Disse o Corvo: “Nunca mais”.

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Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, vagos curiosos tomos de ciências ancestrais, eis que surge perante os meus olhos “O adeus d’O Corvo”, isto só e nada mais. Não vivíamos no frio de dezembro mas no calor de maio. A cidade de Lisboa perdia uma voz, a única que falava sobre Lisboa e para os lisboetas. O jornal on-line O Corvo chegava ao fim.

A sua vida começou seis anos antes, no frio de fevereiro. A crise do jornalismo dava os seus primeiros sinais e a imprensa generalista começava a apagar os seus cadernos locais. O nascimento surgia da mente de um Alemão, apenas teutónico no sobrenome: Samuel, um alfacinha de gema, com um passado na Capital e no Público, discípulo de mestres como José António Cerejo e Francisco Neves. Após seis anos como jornalista, quatro deles como freelancer na Grande Reportagem e na Notícias Sábado, Samuel escrevia para a Revista de Vinhos. Embora não negue que “as condições de trabalho eram boas”, a vida de publirepórter não satisfazia o Alemão. Não era aquilo “que queria fazer enquanto jornalista”.

Dos problemas surgem as oportunidades. Inspirado pelo seu passado como editor na Capital e no caderno local do Público, Samuel Alemão decidiu ressuscitar o jornalismo local na cidade das sete colinas. Não havia desculpas para se negar a essa demanda. “Basta sair à rua” para fazer jornalismo local, basta “ter vontade de fazer reportagem e ouvir as pessoas diretamente. É o mais fácil e o mais barato.” Embora admita que os lisboetas “nunca sentiram falta dos jornais locais” porque “num país macrocéfalo, os jornais generalistas incidem sobre a atividade da capital”, Samuel sabia que ainda havia muita informação a ser descoberta. Esses mesmos jornais generalistas “haviam aberto uma brecha informativa ao acabarem com os cadernos locais”, algo que este antigo repórter da Capital soube utilizar.

Tudo começou em 2013

Aproveitando a transformação que a presidência de António Costa criava na cidade e a atração que zonas renovadas como a Mouraria, o Intendente ou o Martim Moniz despertavam nos turistas, Samuel resolveu canalizar “o seu gosto pela vida da cidade” para a criação de um projeto de jornalismo urbano, com o auxílio de Francisco Neves e Fernanda Ribeiro, também sua antiga colega do Público. Farto de títulos como “o Correio de” ou o “Diário de”, o Alemão viu a resposta à sua procura na heráldica da cidade: o Corvo, uma imagem provocatória, “algo cartoonesca, mais fácil para criar empatia com os leitores”.

O seu primeiro voo deu-se a 1 de março de 2013, “sem saber onde ia parar”. O seu objetivo era “fazer um jornalismo independente e vivo, que tivesse as pessoas e as comunidades no seu centro”, as pessoas e a comunidade que “cada vez menos eram chamadas a pronunciar-se ou a intervir nos seus problemas”. Pretendia cobrir todos os temas, “desde o aumento das rendas aos novos locais de lazer ou às bandas de música”.

Egos custam mais que salários

As dificuldades existiram desde o início, sobretudo a nível financeiro. Tornar o jornal “sustentável sem prejudicar a sua independência” foi uma das suas preocupações primordiais. Eram vários aqueles que se propunham a investir no projeto, que pensavam “isto é uma boa aposta, isto vai dar dinheiro, isto tem pernas para andar”. Mas todos desistiam quando viam a falta de retorno monetário.

Mas os egos de alguns colaboradores eram um ativo ainda mais difícil de gerir do que as magras finanças. Os recursos escassos com os quais o Corvo começou levavam Samuel a não poder remunerar quem se disponibilizava a colaborar consigo. Embora não houvesse reclamações pela falta de salário, “era muito mais difícil eles aceitarem críticas quando não estavam a receber”, como se os artigos não tivessem de ser igualmente editados. A qualidade do jornal não poderia ser posta em causa pelos egos dos seus colaboradores. Samuel sabia que o Corvo perderia credibilidade se não houvesse exigência, por isso fez questão de “empregar um rigor constante, mesmo com os temas mais comuns”, seguindo “os padrões de qualidade que havia aprendido na Capital e no Público”.

O fotógrafo de Fernando Medina e a entrevista a Geco

Um dos exemplos de fidelidade do Corvo aos seus princípios remonta a janeiro de 2018. As tentativas de envolvimento pelas câmaras municipais não são uma novidade para o jornalismo local. Embora só tivesse cinco anos de existência, o Corvo não seria exceção. Enquanto parte do quatro poder “consistentemente vigilante dos atores públicos”, Samuel não hesitou em escrutinar a atividade da Câmara Municipal de Lisboa, que “demonstrava alguma hostilidade ao jornal, embora nunca os tentasse controlar expressamente”.

A contratação de Luís Filipe Catarino como fotógrafo do autarca tornou-se na notícia mais divulgada do jornal lisboeta, não fosse o valor expresso no contrato de 72 mil euros. Samuel lembra-se da “fúria de Câmara Municipal”, que não tardou a colocar um press realease a atacar o Corvo, “sem alguma vez conseguir desmentir aquele artigo”. Mas mesmo que quisessem silenciá-lo, isso já se tornara impossível: a imprensa generalista já havia “ido atrás” e espalhado a notícia. O contrato do fotógrafo mais bem pago do país já era de conhecimento público.

Apesar de tudo, Samuel olha com especial orgulho para a entrevista de Eva Massy ao graffiter italiano Geco. As tags e autocolantes que espalhara por Lisboa não haviam passado despercebidas. Como todos os jornalistas, os colaboradores do Corvo queriam saber o ponto de vista do grafitter, sem apoiar a sua atividade. Queriam saber o porquê dos seus atos, “mesmo indo contra aquilo que a sociedade via como correto”. As acusações de conivência com o vandalismo urbano não se fizeram esperar, mas o Alemão lembrou os seus críticos que “os jornalistas não têm de ser provedores dos cidadãos”, devendo antes dar voz a todos os lados, “sem tomar partido”.

O Adeus

Depois de seis de existência, “o Corvo tornou-se inviável”. Embora tivessem obtido algum financiamento entre 2017 e 2018 e conseguido remunerar o trabalho de Samuel e de Sofia Cristino, “o jornal nunca tivera possibilidade de contratar pessoas”. No final, este par tornara-se no seu único suporte. Haviam aguentado seis anos, “seis anos de cansaço acumulado”, tendo passado os primeiros quatro a “trabalhar de borla”, sustentados apenas “pela paixão, pelas poupanças pessoais” e por trabalhos que Samuel fazia como freelancer para outras publicações. Depois de tanta pressão, a corda partiu. A 29 de maio de 2019, o Corvo disse o seu adeus. Chegou a hora de Samuel Alemão descansar e talvez pensar noutras aventuras.

Será que algum dia voltaremos a ouvir a voz do Corvo? Será que Samuel ressuscitará o jornal? Acontecerá isso pela mão de outros? Ou será que tal como o Corvo de Poe e Pessoa, este Corvo se limitará a dizer “nunca mais”? Só o tempo o dirá.

 

Por Pedro Martins

Fotografia: Paula Ferreira

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