Coura sem Paredes

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Uma vila aberta ao Mundo

São onze horas de uma manhã solarenga de Verão, quando chegamos aos Paços do Concelho da Vila de Paredes de Coura. Por todo o lado, reminiscências de dias de festival. Ruas, cafés, restaurantes, praças e, claro, o rio, serpenteando por entre o arvoredo, guardião permanente do anfiteatro verde onde, há 26 ininterruptos anos, uma imensa minoria se aglomera para ouvir, ver e sentir, a sua música.

Vítor Paulo Pereira, actual Presidente da Câmara da pequena vila do Alto Minho, foi um dos jovens fundadores do Vodafone Paredes de Coura, e é por ele que aguardamos, numa sala de espera, virada à Igreja Paroquial de Santa Maria, que aos poucos se vai enchendo de munícipes. Quando assoma à porta do seu gabinete, sorriso rasgado, todos os presentes se levantam e o cumprimentam “Bom dia Vítor Paulo.” “Ui, tanta gente à minha espera”, dispara num sotaque acentuadamente minhoto. “Já vos ofereceram um cafezinho?”, questiona, enquanto distribui beijinhos e apertos de mão. “Deixem-me só ir lavar as mãos. Tive uma avaria no carro e estive a fazer de mecânico.” Os munícipes riem-se e Vítor Paulo aproveita para nos fazer sinal para o acompanharmos.

“Então querem falar do festival?”, diz, mal nos sentámos, com uma afabilidade arrebatadora. “Vou só lavar as mãos e buscar umas águas, e já começamos.”

O mote estava dado para uma conversa quase em sentido único – o das histórias que fizeram do Vodafone Paredes de Coura o mais mítico dos festivais nacionais. E se alguém as sabe contar, é o nosso anfitrião.

Como é que o Presidente da Câmara de Paredes de Coura definiria o impacto que o festival, que ajudou a fundar, tem no município que lidera?

 O Vodafone Paredes de Coura veio contrariar aquele discurso reivindicativo da geografia. Não estou a dizer que esse discurso, muitas vezes, não seja justo e pertinente, mas o festival veio mostrar que aquilo que pode acontecer de bom numa terra, não tem necessariamente a ver com a geografia ou com a proximidade ao centro, neste caso, Porto e Lisboa. Está mais relacionado com as pessoas. Veio contrariar esse discurso determinista da geografia, que associa a interioridade ao subdesenvolvimento, e veio mostrar que um evento cultural é tão importante como qualquer outra empresa. Para mim, o festival de Paredes de Coura é uma empresa, é uma indústria, só que não tem paredes nem telhado. É uma indústria que gera dinamismo económico, que gera retorno económico, e que traz riqueza para a terra. É uma indústria como a Akwel, a Doureca ou a Fly London, mas, enquanto essas indústrias criam postos de trabalho, o festival, que também cria dinamismo económico, traz um chapéu de modernidade, de espírito positivo e de optimismo que, depois, contagia os outros sectores de actividade. Gera um espírito contagiante de optimismo, de futuro, de crença na possibilidade de fazer coisas extraordinárias nas terras mais afastadas de Lisboa, ou nas terras mais inesperadas, que acaba por se alargar aos outros sectores de actividade.

Quando os festivaleiros chegavam a Paredes de Coura, achavam que a vila era o festival. E, depois, durante o ano, o vento sentia-se no meio das ruas (risos), vivia-se a melancolia das folhas de outono a cair nas pedras. Porventura, teríamos um prato gastronómico típico, que atraía um ou outro turista, ao fim-de-semana, que aproveitaria para visitar o local do festival sem pessoas, revivendo, com nostalgia, os bons momentos do Verão. Paredes de Coura não é isso. Também é indústria, também é actividade cultural. Há, aqui, uma cadeia de modernidade, que tentámos transmitir no site Coura sem Paredes, que mostra que, de facto, sendo o festival o coração que bombeia sangue para todo lado, depois, há outra realidade.

