Cinema versus Putin

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Ao decidir premiar documentário que afronta o autoritarismo de Putin, Oscar presenteia sua oposição

Das pessoas mais leigas às mais interessadas por política, todas conhecem a expressão “cortina de fumaça”. Entre as mais interessadas, há uma parcela significativa que está habituada à ideia de que grandes potências “inventam” guerras, ou buscam intervir em uma, quando não mais conseguem encobrir a insatisfação dos seus contribuintes com relação aos seus assuntos internos. Teoricamente, essa tática garantiria que tais países se colocassem para o público nacional e internacional como salvadoras de si mesmas, quando não de outras pátrias. Se tal ideia delirante fosse verdadeira, poderíamos até chegar a pensar que a Rússia declarou guerra à Ucrânia para criar uma cortina de fumaça. “Navalny”, filme dirigido por Daniel Roher, e premiado como Melhor Documentário no Oscar 2023, não só insinua levar essa fantasia a cabo, como apresenta-se como sustentáculo dela. E não para por aí.

 

O documentário leva no título o sobrenome de Alexei Navalny. O advogado de 46 anos que se tornou o principal representante da oposição ao governo autoritário de Vladimir Putin. Navalny, antes de ser condenado a 9 anos de prisão na Rússia, utilizava suas redes sociais, sobretudo seu canal no YouTube, para se comunicar com seus milhões de apoiadores e denunciar possíveis casos de corrupção e a perseguição que sofria por parte do governo de Putin. No entanto, Navalny recebeu destaque global quando, em agosto de 2020, entrou em coma por suspeita de envenenamento com um  agente químico nervoso do grupo Novichok. O mesmo agente químico foi utilizado na morte de outras personalidades importantes para o Putin, como o ex-espião russo Sergei Skripal e sua filha, Yulia Skripal, envenenados dois anos antes, em 2018. O documentário acompanha os resultados da investigação do atentado sofrido por Alexei Navalny explorando essa forte ligação entre o agente químico utilizado no seu provável envenenamento e o Kremlin.

 

Realizado pela BBC com nítido tom de denúncia,  “Navalny” apresenta-nos uma forte veia sensacionalista que não se deve à gravidade dos fatos apresentados, à relevância do tema ou simplesmente ao seu formato, mas deve-se sim à persona promovida pelo filme. Alexei, desde a primeira cena já expressa toda sua teatralidade que mais tarde percebemos ser pilar do filme e também da tentativa de fazer com que o público se apaixone pelo suposto símbolo da libertação russa.

 

Alexei que apresenta-se como representante de uma nova forma de fazer política “pelo futuro da Rússia”, é também o mesmo que se diz responsável pela formação de uma frente ampla pela liberdade russa, sem em momento algum usar a palavra “democracia” no filme. Alexei alega ser silenciado pelos meios de comunicação oficiais da Rússia e ter seus comícios proibidos, embora sem usar a palavra “censura”. Concomitantemente, ele liderava seu próprio canal  que investigava e divulgava por conta própria casos que considerava ser de corrupção. Utilizando assim uma agenda anticorrupção para desmoralizar o governo. E não para por aí: a investigação sobre seu envenenamento foi realizada por um voluntário que teoricamente descobriu tudo sozinho com um velho computador. A tal investigação foi compartilhada com a imprensa e mundialmente disseminada.

 

É um tema sensível e cheio de contradições que o filme tenta silenciar. Porém, ao fazê-lo só consegue alardeá-las com sua abordagem sensacionalista, para não dizer propagandista, que torna a leitura dos fatos tão impressionante que torna-os quase irreais. A edição, a trilha sonora e o roteiro são típicos da mais clichê ficção, a tal ponto que enfraquece seu viés de honesta denúncia. Também percebe-se com esse artifício a dificuldade que é pensar e encarar as contradições ou desenganos inerentes à imperfeição. Tudo no filme parece rastros de um pincel a pintar o retrato da perfeição. E no final o que parece ser uma tragédia é, na verdade, a semente da sua vitória.

 

Tendo em vista que nem tecnicamente nem narrativamente o documentário “Navalny” parece ser merecedor do prêmio de Melhor Documentário que ganhou no Oscar, somos levados a cogitar a hipótese de uma tentativa aparentemente bem-sucedida de dar viabilidade ao filme e, consequente, a saga enfrentada por Alexi Navalny contra o autoritarismo na Rússia de Putin. Se foi mesmo essa a intenção da premiação, é válida. Aliás, tanto quanto a preocupação com a veracidade da narrativa que nos é apresentada e, por fim, a preocupação sobre as possíveis consequências de tão bem visualizá-lo. Porque, mesmo que se alegue questões puramente técnicas, é o que ocorrerá.

 

Por: João Victor Guimarães

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