A Lisboa que os Maias vieram a habitar em 2026, é um testemunho de que, nem sempre se mudam as vontades, apesar da mudança dos tempos.
Em 2026, Carlos Eduardo é médico interno no Santa Maria.
Entre um plantão e outro, sente falta dos anos passados em Coimbra, quando a pressão era outra e a vida tinha um ritmo menos impiedoso.
Agora, com as greves recorrentes nos hospitais, Carlos vê-se obrigado a assumir turnos irregulares e extenuantes, enfrentando a precariedade crescente do SNS. Por vezes, não consegue evitar pensar: se ao menos eu tivesse feito o mesmo que alguns colegas, talvez hoje estivesse longe deste esgotamento.
Afinal, basta recordar o recente escândalo no Hospital: um dermatologista que, em apenas dez sábados de cirurgias adicionais, conseguiu arrecadar mais de quatrocentos mil euros, chegando a receber cinquenta e um mil num único dia.
É também na capital que vemos o mais novo do clã Maia saltar entre os seus turnos no hospital e debates filosóficos dignos de prémio Nobel ali mesmo, junto à Avenida da Liberdade.
Por aqui, os velhos cafés evaporaram-se e, no seu lugar brotam lojas de roupa franchising e alojamentos locais, como se a cidade estivesse numa competição desenfreada de modernidade que não consegue suportar sem comprometer descaracterizar a sua essência portuguesa.
João da Ega, por sua vez, sempre acabou o curso e é… ou melhor era estagiário numa grande firma de advogados, por cunha do avô de Carlos, cliente de longa data. No entanto, a sua vida boémia interferia com os horários no escritório, pelo que agora dedica-se exclusivamente a ser RP das discotecas da capital, ou como gosta de descrever às suas tias nortenhas, “Consultor de Relações Interpessoais e Experiências Noturnas”.
Nesta mesma altura, Dâmaso regressa, desta vez do Dubai, onde fez fortuna através de cripto moeda e de dropshiping. O episódio emblemático da personagem já não envolve um fatinho branco para as corridas de cavalos, mas sim um visual cuidadosamente escolhido para a Web Summit.
Dâmaso, desejando marcar presença entre unicórnios tecnológicos e investidores de todo o mundo, aparece no evento ostentando um fato slim fit branco-neve, uns ténis de marca e um whoop num pulso, Rolex no outro para ter o “melhor dos dois mundos”, tudo imortalizado numa sequência de stories no Instagram. O seu fatinho branco evoluiu, mas o desejo de ser visto e comentado permanece intacto.
Maria Eduarda tenta afirmar-se como digital influencer em Lisboa, mas a vida complica-se: é mãe solteira, enfrenta rendas elevadas e a falta de apoio das creches, sempre entre greves e vagas inexistentes. Os compromissos profissionais acumulam-se, o sentimento de instabilidade também.
Cruza-se com Carlos Eduardo na inauguração de um restaurante da moda, daqueles que servem experiências em vez de comida. Entre olhares cúmplices e conversas sarcásticas nasce uma ligação inesperada. Ambos se sentem deslocados no ritmo frenético da cidade e descobrem, nas ironias partilhadas, um refúgio improvável.
Depois de semanas de trabalho e pressão, Carlos e Maria Eduarda decidem que merecem uma pausa das atribulações lisboetas. Entre conversas apressadas no Instagram, planeiam uma escapadinha à Comporta.
Nada de Paris, Saint Tropez, Míconos ou Les Trois Vallées, até porque claramente já lá estiveram. A nova elite intelectual portuguesa prefere o refúgio costeiro, onde o silêncio é tão cobiçado quanto uma reserva num restaurante de autor e onde as redes sociais se alimentam de pores-do-sol filtrados.
Maria Eduarda partilha stories da viagem, sempre à procura do ângulo perfeito para captar o lifestyle que inspira sonhos e faz angariar colaborações com marcas. Carlos, mais discreto, observa o cenário, reflete sobre o contraste entre a calma da praia e o caos do hospital.
Enquanto isso, em Lisboa, a saga dos Maias ganha novos contornos. Afonso da Maia, sempre fiel à tradição, vê-se obrigado a adaptar-se aos novos tempos: o Ramalhete, outrora símbolo da estabilidade familiar, transforma‑se agora num negócio de arrendamento de quartos via plataformas digitais. “Os investimentos no BES revelaram-se uma verdadeira armadilha! “, como dizia Vilaça.
Nómadas digitais, influencers em busca de espaços com “charme histórico”, e estudantes estrangeiros povoam os salões outrora reservados a soirées aristocráticas. O dinheiro do arrendamento paga as contas, mas a atmosfera do lugar é uma colagem de sotaques e estilos, que em nada se assemelha aos aos seus anos gloriosos.
O segredo familiar revela-se num presente envenenado do século XXI: um kit de ADN oferecido como presente. O que parecia apenas uma curiosidade moderna para descobrir ascendências exóticas, percentagens distantes e tios improváveis acaba por revelar o impensável: Carlos e Maria Eduarda são irmãos.
Durante semanas, o caso alastra-se às redes sociais e aos programas cor-de-rosa, alimentando especulações sem fim e deixando os protagonistas expostos ao olhar público.
Perante tamanha circunspeção, Maria Eduarda muda-se para Madrid e o velho Afonso, ainda que bastante abalado, refugia-se no Alentejo. Por sua vez, Carlos Eduardo decide fazer uma viagem por tempo indeterminado pelo sudeste asiático, para se “reencontrar” e decide levar consigo o seu fiel escudeiro, João da Ega.
De malas feitas e, já atrasados, correm para o metro, para chegar ao Aeroporto.
“Ainda o apanhamos!” diz João ofegante, mas, ao chegarem à estação, no letreiro eletrónico lê-se apenas “Greve – Circulação Interrompida”.
João suspira: “Ai menino… Lisboa inteira está como esta estação: em suspenso. Nada parte, nada chega, nada se cumpre. Aqui não há quem viva!”.
Por: Rita São Bento
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