Comunicação e ciência

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O ser humano só o é verdadeiramente quando comunica, isto é, não existe individualmente, mas sim em sociedade. Comunicar consiste em transmitir significados de uma pessoa ou grupo de pessoas a outras pessoas ou grupos usando um conjunto de símbolos e regras cuja compreensão é partilhada. Os conteúdos da comunicação são, em geral, chamadas mensagens e a sua codificação simbólica pode ser feita das mais variadas maneiras: podem ser textos, imagens, discursos, gestos, etc. Vivemos na era da comunicação digital: no mundo contemporâneo, a informação contida nessas formas é representada por bits, o que facilita não só a sua transmissão, mas também o seu armazenamento no sistema global a que chamamos Internet. A transmissão por imagens, que consome mais bits, designadamente imagens em movimento, está a crescer enormemente. Na teoria da comunicação, definem-se emissor, receptor e canal de comunicação entre neles, sendo a comunicação tanto melhor quanto mais fácil for a interacção entre emissor e receptor (quando o chamado “ruído”, ou perturbação da informação, inexistir ou for limitado), e quanto mais emissor e receptor trocarem os seus papéis, assegurando bidireccionalidade da comunicação. A comunicação digital moderna operou uma revolução completa, da qual ainda não estamos a ver todas as consequências, ao permitir que cada receptor possa ao mesmo tempo ser um emissor com potencial de recepção global. Na actual torre de Babel, todos os habitantes do planeta – e são mais de sete mil milhões – podem, pelo menos em princípio, comunicar, praticamente sem intermediários, para todos.

O desenvolvimento da civilização sempre se baseou, essencialmente, no alargamento dos processos de comunicação. Se a evolução biológica proporcionou a visão e a fala, o aparecimento da escrita no Médio Oriente há cerca de 3300 anos a.C. constitui um grande marco histórico: é até o começo convencional da história. A seguinte grande transformação civilizacional ocorrida com o alargamento das comunicações foi a introdução da imprensa escrita primeiro no século VII na China e, sem qualquer ligação conhecida, depois na Europa, a meio do século XV (o papel inventado na China chegou à Europa através dos árabes, mas não a imprensa), com o trabalho pioneiro do alemão Johannes Gutenberg. No século XIX, a Revolução Industrial proporcionou uma rede de telecomunicações, que construída a partir da Europa ganhou escala intercontinental, primeiro através do telégrafo eléctrico e depois através da TSF: deixou de ser necessária a deslocação de seres humanos ou o envio por qualquer meio de material impresso para haver transmissão de informação à distância. Finalmente, no século XX, uma nova e poderosa vaga da Revolução Industrial, determinada pela invenção dos transístores (1947), dos cabos ópticos (1965), da Internet (1969), dos computadores pessoais (1977), dos telemóveis (1983) e da World Wide Web, WWW (1989), levou à proliferação e aceleração dos processos comunicacionais de uma forma nunca vista, agora com suporte digital, que se estenderam rapidamente a todo o mundo – falamos de “globalização”, um conjunto enorme e complexo de interacções entre pessoas e grupos que são asseguradas por ligações ubíquas. A globalização mudou – está a mudar – de forma drástica a economia, a sociedade, a política e a cultura. Não é por acaso que entre as dez companhias mais valiosas do mundo se encontrem a Microsoft, a Apple, a Amazon, a Alphabet (que inclui a Google), o Facebook e o Alibaba.

Ciência na base da comunicação

Se o aparecimento da escrita e da imprensa escrita foram inovações técnicas anteriores ao aparecimento da ciência moderna, já as inovações dos séculos XIX e XX foram resultado dessa ciência. Na base da “aldeia global” em que se transformou o planeta está a observação cuidadosa (muitas vezes ajudada por instrumentos), a experimentação (que mais não é do que observação em condições controladas) e o exercício da razão (que recorre em geral à matemática). De facto, antes da Revolução Industrial (cujo início se faz remontar ao final do século XVIII, com a invenção da máquina a vapor), foi a Revolução

Científica, saída das mentes de génios como Copérnico, Galileu e Newton nos séculos XVI e XVII que mudou o mundo de uma maneira irreversível: passou a haver uma metodologia que se podia aplicar sistematicamente para alargar o nosso horizonte de conhecimentos. O jurista e filósofo inglês Francis Bacon, contemporâneo de Galileu, anteviu a sociedade actual, assente na ciência e na tecnologia, no que pode ser considerado o primeiro conto de ficção científica: A Nova Atlântida (1626).

