Centenas de cartas…

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Ao longo da minha vida escrevi muitas centenas de cartas, umas à mão, outras dactilografadas, outras escritas no computador, e nunca a ferramenta de escrita foi neutra, tendo mesmo determinado, nalguns casos, o modo de dizer, a gestão das hesitações ou o burilar do texto.

Contudo, o que verdadeiramente sempre imperou foi o conteúdo e a expectativa de que, do outro lado, alguém (sempre bem definido) as recebesse e as lesse e, em muitos casos, respondesse.

No primeiro ano do namoro que levou ao nosso casamento, agora com trinta e cinco anos, escrevi cento e três cartas e recebi cento e seis. Era a vida que se contava, com naturalidade, detalhe e paixão, sem respeitar a regra da pergunta e da resposta, do correio de ida e do correio de volta. Hoje, transformadas tantas palavras manuscritas em mensagens digitais, de texto curto, seriam talvez quinze a vinte por dia, número perfeitamente aceitável para a atual voracidade de comunicação.

Há cerca de vinte anos, todas as manhãs, bem cedo, enviava um Fax com recomendações várias para os meus colaboradores num serviço onde só podia chegar mais tarde.

Também por essa altura, fiz muitos quilómetros no estrangeiro, com várias pessoas, sem GPS, nem telemóvel, com um contacto de “socorro” em Portugal para o caso de nos perdermos. Servia para o efeito o célebre “cartão Marconi” que permitia telefonar para casa, sem moedas, depois de teclar, em qualquer cabine telefónica, um conjunto de códigos que, por vezes, chegava aos 30 algarismos.

A minha história, como a de todos nós, pode ser contada de muitas maneiras e uma delas é a da cronologia da nossa adesão às ferramentas tecnológicas que nos últimos cinquenta anos tiveram alterações tão significativas, mas vou parar por aqui porque recordo estas e outras aventuras com prazer ou tristeza, conforme o significado que à data tiveram, mas sem qualquer ponta de nostalgia. Olho do mesmo modo para o futuro, tentando adivinhar o que não é adivinhável, mas sem qualquer desconfiança ou receio paralisante.

Como vai ser a nossa vida depois do mergulho digital e da vida online e à distância a que fomos obrigados recentemente? O ensino superior vai ser pior ou melhor? Entrámos “finalmente” na era digital?

Não acredito num futuro inevitavelmente pior, nem num futuro milagrosamente melhor. Acredito, isso sim, na nossa capacidade (obrigação) de ir fazendo ciclos de entusiasmo (às vezes de quase endeusamento) alternados com ciclos de distanciamento intelectual para reflexão, para ver o essencial, para aproveitar o melhor de dois (ou muitos?) mundos.

Durante a pandemia reinventei o meu modo de ensinar. Filmei, partilhei milhares de imagens, organizei visitas virtuais, debates improváveis, tive sucessos e insucessos, envolvi-me em entusiasmos e desesperos.

Vivi a profissão de modo diferente, mas assumi desde início um compromisso comigo próprio, nem sempre tão bem sucedido como gostaria, de não deixar que o entusiasmo do digital pudesse enevoar o mais importante: as pessoas, os meus interlocutores, a mensagem e os seus objetivos.

E agora?

Agora vou rever o que de melhor posso juntar a este puzzle de palavras e significados que sempre me tem acompanhado no ensino: objetivos, motivação, pedagogia, conteúdos, interlocutores e recursos.

Agora, nas aulas presenciais, vou aprender a ler melhor a expressão dos olhos e o movimento da cabeça, numa nova forma de comunicação em que a máscara nos corta o sorriso da cumplicidade, o comprimir dos lábios da dúvida, o rubor embaraçado do elogio, …

Agora, nas aulas online, vou fazer por estar perto de quem está longe, criando laços de forma diferente, com contornos e longevidade que desconhecemos, vou aprender a olhar para as pessoas e não para a câmara, vou partilhar as emoções que, aqui, sem máscara, não serão forçadas a ocultar-se.

Agora vão ter forma diferente as centenas de “cartas” que vou continuar a escrever, mas vai correr bem!

Por : Raimundo Mendes da Silva

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