram recolhidas em 1749, quando o antigo proprietário do terreno, o então Visconde de Vila Nova de Souto, construía o edifício, tendo sido colocadas na fachada por sua expressa ordem, cumprindo uma prática de salvaguarda de antiguidades, então habitual no centro da Europa. Edifício e epígrafes tiveram a sorte de sobreviver ao Terramoto de 1755.
Chama-se a atenção para o facto de uma das inscrições – a única não exposta devido à sua grande dimensão, mas reproduzida em tamanho real – ser um cipo honorífico dedicado a um questor (funcionário romano com importantes funções administrativas) da província romana da Baetica (Bética, atual Andaluzia espanhola). O monumento foi-lhe ofertado pela própria cidade de Felicitas Iulia Olisipo / Lisboa. A parte superior do monumento deveria ostentar uma estátua do questor.
As peças expostas são réplicas permanecendo as originais na fachada do edifício. O progressivo desgaste provocado pelo tempo e poluição levou a que o Museu de Lisboa tomasse a iniciativa de as reproduzir. Saliente-se, aliás, que as inscrições se encontram classificadas como Monumento Nacional desde 1910 (Dec. 16/06/1910; DG 136 de 23 junho 1910; ZEP: DG 213 de 11 setembro de 1961).
Desde 2004 que chamamos a atenção para este problema. Quando, finalmente, as inscrições não tiverem leitura – o que, aliás, já acontece – podemos sempre contentarmonos com as réplicas que um dia foram feitas. Ironia do destino que sejam as réplicas a ser atualmente exibidas num museu e não as peças originais que, ano após ano, continuam impávidas perante os olhos impávidos de todos, a desaparecer lentamente sob o nosso olhar!

*Coordenadora do Museu de Lisboa – Teatro Romano / EGEAC (CML)

Por: Lídia Fernandes

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