Bem-haja, António Prata

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Escrever crónicas ou colunas de opinião regulares não é pera doce. João Pereira Coutinho, um dos grandes cronistas portugueses, descreveu o processo no seu livro “Vamos ao que interessa”: “Colunismo é doença. Para alguns, obsessiva doença. Não sou excepção. Os primeiros sintomas começam nas rotinas do dia: lemos, ouvimos, pensamos. Vivemos. E então surge um tema, um abusivo tema, que nos persegue como uma sombra de film noir. Tentamos tudo: fugir dela; enganá-la com distrações mundanas; adormecer depressa, acordar devagar. Mas a sombra continua. Ao nosso lado, para nosso desagrado. É hora de desistir: pegar na caneta e no papel – e escrever de uma vez por todas os contornos embaraçosos de semelhante assombração.”

Mas, afinal, o que distingue o cronista do comum dos mortais e o que explica tão penoso processo de criatividade? Será, talvez, a sua capacidade de escrever sobre qualquer tema – desde as “rotinas do dia”, passando pela mosca que passa a planar até à imagem dos amigos na praia ou dos amantes no café – explorando o que nele há de menos óbvio, de uma forma caricata e graciosa. O Brasil, um dos temas deste número da Bica, foi descrito como o “país da crónica”. Basta pensar em nomes como Rubem Braga, Millôr Fernandes e, mais recentemente, António Prata.

Acompanho há muito tempo as crónicas de Prata e regresso às mesmas sempre que posso. Por exemplo, é reconfortante saber que não sou apenas eu que, aproximandome da faixa etária dos 30, me considero “jovem demais para envelhecer” (28 de abril de 2018). Tal como Prata, também me considero nova demais para ficar velha. Mas as crónicas que visito mais vezes são “Recordação” (5 de junho de 2013) e “Estiagem (16 de fevereiro de 2014). Na primeira, António Prata conta a história de um taxista que, durante uma curta viagem, relata a um passageiro as circunstâncias da sua vida amorosa: naquela data, não fosse a vida ter acontecido, faria 25 anos de casado. O maior lamento do taxista não é a separação em si mesma, algo que nunca é disputado pelo próprio, mas o facto de não ter uma fotografia da ex-mulher, “fazendo as coisas dela”, as “pequenas” coisas essas que, digo eu, verdadeiramente compõem uma pessoa, uma relação, e deveriam compor a memória que delas construímos. Volto com frequência a esta “Recordação” porque ela é, para mim, o relato mais delicioso daquele verso que Sérgio Godinho cantou, “a vida é feita de pequenos nada”, remixado pelo Gabriel o Pensador que acrescentou ao verso de Godinho, no seu Opus Magnum “Tas a ver”, “que a gente saboreia mas não dá valor”: “a vida é feita de pequenos nada/que a gente saboreia mas não dá valor”. Pois é. “Estiagem”, por seu turno, é o meu conforto quando, como Prata, sinto o “peito apertado” ao constatar que o meu país e o mundo em geral são lugares estranhos onde a esperança, como no amor de Paulo Mendes, morre a toda a hora, em toda a parte, e o cinismo grassa ou é a fonte da minha, da nossa, paz interior. Nesta crónica de 2014 António Prata termina confessando que, nestas alturas de dúvida, nestas emergências, recorre a Rubem Braga. No meu caso, em momentos de emergência, recorro a si, caro António, a estas e a outras das suas crónicas. Bem-haja.

 

Por: Graça Canto Moniz

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