Agora, como é que as coisas surgiram? Ao contrário do que as pessoas pensam e do que acontece habitualmente com a generalidade dos projectos industriais ou projectos económico-financeiros, que nascem de uma forma muito pensada, estruturada, eu diria de uma forma muito rígida…

 

…com um plano de negócios.

 

Aqui, não houve plano (risos). Pelo contrário. Por isso é que o festival obteve tanto sucesso. Porque é que não havia plano de negócios? Porque nós, nas primeiras edições, e, quando digo primeiras edições, digo para aí até à 13ª, 14ª, misturávamos a emoção com o negócio. Acontecia, muitas vezes, termos o festival completamente equilibrado, e, para aí a um mês do início, aparecia uma banda de que gostávamos muito, e que, naquela altura, custava 200 mil euros, e contratávamos. E isso, muitas vezes, implicava um fracasso financeiro. Enquanto para o público em geral, para a imprensa e para os meios de comunicação, era o melhor festival de sempre, para organização, do ponto de vista financeiro, era um flop.

Dê-nos um exemplo.

 Em 2005, que foi um ano maravilhoso para o festival, quando o cartaz já estava mais que fechado, completamente equilibrado, com os headliners definidos, contratámos bandas, bandas e bandas em cima de bandas, porque queríamos que fosse extraordinário, pois o ano anterior tinha sido traumatizante por causa da chuva. O festival não deu prejuízo, mas correram-se riscos completamente desnecessários. Basta ver os cabeças de cartaz, Arcade Fire, Nick Cave, Pixies, Queens of the Stone Age, The National, para perceber que era um cartaz de luxo. No entanto, apesar do retorno económico ter sido positivo, foi completamente irrelevante. Quase que não dava para pagar as contas do telefone (risos). A posteriori, se fizermos uma análise, num festival em que se investem, imaginem, três milhões, obter um retorno de sete mil euros é uma loucura. Não faz sentido. No entanto, foi esta mistura de emoção com negócio que levou à afirmação do festival. Porque acho que se não houvesse essa loucura, essa coragem, essa emotividade, naturalmente o festival não teria crescido até à dimensão que tem hoje.

Outra coisa determinante para a afirmação do festival foram as pessoas que o iniciaram. Não eram pessoas com um perfil habitual, conservador, de fato e gravata, pelo contrário, era malta com muito sentido de humor e, muitas vezes, ingénua, e isso ajudou ao reconhecimento da genuinidade do festival. Para perceberem melhor, tivemos sérias dificuldades em deixarmos de ser nós a transportar as bandas, deixarmos de ser nós a alojar as pessoas nos hotéis, porque queríamos fazer tudo, até ajudar na produção. Até ao sexto festival ainda éramos nós que ajudávamos a montar o palco. Só a partir de certa altura, em que surgiu a necessidade de mais rigor, de mais organização, é que algumas pessoas de Paredes de Coura e outros amigos nossos do Porto e de Braga começaram a participar na estrutura. Mas, ainda hoje, a estrutura é constituída por pessoas que trabalham desde as primeiras edições. Dou-vos o exemplo mais flagrante do José Orlando, que está a trabalhar connosco desde tempos imemoriais, e que, agora, gere uma parte importante do festival. Mas quando falo no José Orlando, podia falar de outros que acabaram por fazer parte da estrutura a tempo inteiro. Também, nesse sentido, o festival foi muito importante, porque deu conhecimentos às pessoas, que se reflectem nas actividades que desenvolvem no dia-a-dia. Por exemplo, na Câmara, estamos muito mais à vontade para organizar eventos, porque temos muitos courenses que colaboram no festival, e estão habituados a lidar com artistas, com marcações de hotéis, com a produção. Por isso, o festival, além de eu dizer que é uma empresa, é também uma escola de aprendizagem. E isso é muito importante, porque acaba, de forma simples e silenciosa, por trazer uma nova dinâmica ao território.

 

Como é que quatro “miúdos”, o Vítor, o João Carvalho, o José Barreiro e o Filipe Lopes, conseguiram convencer o Presidente da Câmara da altura a fazer um festival de rock? E como foi a aceitação por parte das pessoas da vila?

