Descomunicação

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A descomunicar nos desentendemos.

A palavra não existe.

“Descomunicar”. “Descomunicação”. Os dicionários não contemplam tais expressões. Não fazem parte da língua portuguesa.

Mas será que ainda existe efectiva comunicação?

Todos, cada vez mais, dizemos “coisas”. Com os telemóveis, além de dizermos coisas, podemos fazê-lo a qualquer hora, em qualquer lugar. O Homem moderno está disponível 24 horas sobre 24 horas para comunicar. Sempre ligado.

Além desse factor de disponibilidade propiciado pelas “novas” tecnologias, temos ainda o desenvolvimento de plataformas de comunicação como nunca houve. Quase perfeitas, constituem também a tribuna ideal para proclamações urbi et orbi, à cidade e ao Universo, com um poder de viralização que nos pode levar num ápice de Castro Laboreiro (uma das aldeias mais remotas de Portugal, que é aqui utilizada apenas como imagem, como exemplo) para todo o globo.

A juntar a tudo isto, temos a parafernália dos meios de comunicação social e a vertigem em que as notícias e os jornalistas hoje vivem. Rádios, televisões, online, mesmo os meios mais tradicionais, em papel, deixam-se enredar num frenesim que não é compatível com o tempo necessário ao pensamento e à reflexão. Tem de ser tudo imediato, instantâneo, como no twitter ou no Instagram. Não há tempo a perder.

Estamos submersos em excesso de informação, em excesso de palavras, de imagens, de sons.

Tudo procura apelar à nossa reacção.

No entanto, nada parece escutar-nos.

Está tudo tão preocupado e ocupado em produzir e divulgar o seu próprio genial contributo, em transmitir a sua própria e deslumbrante persona, que poucos conseguem, verdadeiramente, ouvir o outro.

E, sem ouvir o outro, não há comunicação.

Há, isso sim, essa outra coisa, a que aqui chamo “descomunicação”, sem qualquer pretensão de originalidade, mas também sem consciência de plágio deliberado seja de quem for.

Descomunicar é, paradoxalmente, a actividade vulgarizada por aquilo que poderia ser a sociedade da comunicação por excelência.

Nunca houve tanta disponibilidade para comunicar.

Nunca houve plataformas de comunicação com a capacidade e o alcance que as redes sociais hoje detêm.

Nunca houve tanta gente a querer dizer coisas.

A questão é que, no meio de tanto ruído, já ninguém ouve. Já ninguém quer saber.

Especializámo-nos em descomunicar e por isso cada vez entendemos menos.

Menos dos outros, menos do mundo, menos de nós próprios.

 

Por André Serpa Soares

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