Uma componente essencial do método científico complementa as três componentes atrás referidas: a crítica feita por “pares” permite o estabelecimento de consensos científicos. Uma afirmação a respeito do mundo só fica provada se não for encontrado nenhum erro no processo da sua criação e os erros são mais rapidamente eliminados se houver partilha de informação. A Revolução Científica só foi possível porque a imprensa, que lhe é anterior, permitiu a difusão de conhecimento. A obra maior de Copérnico é a Revolução dos Orbes Celestes (1543) que sai no ano da morte do autor e que tanta celeuma haveria de provocar no mundo cristão. Galileu escreve as sua sobras mais significativas em italiano, e não em latim, para chegar a mais gente. Newton, com o patronato da Royal Society de Londres. A sociedade científica a que ele pertencia (presidiu a ela durante longos anos) escreveu, em latim, Princípios Matemáticos de Filosofia Natural (publicada em 1687, com primeira tradução inglesa vinda a lume em 1726). Quer dizer, não há ciência sem uma comunidade científica, que mantém vigilância atenta sobre a correcta aplicação do método científico. Os conhecimentos são acumuláveis, tendo os novos de “encaixar” nos velhos.

Se é verdade que a moderna comunicação é um resultado directo da ciência, não é menos verdade que, no âmago da ciência, estão processos comunicacionais. Assim, não admira que o desenvolvimento das tecnologias da comunicação tenha servido para alimentar a própria ciência. No século XIX o telégrafo e a TSF serviram para a comunicação de novidades científicas. Nas décadas mais recentes, a WWW transformou a sociedade e a própria ciência. É curioso assinalar que a WWW foi um spin off da física fundamental: os físicos de altas energias, congregados no Centro Europeu para a Investigação Nuclear – CERN na Suíça na busca de partículas e forças fundamentais, apenas queriam partilhar os seus dados, não podendo imaginar o impacto que os protocolos desenvolvidos para a comunicação científica viriam a ter no mundo em geral. Uma vez que a criação de ciência é uma actividade comunitária, não admira que o email e as conferências Skype, ou análogas, tenham passado a ser meios indispensáveis da produção científica. A maior parte das revistas científicas passaram a ser electrónicas e criaram-se arquivos digitais. Em 1991 foi criado o ArXiV, um arquivo de preprints electrónicos de artigos científicos nas áreas da matemática, da física e da biologia fundamental, que contém mais de um milhão de artigos (são depositados mais de 10.000 por mês) Criou-se há alguns anos um movimento, chamado de Open Access, que se destina a pôr os resultados da investigação científica acessíveis, através da Internet, de forma livre e gratuita, não só a toda a comunidade científica, mas urbi et orbi a quem possa estar interessado. Existem hoje mais de 12.500 jornais científicos só de acesso aberto, embora muitos outros tenham um sistema misto. Os chamados repositórios institucionais oferecem a produção científica feita no seu interior: por exemplo, no “Estudo Geral”, repositório da Universidade de Coimbra, encontram-se, a esta data, 441 trabalhos meus (https://estudogeral.sib.uc.pt/ cris/rp/rp04989?startall=400). Em Portugal existe um metarepositório, que reúne os vários repositórios institucionais, os Repositórios Científicos de Acesso Aberto de Portugal, RCAAP: www.rcaap.pt

Desinformação e cultura científica

Mas o feitiço virou-se de alguma forma contra o feiticeiro, vendo-se a ciência vítima do seu próprio sucesso. Com a WWW qualquer um pode ser tanto emissor como receptor de informação, não havendo uma possibilidade fácil de filtros que separem a informação da desinformação, isto é, informação inválida, sem suporte factual. As redes sociais, como Facebook, fomentaram esse fenómeno. Assim a Internet, sendo indubitavelmente um repositório valioso de conhecimento, contém, como numa mina de ouro, minério rodeado e por vezes enleado numa ganga de desinformação. Em vez da “verdade”, passaram a proliferar “verdades alternativas” (alguns falam de “pós-verdade”). Em vez de notícias, passaram a existir “notícias falsas” (fake news). Em detrimento das ciências, ganharam volume as pseudociências. Não deixa de ser paradoxal: Usando os meios proporcionados pela ciência, a pseudociência, que sempre existiu, ganhou uma escala nunca vista. Numa premonição notável, o astro-físico e divulgador científico norte-americano Carl Sagan, em 1990, num artigo publicado na revista Skeptical Inquirer, tinha dito: “Vivemos numa sociedade extremamente dependente da ciência e tecnologia, na qual muito poucas pessoas sabem alguma coisa sobre ciência e tecnologia. Isto é uma clara receita para o desastre.” A mistura entre poder e ignorância, bem patente na Casa Branca em Washington DC e no Palácio do Planalto em Brasília, está-nos hoje a explodir na cara.