 Antes de falar na aceitação, deixem-me fazer dois sublinhados ao que já disse, para que as pessoas percebam. Em primeiro lugar, o festival cresce, numa primeira fase, misturando emoção com negócio, o que parece não ser mau, até porque já há coaches que ensinam isso mesmo (risos). Em segundo lugar, foi feito com muita ingenuidade. Nem vos conto as histórias de ingenuidade e infantilidade, que são maravilhosas.

Essas é que queremos ouvir (risos).

 Por exemplo, fomos alojar os Tindersticks numa casa de turismo de habitação, que era um Paço Senhorial, e faltava um quarto para uma pessoa que os acompanhava. Enquanto eles estavam a comer, eu e o Filipe tentámos passar com um colchão, por detrás da mesa, sem sermos apanhados, mas o tour manager olhou para trás, viu-nos, e diz ao Stuart Ashton Staples: “Vai ali a tua cama” (risos). Coisas que, hoje, não faríamos. Outro exemplo: no início, éramos nós que íamos levar e buscar as bandas ao recinto, mas, às vezes, o cansaço era tanto que nos esquecíamos de ir buscá-las, e, algumas delas, ficaram lá até de manhã, à espera da carrinha. Há histórias do arco-da-velha (risos).

Então, o festival cresce com emoção, com conhecimento, obviamente, mas também com muita ingenuidade, às vezes, com algumas infantilidades, com aquilo que é característico da natureza humana e a que eu gosto de chamar o toucinho, porque as pessoas boas também têm de ter um bocadinho de toucinho, que é aquele lado do erro, da imperfeição, o lado da gordura que dá mais sabor ao resto da peça da carne (risos).

Mas, regressando à pergunta sobre a aceitação das pessoas, convém recordar que Paredes de Coura já tinha tido dois festivais de rock na década de 70, em 76 e 78, no campo do Sporting Clube Courense, com as melhores bandas nacionais da altura: os Very Nice, os Arte & Ofício, os Tarântula, e muitos outros. Eu lembro-me de estar na festa da Senhora da Pena, com o meu pai, e sentir-se, lá em baixo, a rockalhada a roncar, como diziam os velhos. Até aconteceu um episódio engraçado: um velho castiço, que era emigrante na Alemanha, para gozar, veio ter connosco com um bocadinho de musgo na mão, e diz ao meu pai: “Eugénio, tenho aqui liamba. Queres ir comigo lá abaixo ao festival rock?” (risos).

Por isso, essas duas primeiras edições foram muito importantes, porque abriram portas. O antigo Presidente da Câmara, que se chamava António Pereira Júnior, tinha participado nesses dois festivais, e, quando fomos ter com ele a dizer que queríamos fazer um festival na praia fluvial, penso que, se ele não tivesse tido aquela experiência dos dois antigos festivais, tinha-nos mandado dar uma volta. Mas apoiou. O palco foi montado pelos carpinteiros da Câmara, e deu-nos, na altura, cento e oitenta contos. Com essa ajuda, o primeiro festival fez-se. Aquilo parecia um arraial da Senhora da Pena, porque havia muita malta nova, mas também muitos velhinhos que levavam aquelas cadeiras de praia para se sentarem (risos). A verdade é que teve muita gente. Aí pensámos: se teve tanta gente, porque não fazer a segunda edição? E até ao quarto ano foi simples. Era só trazer as melhores bandas independentes portuguesas, que estava garantido. Quando se colocou o problema da internacionalização, houve muita malta que disse que isso era enveredar pelos festivais capitalistas, que o nosso festival não era capitalista, que isso ia obrigar a trazer marcas, sponsors, que iriam querer mandar no festival, e para aí metade da malta foi embora. O nosso idealismo era tão bacoco que eu vou contar uma história que, para mim, é paradigmática da nossa infantilidade e, agora acrescento, da nossa burrice (risos).

O José, o Filipe e o João foram a Lisboa negociar com uma cervejeira, e, pela primeira vez, tivemos um patrocínio decente. Não sei se foi para aí 15 mil euros, porque no início davam para oitenta barris de cerveja, e está caladinho (risos).

