Comunhão

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Edmondo de Amicis escreveu que “o vinho provoca uma embriaguez diferente, que não depende só do temperamento e da personalidade de cada um, mas depende também do estado de espírito em que nos encontramos ao recebê-lo“. Eu acrescentaria que depende ainda do que nos rodeia. E de quem nos rodeia.

As bebidas alcoólicas começam por ser uma forma de comunicarmos com o mais íntimo de nós. Se não percebemos isto não percebemos nada. Sobretudo não percebemos a gravidade de bebermos para nada sentir, para deixar de sentir. Beber abre uma porta, mas para que direção a bebida não diz. Pode ser para calar.

Há quem beba para se sentir confortavelmente entorpecido como na canção dos Pink Floyd, versão Departed de Scorsese, por favor. Ou como no Leaving Las Vegas do Mike Figgis, com aquele destinado Nicholas Cage, que sempre volta para nos atormentar.

Há todo um bestiário masculino sobre o modo como a bebida afeta os homens e altera o seu temperamento. Como os torna violentos. Como batem nas mulheres e nos filhos. O álcool mata. De uma forma ou de outra. O que é preciso, como em quase tudo, é mestria sobre ele. Para que sejamos nós a entrar pela porta e não o álcool a entrar por nós dentro e a fazer de nós arrependimento. Essa alienação alcoólica do homem estereotipado é a pior imagem da bebida que a bebida poderia ter. Famílias destruídas, pessoas mortas. O que aconteceu em todos estes casos foi o vício ter tomado o homem em vez de o homem ter construído uma virtude.

Sirvo-me um dos meus whiskys preferidos – Lagavulin 16 anos – e um dedo de água das pedras (temperatura ambiente, uns 22 graus) e penso no modo como com o álcool, como com outras drogas, há uma coleção discreta de instantes que mudam tudo. Com a bebida há uma dimensão maior porque o encaixe civilizacional da bebida não conhece quase comparações. Lembremos Omar Khayyám: “Se o Vinho que bebes e os Beijos de tua boca / têm Princípio e têm Fim, e tudo que nos toca, / morre, lembra que és Hoje o mesmo ser de Outrora, / e o mesmo ser de Amanhã nesta Existência louca!”. E por isso a bebida obriga-nos a considerar que por cada homem (ou mulher) que agiu mal depois de uma bebida, que foi vulgar depois de uma bebida, que foi mal educado depois de uma bebida, que foi ofensivo depois de uma bebida, que foi agressivo depois de uma bebida, que matou depois de uma bebida, há uma mestria que o impediu. Por cada um desses homens (e mulheres) houve outros seres humanos que, alimentados dessa vontade primitiva de beber, trocaram a água por uma bebida que lhes permitiu expor de forma perfeita a sua ideia, a sua vontade, o seu sentimento. Homens e mulheres que conseguiram ultrapassar uma inibição que os atormentava e tolhia ou que simplesmente desconheciam. Homens e mulheres que resolveram aquele último obstáculo de um problema que os preocupava. Homens e mulheres que viram com a nitidez da estrada aberta aquilo que pretendiam escrever, cantar, dançar, contar, desenhar, esculpir. Contra o mau vinho, a boa bebida.

O dia rodopia para o seu fim e alguém serve uns copos de vinho. Amigos sentam-se e conversam. Há uma promessa de que a conversa vá além do que iria se Diónisos não estivesse ali. Uma comunicação verdadeira, maior. A promessa de que poderemos ver as coisas como não as poderíamos ver de outro modo. Apenas o suficiente para contemplarmos o abismo, e sentirmos o seu cheiro, e pensarmos na sua profundeza, e imaginarmos o que habita as zonas sem luz. Mas depois voltamos, e brindamos e damos graças por estarmos ali em comunhão.

E até pode nem haver ninguém. Afinal serviu-se apenas um copo de vinho. E somente bebe aquele que reflete sobre a natureza do abismo. Mas mesmo esse, como na quadra de Omar Khayyám está falando com o seu eu de ontem ou de amanhã. Quem sabe, com ambos.

Não é nada seguro que a bebida, o clássico gin tónico ao fim da tarde, o copo de vinho ao princípio da noite, o cocktail elaborado na festa, a aguardente no final do jantar de amigos, as cervejas no almoço de fim de semana, não é nada seguro que todas estas portas permitam comunicar com algo mais além. Ou lá atrás. Mas há uma enorme promessa, que é talvez ainda maior desafio, de usar (de beber) a bebida como um modo de comungar. E comungar é sempre, mais do que repartir, dividir, reunir, misturar: procurar o comum. Até à dissolução final. De novo Omar Khayyám: “Então, quando o Arcanjo da noturna Bebida / à margem de algum rio que é negação da Vida / ofertar a teus Lábios a última taça / por ser inelutável, não será temida”. Bebamos, pois, para buscar o que é comum naqueles que estão dispostos a encontrar-se. E para mais nada. Saibamos ser mestres e não escravos. Até à última taça.

Por Pedro Santo Tirso

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