Não podemos adivinhar as consequências da mistura entre poder, baseado na ciência e tecnologia, e ignorância, desconhecimento da ciência e tecnologia e não só. Um poder ignorante pode travar o esforço científico, colocando em causa não só o desenvolvimento civilizacional futuro como as nossas actuais condições de vida. Se a ciência deixa de dispor de meios adequados, não poderemos enfrentar grandes problemas que nos assolam, onde avulta a magna questão das alterações climáticas, a alteração que o homem publicou no seu planeta. Se no passado se poderia invocar o desconhecimento dos efeitos da acção humana, esse já não é o caso nos dias de hoje. Por outro lado, há desafios e ameaças relacionadas com a ciência, como os que derivam da edição genética ou da inteligência artificial. Para podermos dispor de meios que nos permitam a continuação da vida na Terra, em condições não inferiores às que desfrutamos hoje (tem havido um desenvolvimento do nível de vida no globo, embora continuando desigualdades gritantes), há um aspecto crucial da comunicação sobre o qual convém reflectir. É que a ciência não apenas precisa de comunicação externa como precisa – tanto quanto da primeira – de comunicação com a sociedade, com o público que é o primeiro motor da ciência. De facto, a ciência não é dos cientistas, mas de todos. São os cientistas que respondem a questões, mas estas são da humanidade inteira, pelo que convém que as respostas, ainda que permanentemente parciais, sejam entregues aos interessados que somos nós todos. Para isso, terão de se usadas todas as possibilidades de comunicação existentes, na medida da sua eficácia conhecida, para que a ciência – não apenas o corpo de conhecimentos, em continua mutação, mas o método que gera primeiro conhecimentos e mais tarde aplicações – esteja mais perto do grande público. Não se trata apenas de ver a ciência como uma fonte de benefícios materiais, mas sim e acima de tudo de ver a ciência como a fonte desse benefício imaterial, o primeiro e o mais fundamental dos benefícios, que é o conhecimento humano. O matemático francês Henri Poincaré escreveu em O Valor da Ciência (1905): “Não digo que a ciência é útil porque nos ensina a construir máquinas; digo que as máquinas são úteis porque, ao trabalhar para nós, um dia nos deixarão mais tempo livre para fazer para ciência.” Claro que se pode acrescentar – e Poincaré pensava isso – para desfrutar as artes, porque para ele tanto as ciências como as artes estavam na base da civilização.

Logo no século XIX houve cientistas que tiveram a visão da necessidade de levar a ciência ao público. Vale a pena olhar para o caso do Reino Unido, o país de Francis Bacon e de Newton onde começou a Revolução Industrial: O físico inglês Michael Faraday fazia, na Londres vitoriana, shows de demonstrações científicos e escreveu livros acessíveis de popularização de ciência. Outro inglês, Charles Darwin, escreveu uma das teoria científicas mais notáveis num livro A Origem das Espécies (1859) escrito directamente para o público – um livro que ainda hoje está no mercado e que pode ser lido por um leigo interessado (do atraso científico em Portugal fala eloquentemente o facto de a tradução portuguesa ter demorado 43 anos; nas artes não foi melhor: a 9.a Sinfonia de Beethoven demorou 101 anos a estrear entre nós). No século XX, a progressiva especialização do saber levou a uma cada vez maior separação da cultura científica e tecnológica, por um lado, e da cultura artística e literária, por outro. Em 1959 o inglês Charles P. Snow, também conhecido por Lord Snow, que era ao mesmo tempo um físico-químico e um escritor literário, intitulou uma conferência que deu em Cambridge As Duas Culturas, chamando a atenção para o fosso que existia entre as ciências e as letras. A identificação do problema não significou a sua resolução: ainda hoje é reconhecido um certo isolamento da ciência no seio da cultura. Continua a haver duas culturas que não comunicam facilmente, em vez de se reconhecer a ciência como uma parte da vasta cultura humana. No Reino Unido, surgiu em 1985 um relatório da Royal Society (conhecido por Relatório Bodmer, do nome do geneticista britânico Walter Bodmer) que expressava a preocupação com a “compreensão da ciência pelo público”. Essa tentativa tem conhecido novas formas, incluindo o aparecimento de cátedras em várias universidades dedicadas à compreensão pública da ciência. Um dos actuais movimentos mais inovadores neste contexto é o da “ciência cidadã” (citizen science), que consiste na possibilidade de o público ajudar nalgumas actividades de ciência: os amadores podem, de facto, contribuir para progresso da ciência. Um exemplo interessante é a possibilidade de dar parte de tempo de cálculo dos computadores domésticos para participar em projectos globais de computação (como por exemplo saber o clima futuro do planeta), mas outras formas de participação envolvem o fornecimento de dados sobre o ambiente, a biodiversidade, o espaço, e até o funcionamento do corpo humano, etc.