E ainda tinham de comprar os copos (risos).

 Pois tínhamos (risos). E o que foi engraçado foi que eles foram lá negociar, e eu não fui, por um motivo qualquer. Então, quando chegaram, vinham todos contentes. Eu estava ansioso por ver a proposta de cartaz, para ver se era bonito e por acaso foi dos cartazes mais bonitos de todos, um girassol que é uma coluna de som – mas eu só me fixei no logótipo da marca de cerveja, e disse-lhes: “Não pode ser. O logótipo da marca de cerveja está enorme. Temos de diminuir, senão as pessoas vão pensar que o festival é comercial. Já viram este símbolo? É o símbolo do capitalismo.” E eles: “Hello!!!! Eles estão a pagar isto, pela primeira vez.” E eu continuava: “Se for preciso devolvemos o patrocínio. Senão vou-me embora.” Estivemos para aí quatro horas a discutir, porque eu queria reduzir o logótipo da marca que estava a pagar o festival ao tamanho de uma caganita de mosca (risos). Não pode ser. Quatro horas a falar da penetração do espírito capitalista no festival? Quatro horas a ponderar se me ia embora por causa do maior patrocínio de sempre? Uma loucura.

Como foi a aceitação da população?

 Eu diria que, no início, foi um processo de aculturação. Havia pessoas, até de mais idade, com mente aberta, que eram capazes de dizer: “Têm cabelo grande, e têm brinquinho, mas um deles disse-me que era médico”.  Outros diziam: “Eles vestem de forma estranha, mas têm cursos bons”. Mas também havia outros que diziam: “Cuidado que vem de Lisboa um autocarro de skinheads para bater nas pessoas, e vão partir isto tudo” (risos). Havia de tudo, e histórias maravilhosas. Eu, na altura, organizava o festival de jazz, e um senhor, ali da zona de Formariz, aparecia todos os dias no recinto, ou com uma enxada às costas, ou com uma picareta, ou com outra alfaia agrícola. Houve uma vez que me apareceu lá com uma foice, e eu pensei: “Este gajo bebe uns copos e ainda corta aqui a cabeça a alguém.” E fui perguntar a um amigo meu, que o conhecia, porque é que aparecia sempre ali com uma alfaia agrícola, e ele explicou-me: “É que a mulher não o deixa vir ao festival. Então, ele diz que vai trabalhar para o campo, agarra numa alfaia agrícola e vem ouvir o jazz na relva” (risos). Estás a imaginar o Carlos Bica a tocar, com um gajo com uma foice, à frente?  Havia coisas muito insólitas. Mas isto faz tudo parte desse processo de aculturação, desse processo de socialização e, até, de um processo de conhecimento mútuo. Para essa aproximação entre a população e os festivaleiros, também contribuiu muito o enorme respeito que existia de parte a parte e da parte da organização para com todos. Por exemplo, se sobravam barris de cerveja, mandávamos abrir no final do festival os bares até esgotarem. Havia autênticas festas no fim do festival (risos). Por outro lado, o facto do festival acontecer muito próximo da vila facilitou esse processo de socialização.

Um amigo meu, que me deixou eterna saudade, que era lá da minha aldeia, gostava de ir ver os grupos. Só que ficava um bocado receoso para se chegar à frente, e, por isso, ia comigo. Estava sempre a fazer-me perguntas, porque, para uma pessoa que vivia na aldeia, aquilo era uma coisa do outro mundo. Estava sempre a dizer: “Isto é muito grande! Tem mais gente que a festa da Nossa Senhora do Livramento”, que era uma festa popular que acontecia perto do festival. E estava sempre a fazer-me perguntas, muito curioso, sobre quanto custava o palco, quanto custavam as bandas. Ele não dizia as bandas, dizia os conjuntos. E, como estava sempre a insistir, eu respondi que dependia, uns custavam 100 mil euros, outros 200 mil euros, e alguns até ultrapassam os 500 mil euros. Então, ele olha para mim e diz assim: “Opá, eles ganham tanto dinheiro, ao menos podiam tocar de fatinho” (risos). Era tão meu amigo… já morreu. Mas tenho outras histórias. Por exemplo: ele andava sempre comigo, porque se sentia mais protegido, mas, às vezes, eu também queria alguma liberdade, e deixava-o no palco secundário, onde já tocavam bandas estrangeiras. Depois de duas horas, ia ter com ele, e encontrava-o a falar com ingleses, quando ele não falava uma palavra de inglês (risos). Em amena cavaqueira com o inglês (risos). A primeira vez que fui levá-lo a casa, quando se estava a despedir, disse: “Gostei muito, para o ano quero ir outra vez”. Muito bonito.

