Black Light – MARGARET WATKINS (1884-1969)

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Margaret Watkins ajudou a moldar a História da Fotografia. Apesar da falta de reconhecimento, o seu nome está à altura dos de figuras-chave como Clarence H. White, Gertrude Käsebier, Alice Boughton, Margaret Bourke-White, Alfred Stieglitz ou Georgia O’Keeffe. Os contributos de Watkins foram importantes para a ativação de certas caraterísticas específicas da linguagem fotográfica, permitindo que esta se tornasse, para parafrasear László Moholy-Nagy, num verdadeiro instrumento de expressão que nos ajuda a ver o mundo de outra forma, e não apenas num substituto mecânico da Pintura Histórica. Watkins viria a estabelecer a ligação entre um pictorialismo à procura de identidade e o modernismo das vanguardas.

Nascida em Hamilton, na província de Ontário, em 1884, no seio de uma família de retalhistas abastados, Watkins, cedo revelou sensibilidade artística que, ainda durante a infância, desenvolveu através dos estudos de piano, do desenho e da poesia. Mais tarde, interessou-se também pela geologia, que viria a influenciar a narrativa e a textura da sua linguagem fotográfica, desenvolvida num mundo pleno de possibilidades  pela diversidade de todas essas linguagens. Assim, estabeleceu um diálogo constante entre a Arte e a vida doméstica, cujo assunto e objeto se fundem num só, e utilizou este conceito ao longo da sua carreira, tanto no seu trabalho pessoal como nas suas imagens publicitárias.

Entre 1909 e 1914 atravessou um período intenso de formação que, depois de várias etapas, a levou à Escola de Fotografia Clarence H. White, no Maine (1914). White tornou-se mentor de Margaret Watkins e os princípios da sua escola, essencialmente dedicada à fotografia pictorialista, marcaram profundamente a linguagem fotográfica de Watkins. As suas composições equilibradas e harmoniosas constroem-se sobre uma manipulação extraordinária das linhas curvas e das diferentes proporções entre o vazio e a plenitude.

Depois de passar algum tempo no estúdio de Jamieson e de com ele aprender a desenhar com ele, em 1915, Watkins mudou-se para Nova Iorque. Tornou-se então assistente de Alice Boughton, uma fotógrafa e ilustradora de renome, cujo estúdio era ponto de paragem habitual para muitas personalidades do mundo da arte, da literatura e do teatro, como William Butler Yeats, Eugene O’Neill, Robert Louis Stevenson ou Henry James.

Alguns anos mais tarde, em 1918, Watkins abriu o seu próprio negócio e passou a colaborar mais frequentemente com grandes agências publicitárias como a Condé Nast, a Reimers and Osborn Inc. Advertising ou a Fairfax Agency, tendo sido publicada regularmente em revistas de grande circulação como The New YorkerLadies’ Home Journal e Country. Ao mesmo tempo, era professora na Escola de Fotografia Clarence H. White, em Nova Iorque.

Watkins teve uma carreira notável como fotógrafa independente, que continuou a crescer durante os anos 20. Antecipou uma estética de vanguarda no desenho gráfico que já se espalhara pela Europa e cujas origens remontavam à Bauhaus. A sua obra ganhou visibilidade e notoriedade e foi alvo de várias exposições coletivas e individuais, a mais importante das quais teve lugar no Art Center, em Nova Iorque, em 1923.

A súbita morte de Clarence White, em 1925, assinalou o início do declínio da carreira de Watkins, que terminaria em 1928, com a sua precipitada partida para a Europa para visitar as tias em Glasgow, onde acabaria por permanecer, para cuidar delas. Durante a década de de 30, visitou outras cidades na Europa e na Rússia, onde tirou fotografias que demonstram a sua capacidade de antecipar as principais revoluções estéticas e conceptuais que se seguiriam. Apanhada pelos eventos históricos em vésperas da Segunda Guerra Mundial, Watkins desistiu da sua carreira.

Margaret Watkins morreu em Glasgow, em novembro de 1969. Pouco tempo antes, teve o cuidado de entregar ao seu jovem vizinho, Joseph Mulholland, uma caixa preta, selada, cheia de fotografias e negativos, sem o informar do conteúdo da mesma. Mulholland tornou-se, assim, por puro acaso, consignatário daquela vida incompleta, acabando por permitir que esta exposição retrospetiva da obra de Watkins se tornasse realidade.

Esta visionária sem rosto e sem sombra merece o seu lugar ao lado dos grandes nomes da fotografia, para que a sua fugidia luz negra possa continuar a iluminar o caminho através do reino desconhecido da História.

Anne Morin

Curadora

Fotografia: © Margaret Watkins by Frances Bode. Clarence H. White School of Photography, 1921

Fonte: https://www.fundacaodomluis.pt/expositions/margaret-watkins

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