Artigo

Conversa da China

Há tempos, numa das suas muitas idas ao Rio de Janeiro, onde passa um terço do ano, Bárbara entrou na célebre Livraria Travessa do Leblon e perguntou a um dos livreiros onde podia encontrar a Obra Completa de Álvaro de Campos, que publicara recentemente no Brasil:

Não estou a ver. – respondeu o livreiro. Então, outro livreiro mais velho que passava atirou:
Isso é da Tinta-da-china.
Bárbara emocionou-se e, recolhida a um canto da gigantesca livraria carioca ganhou consciência, nesse momento como talvez em nenhum outro, da importância da editora que há mais de onze anos começara a desenhar no sótão de sua casa, com as amigas Inês Hugon e Vera Tavares.

“Só quem já foi livreiro percebe a importância daquele momento. Foi a constatação de que já fazíamos parte da casa. De que a Tinta-da-china existia e era da casa! Foi emocionante…”

Bárbara nasceu Serras Lopes, apelido a que, por casamento, acrescentou o Bulhosa pelo qual acabaria por ficar conhecida desde os tempos de faculdade, motivo pelo qual, como explicou à jornalista e amiga Fernanda Câncio, o decidiu manter mesmo depois do divórcio. “Casei aos 19 anos (…) e quando me divorciei, aos 38 anos, percebi (…) que passara mais tempo na minha vida com o nome dele do que sem. Não dava para mudar.” Esta é apenas uma pequena curiosidade, mas revela o lado prático de Bárbara Bulhosa, a mais conhecida editora independente do país.

Não a conhecendo, dificilmente adivinharíamos a sua quase obsessão por Heathcliff, o tortuoso herói byroniano e personagem central do extraordinário Monte dos Vendavais, romance único de Emily Brontë, um dos livros que mais a marcou, juntamente com O Estrangeiro de Camus, ou o mais recente As Benevolentes, de Jonathan Littell. “É um livro que provavelmente não vou voltar a ler, mas que quero junto de mim. É um livro muito forte, porque quando o li dei comigo a criar empatia com uma pessoa que encarna o mal, com um sacana. Foi um livro que me fez questionar e questionar-me. Que me pôs em causa. E isso é o que se espera de um livro.”

Excelente mote para início da nossa conversa com a fundadora e proprietária da Tinta-da-china.

Ler na íntegra aqui

Por: João Moreira

Fotografia: Hugo Macedo

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