O festival tem destas coisas engraçadas e cria proximidade com as pessoas. Esta ideia, que partiu da organização, de colocar o bilhete com 50% de desconto para os residentes de Paredes de Coura foi uma óptima ideia, e cada funcionário da Câmara tem direito a um bilhete. Isso demonstra uma preocupação com a comunidade.

Isso também só foi possível porque os fundadores do festival eram courenses.

 Sim, essa ligação foi importantíssima. Mas esta preocupação com a comunidade também permite exigir algum grau de profissionalização, porque isto, no início, era um filme.  Os bares, cafés e restaurantes deixavam acabar o stock. Chegava-se a sábado à tarde, e já não havia cerveja. Era uma confusão. Agora já se abastecem. Isto contado, ninguém acredita, porque a malta pensa que nós éramos todos formados em gestão de empresas, mas éramos formados em gestão de emoções ou em gestão de bondade. Quando nos convidam para tentar explicar como é que o Festival Paredes de Coura cresce, a maior parte das pessoas está à espera de explicações profundas, rebuscadas, com actos de administração. Nada disso, aquilo é humanidade pura.

As escolhas das bandas eram feitas pelos quatro?

 Sim. E vamos ser verdadeiros. Houve uma altura, eu diria até 2002, em que, apesar de edições que considero de grande critério, de grande rigor, houve outras menos conseguidas. Havia um mecanismo de compensação. Se apostávamos num cartaz muito bom, independente, e perdíamos dinheiro, na edição seguinte tínhamos de ser mais comerciais, para compensar o que gerou algumas escolhas censuráveis.

Um exemplo.

 Sei lá, Papa Roach. Os putos gostavam de metal, mas nós não gostávamos. Aquilo, para nós, era como comer uma posta que era aparentemente muito saborosa, mas depois metias o garfo e era dura. A partir de, sobretudo 2003, o festival começou a ter um editorial. As escolhas eram feitas por nós, embora dependessem da disponibilidade das bandas e das tournées. Mas assumimos que, a partir daí, ia ser um festival de música indie. Inicialmente perdemos alguns espectadores, sobretudo os miúdos que gostavam do metal, mas ganhámos respeitabilidade. Nasceu o Couraíso. Coura passou a ser um lugar para se ouvir música, o lugar para apresentar bandas novas, o lugar onde, às vezes, se ouvia música mais difícil. O que é que isto permitiu? Que passássemos a estar menos expostos às variações de cartaz, porque as pessoas já olhavam para o Festival de Coura como um evento cultural, como algo que passou a fazer parte do seu Verão, das suas férias.

O festival que haveria de mudar para sempre a forma de ouvir, ver e sentir, a música em Portugal.

 Isso mesmo. Eu acredito que há muitas pessoas que acham que, aqui, há um espírito único, genuíno, verdadeiro, onde é possível viver emoções, partilhar momentos. E todos nós temos a necessidade de regressar à terra onde fomos felizes (sorriso rasgado). Isto pode parecer marketing, mas é mesmo verdade. Passou a ser um ponto de encontro. Tenho amigos, muitos deles jornalistas e músicos, que se encontram todos os anos aqui. Passou a fazer parte das nossas vidas. E tem outra coisa – raiz. Não há nenhum Courense, quer esteja a estudar design em Nova Iorque, quer esteja a trabalhar em França, quer viva no Canadá, quer trabalhe na mais recôndita terriola dos confins do mundo, que não venha a Paredes de Coura durante o festival. Podem ir para o Algarve, podem até ir para o Dubai, mas, durante uma semana, toda a gente de Paredes de Coura, que gosta de música e que tenha cá família, vem a Coura. O festival é o cordão umbilical de todos os courenses que estão na diáspora, que estão espalhados pelo mundo. E isso cria identidade, sentido de pertença. Tenho amigos, que estão em cargos de grandes empresas, na comunicação social, que nasceram em Trás-os-Montes e perderam as raízes.  Os courenses, por causa do festival, nunca as perderam.

