Arredar a pós-verdade

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Escrevo no rescaldo do 4º Congresso dos Jornalistas, evento que tanto tardou a ser realizado (o Congresso anterior foi em 1998!) e onde muito se debateu, pelo que pude ler pela imprensa, o futuro do papel dos jornalistas, da indústria dos media e os desafios que os meios de comunicação digitais, entenda-se as redes sociais, têm vindo a despoletar num setor que vive mudanças sem precedentes. É verdade que as redes sociais vieram alargar o espaço público de intervenção dos cidadãos com efeitos claros na forma como todos podemos de forma fácil e eficaz disseminar os nossos pontos de vista sobre qualquer tema que nos suscite interesse. Contudo, se os anónimos têm agora mais espaço para espraiar os seus pontos de vista, uns com mais influência do que outros, também aqueles que têm interesses maiores em comunicar se adaptaram a este novo sistema, inovando nos formatos e nas plataformas em que comunicam com o objetivo de ser mais eficaz mas também menos incomodados, sobretudo por jornalistas inconformados. Na prática, a estratégia passa por suplantar o “quarto poder” optando por utilizar uma comunicação paralela, o que tem vindo a pôr em causa parte do importantíssimo papel que a imprensa desempenha nas sociedades democráticas: fiscalizar a veracidade da informação a veicular, cruzar fontes e pontos de vista e, sob a égide de um órgão de comunicação social devidamente reconhecido, bem informar os cidadãos.

Ora, a intrusão dos social media nas nossas vidas tem feito com que vários poderes, nomeadamente o poder político, adotem novas formas de comunicar de forma muito ampla e abrangente mas que permite manter um distanciamento da imprensa muito conveniente, impedindo-a, muitas vezes, de exercer a tão essencial sindicância por parte dos meios de comunicação social para um correcto tratamento da informação. Ainda recentemente, um Ministro do atual Governo publicou um vídeo no Twitter onde explica determinada decisão política e o impacto que essa medida tem na vida dos cidadãos, neste caso de cidadãos aposentados. Ora, a troca da clássica conferência de imprensa por um momento de comunicação deste género enfraquece a imprensa tradicional que numa democracia se quer robusta, bem de saúde e minimamente independente, dentro das actuais regras de mercado. (Neste aspeto o Congresso dos Jornalistas aprovou uma resolução que há muito deveria vigorar em Portugal: não comparecer a conferências de imprensa em que não esteja previsto o direito a perguntas por parte dos jornalistas.)

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