doclisboa

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“No lugar da consciência A lei da concorrência Pisando tudo pelo caminho Pra castrar a juventude Mascaram de virtude O querer vencer sozinho” José Mário Branco, em Do que um homem é capaz Começávamos a traçar caminhos para a 18ª edição do Doclisboa, quando fomos arrebatados pela notícia da morte do José Mário Branco. Passámos vários dias a ouvir as suas canções enquanto continuávamos a imaginar um Doclisboa num país e num mundo atravessados por transformações que nos impeliam a pensar o que pode um festival de cinema quando tantas forças de opressão ganham terreno. As palavras do José Mário ecoavam em todas as nossas motivações.

Quando subitamente 2020 é abalroado por uma pandemia que obriga ao confinamento e ao isolamento social, sentimos que espaços democráticos de discussão colectiva seriam fundamentais. O Doclisboa teria de contribuir para a reconstrução e para o fortalecimento social, estar aberto e propor mundos que nos inspirem, que nos façam cruzar espaços e tempos. Em vez de 11 dias de festival, propomo-nos iniciar uma viagem ao longo de 6 meses. Começaremos descobrindo um passado cheio de complexidades e forças internas através da retrospectiva A Viagem Permanente – O Cinema Inquieto da Geórgia. A Geórgia, desde o seu passado soviético até ao presente, foi construindo uma cinematografia muito rica e pouco vista. Muitas das cópias destes filmes estavam guardadas em arquivos ex-soviéticos de difícil acesso a que só recentemente o Centro Nacional de Cinema da Geórgia conseguiu aceder e assim recuperar este acervo que agora descobriremos. São filmes surpreendentes que em conjunto nos lembram que o passado é matéria da memória e que só nos podemos pensar hoje estando disponíveis para pensar o ontem.

Paralelamente, apresentamos Corpo de Trabalho, um mapa de filmes que se debatem com as questões de trabalho hoje e a que juntamos lutas do passado que continuam a dar fôlego para um outro futuro. As diferenças sociais que decorrem da organização das sociedades capitalistas de que fazemos parte são, em tempos de severas crises, expostas com todas as suas brutais consequências. De igual modo se expõe uma organização laboral que demarca a segurança de uns em detrimento da segurança de outros e que, tendo raízes já antigas, nos mostrou, este ano, apenas mais ramificações dessa complexa teia de poderes.

A partir daí, apresentamos a programação do Doclisboa num gesto organizativo que parte do que nos inquieta, mas que, em 5 andamentos, se lança também às imprevisíveis possibilidades. Certos de que existimos em circulação e de que somos atravessados por outras existências e outros territórios, iniciamos esta trajectória pelas Deslocações; virando-nos para a intimidade e para o que nos fortalece individual e colectivamente, os Espaços da Intimidade; da certeza de que caminhar para a frente é um diálogo permanente com os passados que, por mais escondidos que estivessem, sempre se revelam, afirmamos que Ficaram Tantas Histórias por Contar; sendo o aqui e agora matéria efémera, mapeamos Arquivos do Presente, não apenas dispondo o presente que hoje partilhamos, mas convivendo com outros presentes captados no passado; terminamos a viagem convocando vários filmes que nos confrontam com um irrevogável De onde venho, para onde vou. Propor, neste contexto, um festival alargado no tempo é também propor mais momentos de encontro.

Num movimento concêntrico entre as equipas dos filmes e o público, procuramos criar espaços de retorno e de revisitação da memória dos filmes que antecedem os que agora vemos. Fá-lo-emos indo além dos habituais espaços que ocupamos na cidade e deixando-nos permear por mais debates e mais narrativas. A SOS Racismo, num tremendo acto de solidariedade, em tempos em que forças trabalham para a normalização da violência, apresenta um programa aberto que exige a participação pública e no qual cinema e activismo vêm juntos ao diálogo. Antecipando outras formas de estar juntos, o Nebulae recorre este ano às tecnologias digitais para preservar as pontes que vinha a construir entre os filmes que apresentamos – ou que agora se desenvolvem e esperamos apresentar mais tarde – e os próximos caminhos que estes possam trilhar. Chamando novos participantes, concebemos o Nebulae como a matéria não palpável onde se propagarão formas futuras de estar efectivamente juntos – filmes, pessoas e ideias que voltarão para estar aqui connosco. Só que o tempo permite muito e, num ano em que vimos tantos dos nossos colegas abandonados por uma política cultural que se demite de identificar a precariedade dos indivíduos por detrás dos filmes que aqui se produzem, queremos que o Doclisboa seja também esse terreno de encontro de todos os profissionais – entre momentos formais e informais, o Doclisboa será um espaço aberto para planear o futuro.

Será uma viagem seguramente surpreendente e atravessada pelo inesperado. Queremos fazê-la acompanhados, pois é certo que aquilo que agora propomos é matéria permeável. A materialidade do Doclisboa dar-se-á a partir do que aqui está, mas concretizar-se-á em cada sessão e em cada encontro. Foi sempre a pensar no encontro que planeámos estes 6 meses.

Joana Sousa, Miguel Ribeiro

Direcção do Doclisboa

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