Desde sempre e para sempre – Port Barton

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Tudo começa num café no centro de Palawan, nas Filipinas. Estamos em Port Barton. O sol está no seu pico e procuramos uma sombra para nos abrigar. Estamos sentados no chão, as pernas cruzadas entre si. Um livro é a nossa única companhia. Levantamos o olhar para pedir uma dose extra de café com gelo e aproveitamos para descansar a vista cansada das páginas entretanto percorridas. Percebemos que não estamos sozinhos. Na mesa do lado, apenas acompanhada pelo telemóvel, está uma outra pessoa. Também ela levantou a cabeça para pedir algo. Apenas por mera coincidência, espacial e temporal, os nossos olhares se cruzaram. Um sorriso tímido e involuntário surge em ambas as caras em simultâneo.

Como se de conhecidos de longa data que há muito não se viam nos tratássemos, inicia-se uma viva conversa sobre o que ambos estamos aqui a fazer. De onde viemos, com quem estamos, de onde somos, o que vimos, como aqui chegamos, com quem nos cruzamos, há quando tempo viajamos, por onde já passamos, o que vivemos, quais os nossos planos. Damos por nós em pleno jogo de ténis no court central de Roland Garros, no qual ninguém aparenta querer ganhar qualquer ponto. Apenas existe uma vontade surpreendente de perpetuar a troca da bola de um lado para o outro sem que alguém faça questão de interromper a sequência. Depois de inúmeras trocas – de bola ou informação -, de vermos o tempo passar sem que tenhamos dado por ela e só depois de termos já percorrido o historial clínico de toda a família do nosso par – só mesmo nesse momento! -, percebemos que não sabemos sequer o nome um do outro. O que interessa saber o nome de alguém quando já a conhecemos melhor que a palma da nossa mão?

Os dias que se seguirão serão vividos na companhia um do outro. Com a dose de normalidade possível perante a repentina familiaridade que se estabeleceu entre duas pessoas acabadas de se conhecer, eis que se iniciam os planos conjuntos. ‘Onde vais jantar?’, pergunta-se, seguindo-se tal questão de uma outra que justificava que a primeira nem sequer tivesse que ter sido colocada, desde logo porque nem tempo foi dado para uma resposta: ‘Ouvi falar bem de um lugar aqui perto, que dizes?’. Desde que os olhares se cruzaram naquele primeiro momento ambos sabíamos que a resposta a esta pergunta seria afirmativa.

Mas não será apenas um jantar. Será a refeição e o passeio noturno para fazer a digestão que se lhe seguirá. E nem a noite ditará o afastamento, já que o dia seguinte está também ele reservado para planos a dois. Como se de uma inevitabilidade se tratasse, para o dia que se segue fica logo combinado um encontro depois do café da manhã para descobrir em conjunto o caminho para aquela praia de que um de nós ouviu falar na receção da guesthouse. ‘Levamos algo para comer ou compramos lá qualquer coisa?’. A decisão de um é a decisão de outro, a individualidade há muito está desaparecida, apenas existindo uma amizade que dita que tais coisas devem ser combinadas e coordenadas de antemão. ‘Levo fruta para os dois e se tivermos fome compramos algo mais por lá’.

A ida à praia marca apenas um novo início. Almoços e jantares, idas a cascatas e subidas a montanhas, alugueres de motas e deslocações a templos, copos no bar da aldeia e viagens de barco para as ilhas mais próximas. Os dias que se seguem marcam o florescer de uma amizade que aparenta durar desde sempre e para sempre. O conforto partilhado entre ambos é tal que tanto é encontrado na euforia de novas experiências como no silêncio dos momentos de descanso. Como é possível sentirmo-nos assim com alguém que conhecemos há dois ou três dias? Não interessa. Há é que aproveitar o quão fácil tudo é neste empreendimento conjunto.

Mas eis que chega o fatídico momento em que cada um seguirá o seu caminho. Um continuará a sua viagem rumo ao sul, enquanto o outro por cá ficará mais um dia antes de rumar ao norte. Aquilo que o destino quis juntar terá agora forçosamente de ser separado. Promessas são feitas para visitas no final da viagem. ‘Sempre que quiseres visitar o Porto tens lá um quarto com o teu nome’, ouve-se. ‘Talvez ainda nos voltemos a cruzar durante os meses de viagem que faltam’, devolve expectante o outro.

Será que tudo isso chegará mesmo a acontecer? Não sabemos. Mas sabemos uma coisa. O encontro que nos colocou em rota de colisão um com o outro não foi um mero acaso. Tal encontro foi, isso sim, obra do destino. Mas não de um destino qualquer. É um destino que existe para nos recordar da facilidade com que se pode fazer um amigo, onde quer que estejamos. E isso vale mais que voltarmos a ver-nos onde quer que seja.

Por João Barros

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