Com três desenhos se conta a história de um grande pintor

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O Museu de Lisboa possui três desenhos de Francisco Vieira de Matos (1699-1783), pintor régio de D. João V e de D. José, artista famoso no seu tempo e muito elogiado por figuras do Romantismo português, que a História melhor conhece pelo nome de Vieira Lusitano. O primeiro desses desenhos – uma alegoria ao atentado do rei D. José – foi adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa em 1958. Os outros dois – um retrato régio e um desenho preparatório para o teto da basílica de Nossa Senhora dos Mártires – são fruto de investimentos mais recentes, que vieram reforçar o Museu de Lisboa com obras que ilustram a atividade e qualidade de um dos mais relevantes pintores de Lisboa e a profunda relação que este artista estabeleceu com o património barroco da capital do país.

Formado nos círculos romanos de inícios do século XVIII (sobretudo com os pintores Benedetto Lutti e Francesco Trevisani), e trabalhando entre Roma e Lisboa, Vieira Lusitano gozou de uma carreira longa, que ultrapassou cinco décadas de intenso labor. Por vontade própria, afastou-se da criação artística a partir de 1774, ano do falecimento de sua mulher, Inês de Lima. Nos últimos anos de vida, recolhido ao convento do Beato António, em Xabregas, dedicou-se a escrever a autobiografia, um relato poético e auto-elogioso da obra e da vida, que o próprio designou O insigne pintor e leal esposo (publicado em Lisboa, em 1780), título que alude às duas dimensões maiores da sua existência: o ofício de pintor e o elogio do amor heroico (porque proibido) que sentiu por Inês de Lima.

Ao serviço do rei D. João V desde 1721 (pouco depois de concluída a aprendizagem em Roma) e pintor régio desde 1733, Vieira Lusitano desenhou, gravou e pintou para a corte, mas Lisboa mereceu-lhe atenção especial. A cidade foi mesmo tema e destino de grande parte da sua produção e é ainda em Lisboa que se preserva o principal núcleo das suas obras. O pintor sobreviveu ao terramoto de 1755, mas muitas realizações que concebeu para a capital perderam-se naquela tripla catástrofe – sismo, incêndio e maremoto -, em particular o ciclo pictórico para a igreja patriarcal, ou o teto do corpo da basílica dos Mártires. Muitas dessas perdidas partes de Lisboa conhecem-se apenas graças a desenhos do autor, alguns preparatórios, outros realizados após o cataclismo, como memórias pessoais de parcelas desaparecidas da própria história de Vieira Lusitano.

 

O teto da antiga basílica dos Mártires. Ou de como a Lisboa anterior ao terramoto de 1755 sobrevive ainda, fragmentada e dispersa, na Lisboa de hoje

Umas das obras agora expostas pela primeira vez no Museu de Lisboa é o Tecto da egreja dos Martyres de Lxª, desenho a sanguínea, assinado por Vieira Lusitano e datado de 1750. Este esboço esteve desaparecido durante muitos anos, mas foi visto e copiado em finais do século XIX pelo olisipógrafo Júlio de Castilho. Hoje faz parte do acervo do Museu de Lisboa e é uma peça essencial para caracterizar não só a obra lisboeta de Vieira Lusitano, como o carácter obsessivo do seu processo criativo, que o motivou a constantemente explorar opções de composição, de disposição de cenas e objetos, de diálogo gestual entre figuras, de incidência de focos de iluminação, bem como de exercício constante e diário do traço do desenho. Graças a este multifacetado processo criativo, muitas realizações de Vieira Lusitano que chegaram até hoje foram esboços propositadamente não finalizados, destinados a resolver questões de pormenor nas obras finais, ou a elucidar potenciais encomendadores sobre o andamento dos projetos.

Para a basílica dos Mártires, uma das primeiras igrejas construídas após a conquista de Lisboa aos muçulmanos em 1147, Vieira Lusitano concebeu uma cena glorificadora do rei D. Afonso Henriques, longínquo antecessor do monarca que, por aqueles meados do século XVIII, patrocinava a reconstrução do templo: D. João V.

A origem desta igreja recua ao dia 21 de novembro de 1147, data em que, por patrocínio de D. Afonso Henriques, se lançou a primeira pedra, no sítio que havia sido convertido em cemitério dos cruzados normandos e ingleses mortos no cerco a Lisboa. Por razões estratégicas, o local fora previamente escolhido para acampamento de parte do exército estrangeiro que protagonizou a conquista da cidade. Por essa razão, é possível que se tenha reservado uma área para cemitério e outra para culto religioso, sendo este último um espaço provisório e rudimentar onde alguns cronistas do século XVII asseguram que esteve depositada uma imagem inglesa de Nossa Senhora.

