CALDO DE FARINHA

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Por descuido meu, ao abrir o frigorífico hoje, ao levantar-me, verifiquei que se me acabara o leite. Recuei oitenta e qualquer coisa anos, ao tempo de minha avó, e fiz um delicioso caldo de farinha.
Caldo de farinha, assim se chamava uma beberragem que se tomava quente e em substituição do leite, ao fim do serão, antes do deitar, ou pela manhã, a acompanhar torradas com toucinho cozido sobrado do jantar da véspera.
Em água fria, a minha avó diluía a quantidade necessária de farinha de trigo, da mais fina, isto é, a que fora joeirada na peneira de malha mais apertada. Esta mistura, a fazer de leite, ia ao lume, numa “chocolateira” de barro, aromatizada com uma casquinha de limão e uma colherzinha de banha, dizia ela, para dar sustento. Antes do caldo levantar fervura, juntava-lhe o açúcar e ia-se mexendo sempre com uma colher de pau até engrossar na medida do pretendido. Em algumas casas acrescentava-se pó de cacau à farinha, preparando assim o chocolate e, daí, o chamarmos chocolateiras às vulgaríssimas cafeteiras. Uma variante muito perfumada deste caldo era preparada com a farinha levemente torrada, o que era conseguido ao lume sobre um tabuleiro de lata, mexendo sempre com a colher para que ficasse uniformemente alourada.

António Galopim de Carvalho

 

 

 

 

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