Crónica gastronómica – Voltamos onde já fomos felizes

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Dizem os entendidos da vida, que não se deve voltar onde fomos felizes. Pois eu volto, sobretudo se o lugar for um restaurante…se calhar estou a abusar da minha sorte! Mas a verdade é que não há nada, nem mesmo sexo do bom, que me faça despertar tão violentamente os 5 sentidos como uma boa refeição, num bom restaurante, e em boa companhia. Não tem que ser estrelado por Michelin, mas tem que ser bom! Tão bom que quando estou a tentar adormecer ainda esteja inebriada pelo odor, pela cor, pelo ruído ou pela ausência dele, pelo toque do guardanapo e a minha boca ainda esteja confusa com aquela explosão de sabores e ingredientes.

E há tantos que se encaixam nesta categoria! Há sítios em que nos perdemos na decoração tão genial, que quase nos esquecemos de saborear a comida, como o Jncquoi Ásia, o Asiático, o Seen…

Depois há aqueles, em que não queremos nunca que a refeição acabe e que fazemos figas para que o nosso estômago se esqueça da sua real capacidade, como a Noélia Jerónimo em Cabanas de Tavira ou a Casa Alentejo…

Uns são fantásticos no seu todo, como a Ce- vicheria, onde me esqueço de comer porque quando me dou conta estou a conversar com uns americanos na mesa da direita e uns japoneses na mesa da esquerda, e de repente apetece-me pedir tudo outra vez, saborear e não falar com ninguém.

Só posso ser feliz com o meu filho, no que há comida diz respeito, onde se coma carne, muita carne, como no Atalho Real ou no Meat Me. O nosso spot de mother and son é o Café de São Bento, onde jantamos na última noite quando cortámos o cordão umbilical, antes de o largar na faculdade. Foi um jantar amargo, mas esplêndido.

A minha companhia mais assídua neste colecionar de lugares onde se come é a Teresa, uma amiga de sempre e para sempre, que se disponibiliza para calcorrear Lisboa acima e abaixo aquelas colinas e ladeiras que nos levam a sítios inusitados: o Almeida a caminho do Castelo, Mouraria acima, que cedo zarpou das beiras para se estabelecer em Lis- boa e se dedica de corpo e alma ao seu estaminé e à sua clientela habitual; ou à estrela da Bica que nos cativa com o seu ambiente esotérico e os seus petiscos únicos, quase sinto a gordura da sardinha a escorrer pelas minhas mãos. Mas também paramos pelo Campo das Cebolas a saborear um Gin, enquanto esperamos por uma mesa na Taberna Moderna, e vale a pena esperar. Mas onde eu e a Teresa fomos tantas vezes felizes, foi no Segundo Muelle, não sei se pelos Piscos, se pelos Piscos e pela comida.

As Conversas entrecortadas por altas e sonoras gargalhadas e que ninguém leva a mal, é no Boteco da Linha, no Paco Bigotes, na Casanostra (há 32 anos no Bairro Alto) e no Salmoura!

Namorar como na Brasserie de L’Entrecôte, no Rabo D ́Pêxe, no Tomo, na Mercearia do Gadanha, em Estremoz, e deixarmo-nos levar até ao Azenhas do Mar, não há arrufo que resista!

Também fui feliz sozinha na Dinastia Tang, como se estivesse prestes a ser raptada pela máfia chinesa que comia na mesa ao lado, ou pizzaria Zero Zero, acompanhada apenas pelo Jardim Botânico.

Uma experiência para os sentidos o RUA, mas sem ouvir o rosnar do meu filho de que não há carne!

A qualquer dia, mas não a qualquer hora, o Atira-te ao Rio, pela comida, pelo por-do-sol, pelo passado, pela podridão do caminho de acesso….

A alegria e o êxtase da minha filha quando a levo a jantar ao Nomya, onde tudo bate certo. A luz, a comida, a simpatia dos donos e por fim o cheesecake de lima, no Inprovviso.

O Mesa de Lemos, antes de ser “o” Mesa de Lemos e já se podia antever o futuro brilhante que o aguardava. A coisa mais parecida com a perfeição divina!

Não posso deixar de fora o Boca Negra e o Beira Mar (mesmo à beira-mar plantado) na Terceira.

A Risottoria Del Mondo, com o Atlântico ao lado, a embalar-nos ao som das ondas que batem nas rochas! Mas nem sempre precisamos de estar debaixo de um tecto para que a refeição seja boa, um bolo do caco a acompanhar uma espetada, num arraial madeirense com o céu estrelado a servir de testemunha deste deleite para o nosso palato, também serve.

No Evaristo sentimo-nos como gente grande, e somos principescamente bem tratados.

No Porto comi e deixei-me encantar pela decoração da Cantina 32. Serei eternamente repetente na Casa da Palmeira, enquanto lá me quiserem. Esperar por mesa sentada do outro lado da rua, a beber um vinho e a ver os pescadores do Douro a recolherem as redes, faz com que não se dê pelo passar do tempo. E almoçar na esplanada, enquanto o eléctrico quase nos roça as costas cada vez que passa no Passeio dos Alegres. E depois rir e sonhar com a tia Moniche!

Comer canja de amêijoas, no Olival, na de Póvoa de Sobrinhos é uma experiência inolvidável. Mas nem pensar em comer a dita canja em Setembro, porque a Festa do Avante toma conta da vida do dono do restaurante, que fecha.

Mas não faz mal, podemos aproveitar para experienciar uma refeição no saudoso bairro de Alvalade, no Soão, que nos transporta a um filme americano, do tempo da guerra do Vietname, num deleite de casa de ópio, mas sem a decadência que essas casas tinham intrínsecas.

Não seria justo partilhar as minhas experiências gastronómicas sem mencionar o melhor restaurante do mundo: o da Avó Gracinda, onde se comia um cozido à portuguesa, uma cachupa, uma língua estufada e um pudim de peixe, de chorar por mais. A avó partiu, mas eu ainda consigo sentir o cheiro e o sabor dos seus cozinhados, que sempre me aquecem o coração.

 

Por Alexandra Viçoso

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