As salas de outros tempos

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Nos dias de hoje não há nada de memorável numa sala de cinema. Aliás, a sala de cinema, enquanto espaço que proporciona uma experiência, de quinhentos ou mil lugares, cosmicamente escura, silenciosa, amniótica, espiritualmente preparada para permitir um modo de viver as imagens, para estimular a evasão, o devaneio, o “sonhar acordado”, acabou. Noutro tempo, as salas de cinemas, eram decoradas com cortinados longos, espessos, pesados, que abriam, majestosamente, no início de cada espetáculo, como que autorizando o acesso do espectador à dimensão onírica do cinema. Assistia-se, justamente, a um espetáculo composto por vários elementos que manipulavam a integridade e a o esta- do mental do espectador, a sua experiência intelectual dentro e fora da sala.

Ir ver um filme era um happening que obrigava a algo mais do que estar sentado, em silêncio, com os olhos erguidos para uma tela. Vestia-se um casaco, exigia-se uma gravata; via-se, vivia-se, celebrava-se, pensava-se o filme, não se ia ao cinema; havia espectadores, hoje há um público, essa coletividade que está acima do indivíduo. Seria e. e. cummings, que dizia que aquele que coloca um coletivo acima do indivíduo é um hipócrita, um bajulador? Creio que sim.

A grande maioria das salas de cinema de Lisboa (Éden, Condes, Capitólio, Europa, Império, tantas outras) não resistiu à passagem dos anos e foram absorvidas pelos novos hábitos de consumo e de lazer e por novas tecnologias que nos prendem aos filmes on demand, aos Donald Draper’s da vida e ao conforto dos nossos sofás. Restam as salas multiplex, impessoais e com falta de identidade, herméticas, encafuadas em superfícies comerciais de onde sai um público que poderia sair de qualquer uma das outras lojas do centro comercial. O cinema é apenas mais uma das formas de entretenimento que o centro comercial oferece a um público preguiçoso e esquecido do verbo “contemplar”, esse confronto pessoal que permite à alma deambulações do acaso, esse ato maravilhoso de demorar um olhar que escapa da realidade em direção ao que é bonito, bizarro, estranho, ou simplesmente ao nada.

Esta trágica tendência não é exclusivamente portuguesa ou lisboeta. Basta assistir a “Chacun Son Cinéma: une déclaration d’amour au grand écran” (uma antologia de filmes comissionada pela 60a edição do festival de Cannes) onde vários cineastas encenam pequenas histórias que se desenrolam em salas vazias e abandonadas. Andrei Konchalovsky filma a empregada de uma bilheteira que é a única espectadora do filme em cartaz; Nanni Moretti recorda os filmes que viu filmando várias salas de cinema sem ninguém; Atom Egoyan encena uma conversa telefónica de dois espetadores em salas diferentes.

Das salas lisboetas, resta o agora espaço Nimas, que não é uma amostra rigorosa do esplendor desses outros tempos, mas é onde gostava de passar mais tempo do que aquele que a vida me permite. Mas, se verdadeiramente pudesse escolher, escolhia visitar aquele tempo perdido e todas essas salas que foram demolidas ou fecharam para dar lugar a supermercados, bancos, igrejas. Os saudosistas costumam proclamar que as suas épocas foram as melhores de sempre. No que diz respeito ao cinema, não será esse o meu caso.

Graça Canto Moniz

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