Quem conta um conto?

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No último Festival Literário de Viseu fizeram a Pedro Mexia aquela pergunta fatal e sacramental: para quando um romance? Também sou culpado dessa dúvida. Consciente ou inconscientemente, achamos que um escritor é o escritor que escreve romances. Estamos sempre à espera do romance. “O” romance – esse objectivo de vida, esse rito de passagem, essa senha de acesso ao panteão.

Tudo o resto é acessório. Os contos, por exemplo, que no passado tinham uma dignidade literária própria, às vezes parece que já só servem para assegurar um módico de consideração pública e de sobrevivência (nos países onde se paga com decência o ofício) nos longos invernos entre dois romances.

Muitos, os mais castos, ainda tentam disfarçar o objectivo venal e burguês da escrita com uma espécie de significado artístico: escrevem contos como meros exercícios de estilo, tentativas académicas, ensaios para o próximo romance. O importante é fazer tudo para de deflectir a crítica mais mortífera: a de que um pedaço de escrita é entretenimento. No mundo anglo-saxónico, até se tem algum pudor em falar de short stories. É mais prudente utilizar o vago short fiction. Algo correu mal na história da literatura para que a noção de entretenimento lhe passasse a ser tão adversa. Michael Chabon tem um ensaio – Trickster in a Suit of Lights – onde propõe o reencontro, porque «of all the means writers of fiction have devised for spanning the chasm between two human skulls, the short story maps the most efficient path.»

Em Portugal, a este desprezo pela ideia de entretenimento, junta-se o desdém pela concisão. A concisão é a virtude intelectual mais subvalorizada em Portugal. Não é considerada uma virtude e muito menos intelectual – como acontece, basicamente, em todas as culturas reféns de um afrancesamento agudo. É também por isso que para muito boa gente um escritor só o é verdadeiramente se se agrilhoar ao romancismo e a ele se dedicar com gongorismo, facúndia e fôlego proustiano. Daí termos tanta falta de bons ensaístas, novelistas, contistas, cronistas, repórteres, diaristas, frasistas, aforistas, letristas.

Em 2012, na New Yorker, Ian McEwan veio contribuir com um bravo subsídio para a causa, ao defender que a novela é a forma perfeita da ficção, pelo controlo que exige – na economia narrativa e na transparência, na precisão e na intensidade, na moderação do ornamento, no empenho que suscita em cada frase, na harmonia da obra, na preocupação com o prazer e concentração do leitor, mesmo no comedimento da húbris intelectual. «The demands of economy push writers to polish their sentences to precision and clarity, to bring off their effects with unusual intensity, to remain focused on the point of their creation and drive it forward with functional single-mindedness, and to end it with a mind to its unity. They don’t ramble or preach, they spare us their quintuple subplots and swollen midsections.»

Talvez a concisão de que fala McEwan seja uma virtude britânica, instigada pela insularidade, pela necessidade de encontrar tudo, produzir tudo, prever tudo dentro de horizontes cerceados. A concisão será fruto do mesmo desígnio natural de outras grandes virtudes britânicas, como o empirismo, o governo limitado ou a pouca predisposição para conjecturas ou sistemas abstractos.

Pedro Mexia é o melhor cronista e diarista português (e um dos melhores poetas). Os seus diários, que começaram nos blogs, são uma tentativa de guardar rasto de uma dispersão quotidiana, de lhe dar a forma possível, uma posteridade breve mas honrosa. Mas são, apesar da modéstia da fórmula, uma experiência gloriosa. Escrever um romance, percebeu-se em Viseu, não é desejo que o mantenha acordado à noite. E não há problema: a sua escrita já é do melhor que a literatura portuguesa contemporânea tem para dar.

Por: Francisco Mendes da Silva

Foto: internet

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