Claro que, com o crescimento, com a profissionalização, o carácter muito espontâneo do festival tem vindo a desaparecer. Hoje já não é possível ver os Divine Comedy a tirarem finos para a malta (risos). Tornou-se mais profissional, e ainda bem, mas, com isso, perdeu alguma graça (risos). Ainda há muita coisa divertida e espontânea. Da última vez que cá tocaram os Franz Ferdinand, o Alex Kapranos passeava-se, de calções e robe com uma cerveja na mão, durante o after-hours. Ainda é possível ver bandas, durante a tarde, no rio, naqueles barcos de plástico, de um lado para o outro. Às vezes, ponho-me a imaginar as bandas, a saírem da auto-estrada e a fazerem aquele caminho sinuoso até à vila, depois, a descerem até ao backstage, que já é num local improvável, e a entrarem em palco, naquele anfiteatro incrível, a três metros do público, com uma multidão alucinante por aquela encosta acima. É impossível não ficarem abismadas e não terem uma relação corporal, uma relação afectiva com o público. É uma coisa de outro mundo. Sabem que já se pensou em mudar o local do festival? Mas isso seria matá-lo. O lugar é aquele. Mudar implicava perder a identidade. E o festival de Coura não é para ser grande, é para ser bom. Por isso, apesar dessas mudanças, o ambiente continua a ser contagiante, as pessoas misturam-se e têm um enorme respeito, umas pelas outras. Eu costumo dizer que as pessoas quase se amam. Aliás, algumas amam-se mesmo (risos).

A sua experiência na organização do Festival ajudou-o no desempenho do cargo de Presidente da Câmara?

Ajudou muito. Apesar de, nesta entrevista, dar a ideia de que era tudo muito improvisado e amador, a verdade é que era muito exigente. Foi necessário aprender a lidar com bandas estrangeiras, com dificuldades financeiras, com os capitalistas (risos), e isso deu-me uma capacidade de gestão, de relacionamento interpessoal muito grande, que foi essencial ao meu desempenho enquanto Presidente. A decisão política é sempre feita com base em informação técnica. Obviamente, eu chegava aqui e perguntava, muitas vezes, sobre determinadas áreas. No início, deviam pensar que eu era burro, porque estava sempre a perguntar. Mas há uma coisa que aprendi no festival: para uma boa decisão, temos de compreender o assunto. Esse à vontade de perguntar, que pode, aparentemente, significar fragilidade, traz bons resultados e traz uma cultura da pergunta, que eu acho essencial para a tomada de boas decisões políticas. Há hierarquias, há exigência, mas há um relacionamento informal com as pessoas e isso também ajuda muito. O festival deu-me um conjunto de armas essenciais ao meu desempenho na Câmara. Acho que todos os presidentes de Câmara deveriam passar um ano na organização de um festival, porque, lá, há de tudo.

O festival também trouxe uma dinamização turística à vila e à região.

 Exactamente. Há presidentes de Câmara que ainda não perceberam algo de essencial, que se devem fazer coisas para fora, coisas internacionais e ter paciência para que se afirmem, porque, muitas vezes, nas Câmaras, não há paciência para que um evento cresça, medre, engorde. É importante traçarmos um caminho, arriscarmos, termos coragem de ousar e fazer coisas difíceis. Eu gosto muito de uma frase do Walt Disney, que é, mais ou menos, assim: “Eu gosto do impossível, porque lá a concorrência é menor”. É uma grande verdade. Depois, é preciso compreender aquilo que é único em cada lugar e potenciar isso para o mundo. O Torga dizia, e é verdade, “o universal é o local sem paredes”. Mesmo na aldeia mais escondida do interior do país, é preferível fazer coisas boas, abertas para o mundo, do que fazer coisas para consumo interno. Não tenho paciência para isso.