O edifício, que passou por várias reformas até ao século XVIII, fora consumido por um incêndio em 1746 e a reconstrução havia sido bastante rápida, devendo a obra de pintura do teto ter sido possivelmente a última grande encomenda dessa campanha. Cinco anos depois, o terramoto destruiu o templo e, na reconstrução de Lisboa, optou-se por edificar uma nova basílica noutra área do bairro que viria a ser conhecido por Chiado. A igreja transitou, assim, da fachada Sul do antigo Convento de São Francisco (hoje Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa) para a atual Rua Garrett.

Naquele ano de 1750, a obra para a cartela central do teto dos Mártires não era tarefa fácil. A grande altura da pintura e a sua posição vertical face ao observador eram constrangimentos imediatos à ação de Vieira Lusitano, mas outros problemas existiam, como o formato da cartela e, sobretudo, a obrigatoriedade em dispor um conjunto alargado de figuras, segundo uma conceção iconográfica narrativa que agregava numa só obra de arte diferentes cenas, que tinham ainda de ser dialogantes entre si. A opção foi ilustrar um muito cristão Afonso Henriques, ajoelhado e acompanhado nessa atitude penitente por um cruzado inglês que a tradição apelida de Guilherme de Longa Espada, mas que deve identificar-se com Guilherme de Corni, futuro senhor de Atouguia da Baleia. Ambos são acompanhados pelos escudos português e inglês, e entregam humildemente a um anjo a primeira pedra da construção da igreja e apresentam em pergaminho o projeto construtivo, elemento que não foi aqui ainda desenhado, porque se trata de um estudo preparatório. Esse anjo comunica com a Virgem Maria, anunciando a boa nova que traz o rei de Portugal e simultaneamente intercedendo pela alma dos dois cavaleiros. No topo da composição, Nossa Senhora recebe a oferenda e agradece a atitude do monarca. Está coroada, tem o Menino Jesus ao colo e é acompanhada por uma corte celestial composta pelos mártires de 1147, as almas dos cruzados tombados no cerco de Lisboa, que se apresentam de armadura, portando escudos com monograma cristológico e as palmas, símbolo reservado aos mártires do cristianismo.

Do teto pintado por Vieira Lusitano conhecem-se dois desenhos – o do Museu de Lisboa e outro, mais completo, do acervo do Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, em Évora (também patente na exposição) – e alguns estudos parcelares de composição. Foi uma das suas maiores e mais afamadas obras, um cometa no barroco português, como lhe chamou Victor dos Reis. Por essa razão, na nova basílica dos Mártires, o teto executado pelo pintor Pedro Alexandrino (1729-1810) ao redor de 1786 repetiu, em traços gerais, a obra de Vieira Lusitano, que aquele provavelmente ainda conhecera na antiga basílica…

 

O Tecto da egreja dos Martyres de Lxª é um dos três desenhos agora expostos e que permitem desvendar parte essencial do processo criativo de Vieira Lusitano. Outros temas são também alvo de atenção na exposição Vieira Lusitano. A partir de 3 desenhos, como o diálogo entre desenho, pintura e gravura (técnicas que Vieira Lusitano tanto cultivou e inovou na sua oficina), o estatuto do retrato régio como obra de propaganda e de transmissão subliminar de conceitos de autoridade (pela discreta posição de alguns atributos, por exemplo), a mitologia clássica como expressão erudita e alegórica para episódios contemporâneos, ou a observância militante de um processo criativo metódico, que o levou a executar numerosas abordagens a cada tema, em sucessivas etapas de esquissos propositadamente inacabados. Em todas essas dimensões, Vieira Lusitano promoveu o elogio do desenho, pedra angular da sua arte.

 

Vieira Lusitano. A partir de 3 desenhos é uma exposição temporária organizada pelo Museu de Lisboa. Está patente no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta até 22 de fevereiro de 2020. Conta com projeto científico de Rita Fragoso de Almeida e Paulo Almeida Fernandes, projeto expositivo de Joana Cintra Gomes e projeto gráfico de Paula Serpa.

Por Paulo Almeida Fernandes*

*Técnico superior do Museu de Lisboa. Doutor em História da Arte pela Universidade de Coimbra.

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