Cultura, o embalar da esperança?

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“Que vivas em tempos interessantes.” (Frase tradicionalmente atribuída a uma maldição chinesa.)

Com a crise da pandemia do novo Coronavírus, o mundo enfrenta uma ameaça de tonalidades apocalípticas. Destruidora, avassaladora e mortífera, por um lado; renovadora, corretiva e benigna, por outro. É este double bind que torna também estes tempos “interessantes”. É nos momentos críticos – nas encruzilhadas – que se clarificam e tomam opções. Opções sobre quem queremos ser e onde queremos estar.

Este texto nasce da convicção de que a Cultura tem de ser, nesta crise e no seu êxodo, uma opção. Resulta, ainda, de uma aversão epidérmica ao larvar de um perigoso discurso populista contra as artes e as suas manifestações, recorrente em tempos de crise ensombrados pelos fantasmas do desemprego, da pobreza e dos défices orçamentais, até onde menos o esperávamos – nas conversas reservadas de gente “instruída” e “sensível”, e nos não-ditos de responsáveis públicos e corporativos.

Dois princípios devem ser postos de parte se quisermos fazer um debate sério e desassombrado sobre o papel e o “regresso” da Cultura.

O primeiro, de ordem populista, é de que não pode haver Cultura (ou uma prioridade para o setor) enquanto houver um pobre no mundo. O mesmo será dizer: enquanto houver défices orçamentais públicos. (Até Cristo haveria de repreender os seus discípulos a pretexto desse velho argumento, com a radical afirmação de que “os pobres sempre os tereis convosco”.) Sem pôr em causa a primazia da Saúde, a Cultura é um bem essencial ao lado de outros.

O segundo princípio a recusar – porque igualmente perigoso e totalitário – tem na fórmula latina “fiat ars et pereat mundus” [“que a arte permaneça, ainda que mundo pereça”] a sua mais eloquente expressão.

Claro está que o setor justifica um olhar específico, dedicado e justo do Governo e dos poderes públicos, dos municípios e dos mecenas (que tanto têm faltado fora de Lisboa e do Porto, das grandes “fundações” e das “grandes salas”), mas não pode ser objeto de um paternalismo que transforme os seus profissionais numa “casta de protegidos” ou os domestique num “grupo de coitadinhos”, dependentes não do seu trabalho independente (de criação, produção, difusão ou apresentação), mas de uma misericórdia ilegítima que, ainda por cima, os coloque aos olhos dos seus concidadãos como beneficiários de um privilégio.

Mais do que uma espécie de “rendimento mínimo”, o que o setor e os seus atores esperam e acalentam é de oportunidades de trabalho e compromissos claros (ou os mais claros que sejam possíveis.). A incerteza morna e a indefinição de cenários que, em Portugal, deixam em suspenso – sob o abismo – dezenas de festivais de verão e milhares de atores culturais pode ser taticamente compreensível num gabinete de Governo, mas politicamente mortífero. Não apenas para a “classe”, mas para os próprios promotores, instituições e agências. Os seus impactos negativos serão – mais fruto da incerteza do que da própria realidade – bem mais duradouros que a doença do vírus. A impreparação e o vazio de pensamento são fraquezas que se pagam caro. Algum planeamento e previsibilidade tornam-se indispensáveis.

Por outro lado, ignoraram-se as oportunidades de transformação e inovação do setor neste período de “pousio”. Sobretudo, na área da digitalização, onde o setor revela ainda debilidades e falta de investimento – da criação à difusão. Em vez de “reagendar” e “adiar” todos os investimentos, parte dos financiamentos públicos comprometidos poderiam orientar-se para o incremento das competências e recursos no território digital.

Em Viseu, demos um passo justamente nesse sentido, ao permitir que promotores de projetos culturais independentes, afetados pela crise da pandemia, possam converter 25 por cento do financiamento anual aprovado no programa municipal VISEU CULTURA em “conteúdos digitais” profissionais. À pequena escala local – e olhando apenas a valores para 2020 – poderemos estar a falar de um investimento de 200 mil euros (num total de 800 mil euros).

Muito para além da sua dimensão económica e social (o setor empregará em Portugal mais de 30 mil pessoas e representará anualmente um valor de negócios superior a 1100 milhões de euros, com “externalidades” estruturantes no turismo), a Cultura é um bem essencial à dignidade humana, à qualidade vida, à educação e à democracia. E é, por essa razão, que em “tempos interessantes” o devemos reafirmar, não apenas por oposição ao veneno dos demagogos, mas também ao discurso de areias movediças que o protela (e afunda) para um “momento oportuno” ou o precipita para um modelo de “ideias giras” (à la “TV Fest”).

Se como Alves Redol escreveu “talvez o embalar da esperança valha mais do que o desespero da realidade desesperada”, então precisamos hoje, mais do que nunca, de uma Cultura esperançada, e que se coloque do lado da esperança.

Por: Jorge Sobrado

Vereador da Cultura do Município de Viseu

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