Paredes de Coura é um bom exemplo. Quem imaginaria que, em 1993, com acessos difíceis, sem auto-estradas, era possível criar um evento que se tornaria global?

 É verdade. No início, as bandas perdiam-se e telefonavam-nos do meio do caminho. Até há uma história engraçada, a propósito disso, que se passou com os Cosmic City Blues. Eles estavam a caminho de cá, e, ao invés de virem pela estrada normal de Ponte de Lima, vieram por Braga, pelo interior de Vila Verde. E há ali uma terra com um nome curioso. Então, liga o Jorge Coelho, que era o guitarrista, e eu pergunto: “Onde estás, Jorge?”, e ele responde: “Estamos a passar Corvos Anais”. Foi gargalhada geral.

Qual foi a grande marca que o festival deixou na vila?

 A ligação à terra, às raízes. O orgulho de ser courense. Não é possível construir projectos de desenvolvimento sem que as pessoas gostem verdadeiramente da sua terra. Há terras, há localidades, sejam cidades ou vilas, que têm problemas de desenvolvimento, não porque nessa terra não exista inteligência, não exista seiva criativa, mas porque não há identidade, não há amor, não há orgulho e não há projectos de desenvolvimento que se construam, ou que sejam possíveis, sem essa afectividade, sem esse orgulho.

Esse orgulho de ser courense reflecte-se na fixação de população, sobretudo dos mais jovens?

 Os autarcas devem preparar projectos culturais e educacionais para formar os mais pequenos e os jovens, para que estes possam ter a opção, mais tarde, depois de obterem uma formação, de ficar ou de sair. Eu não sou adepto de fixar as pessoas à terra. Defendo a criação das condições de desenvolvimento que permitam a escolha. O desenvolvimento de Paredes de Coura assenta, sobretudo, na indústria automóvel e na indústria do calçado. Estamos a tentar mudar o paradigma de investimento, e acho que vamos conseguir, atraindo empresas mais modernas, pequenas empresas de cariz tecnológico. Mas, para conseguir fixar licenciados na área das novas tecnologias, é necessária uma oferta cultural diversificada. Isso é perfeitamente possível, debaixo do chapéu do festival, debaixo de uma programação cultural anual, com cinema, com teatro, com música. Com essa oferta, é perfeitamente possível convencer um jovem a sair da Universidade do Minho, ou da Universidade de Aveiro, para vir viver para Coura dois anos.

Quais são os grandes desígnios do Município, além desse, de mudar o paradigma da indústria existente?

 É importante diversificar o tecido empresarial, com o objectivo de captar emprego para mão-de-obra qualificada, criar emprego com maior formação. Convém recordar que, há trinta anos, o Alto Minho não tinha indústria, e, agora, é uma das regiões mais industrializadas do país. E isso acontece debaixo de um chapéu de modernidade. Porque não podemos ser só industrializados, temos de conciliar indústria com natureza, e com cultura. 60% do território de Paredes de Coura faz parte da Rede Natura. Graças ao festival, começam a surgir projectos turísticos, nomeadamente um grande hotel que vai surgir em Paredes de Coura, no antigo hospital psiquiátrico, ligado à alimentação cuidada, ao yoga, ao mindfulness. E se não houvesse esta dinâmica do festival, se não houvesse indústria, se não houvesse oferta cultural, nada disto era possível. Eu olho para a indústria como olho para o festival, olho para a cultura como olho para a escola. A oferta cultural que temos em Paredes de Coura é tão importante como a escola. A escola é currículo, a cultura é arte, é emoção. E nós queremos que os miúdos sejam competentes do ponto de vista curricular, mas queremos que sejam igualmente competentes no domínio das emoções, das relações interpessoais, do conhecimento da arte, porque, quando forem a uma entrevista, terão um melhor desempenho.

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