O caso português

Se o caso britânico é paradigmático, o caso português não deixa de ser interessante. Portugal é um país onde a ciência – e, portanto, a comunicação de ciência – tardaram a disseminar-se. Nos séculos XIX e XX, quando o mundo as grandes transformações mencionadas, Portugal beneficiava das novas possibilidades tecnológicas apenas na medida em que as podia comprar e não tinha em geral capital para o fazer. O telégrafo eléctrico foi comprado, no Porto para tratar dos negócios e em Lisboa para facilitar a governação já ele estava estabelecido há anos noutros sítios. Se um professor ou investigador português vislumbrava a possibilidade de concretizar uma nova tecnologia (com aconteceu com o conceito de televisão, que ocorreu a Adriano Paiva, no Porto, em 1878), não dispunha dos meios suficientes nem do ambiente necessário para que sua ideia pudesse ser levada à prática. Havia interesse das camadas mais cultas da sociedade pelas novidades da ciência e tecnologia, um interesse que alimentado por uma variedade de livros e periódicos, mas essas camadas formavam um grupo muito restrito da população, já que a maior parte desta permaneceu ao longo do século XIX e em boa parte do século XX analfabeta, por deficiência de escolarização. O século XX, apesar das esperanças alimentadas pela implantação da República, não trouxe melhorias substanciais. As tecnologias de comunicação, baseados nos transístores e nos cabos ópticos, vinham de fora como dantes tinha vindo o telégrafo e a TSF. Com a Revolução de 25 de Abril de 1974 e com a entrada na Comunidade Económica Europeia em 1986 houve uma cada vez maior escolarização no ensino superior e um investimento maior na ciência e na tecnologia. Esse investimento foi acompanhado por um investimento na disseminação da cultura científica, tendo aí sido proeminente o papel de José Mariano Gago, o físico que primeiro ocupou a pasta da Ciência e Tecnologia. Os cientistas portugueses, em número cada vez maior, foram reconhecendo progressivamente a necessidade de dialogar com o público. A imprensa escrita de referência passou a ter secções de ciência, embora a rádio e a televisão permanecessem neste aspecto deficitárias. Foram publicados livros de ciência – a colecção mais emblemática que já dura há mais de três décadas e inclui até à data 234 títulos é a “Ciência Aberta” da Gradiva, onde há cada vez mais autores portugueses (já se chamava “Ciência Aberta”, nome adoptado antes de ter começado o moderno movimento da Open Science, de que o Open Access é a face mais visível). Surgiram centros e museus de ciência, alvo do interesse dos mais jovens. Em Coimbra, fundei em 2008 o Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra (www. uc.pt/iii/romuloccv) , cujo nome presta homenagem ao professor de Física e Química e escritor Rómulo de Carvalho, que usava o pseudónimo literário de António Gedeão, e que é para além de uma biblioteca e de um repositório de cultura científica (https:// am.uc.pt/romulo/items) também um espaço de encontro interdisciplinar e de partilha de saberes. Pode-se dizer hoje que há um interesse em Portugal pela ciência – não há em Portugal a mesma vaga de desconfiança que ameaça alguns países mais desenvolvidos e que é potenciada pelas redes sociais – mas o certo é que isso acontece ao mesmo tempo que há alguma indiferença. Sim, pensarão os portugueses, a ciência é em princípio uma coisa boa, mas não é para mim.

Estou em crer que os portugueses, tal como os outros cidadãos deste mundo global, estão interessados em saber mais e melhor, até porque esta é a única possibilidade de poder desfrutar de uma vida mais longa e saudável. É preciso para isso que as entidades públicas e privadas confluam em alimentar a cultura científica em Portugal. E, neste mundo em que todos nós podemos ser emissores, é preciso que nos empenhemos, com os meios e as capacidades de que dispomos, em espalhar cultura científica. Os modernos meios de comunicação estão à nossa disposição e o mais provável é que surjam outros, ainda mais poderosos. Francis Bacon disse que “saber é poder”: não podemos deixar que a ignorância seja poder. O empenho da cultura científica tem de ser comum. Tudo deve começar na escola, que não perdeu o seu papel essencial na aprendizagem da informação e comunicação, mas a vida hu- mana só é possível através da comunicação permanente.

 

Por Carlos Fiolhais

Professor de Física da Universidade de Coimbra

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